2012-06-19

existe, pois

Sem carácter e sem estilo quando se entrava e se passava diante dele, esse jardim medíocre parecera-me tão pouco promissor, mas então achou-se alterado num ápice, tornado jardim paradisíaco...e eu alguns passos defronte, e tão naturalmente que já não sabia há quanto tempo lá estava, no Jardim dos Jardins, aquele em que não se pensa em mais nada, que nos enche inteiramente e que, por nada deste mundo, nem sequer pelo tempo, pode ser ultrapassado, um verdadeiro jardim do paraíso.


Com que então era possível, e sem maçã, nem serpente nem Deus castigador, apenas o paraíso inesperado. E sem necessidade de me mexer, diante da árvores que era o seu centro, de uma imensa copa, de folhas carnudas e amareladas, anunciadoras douradas do Outono próximo.


Henri Michaux in Antologia
Tradução Margarida Vale de Gato,
Relógio D'Agua

6 comentários:

  1. Maria, este é o jardim de um paraíso que, eu sei, nunca vou alcançar, porque sou pecador, porque o etéreo é terra, a terra que amo e que abraço, nos passos dos beijos com que a beijo...

    Um beijo, Maria.

    TERRA ARDENTE […paixão]!

    Terra… terra da minha terra!

    Terra preta, castanha, barro, dura, mole, pó… Estrada da minha vida, abraçando os promontórios, beijando a raiz das árvores, voando nos sonhos do vento, acariciando-me os pés quando a piso, fundamento na subida ao etéreo…

    Terra, no selvagem e fome de mim, profanei-te, quando te desbravei, desnudei, cavei e esventrei, em troca, numa orna de misticismo, deste-me prados verdejantes de jardins floridos, árvores de doces frutos suspensos no infinito, searas douradas de ondulante pão, regatos povoados de virgens águas…

    Terra, que foste o meu lençol quando a minha manta era o céu, o meu perfume quando as chuvas de verão entravam em ti, o meu sabor quando te comia misturada com o pedaço de broa, a minha sede quando te bebia no salgado do suor do rosto…

    Terra, na perdição dos dias, em que me faltam horas e sobram silêncios, deixo passar o tempo no desbaratar da vida, mas nunca te esqueço, sou o amante que tarda mas sempre regressa, porque te quero, porque te amo…
    Quando chego ao íntimo de ti, não me inclino para saudar-te, tu sabes:

    Quando te piso
    E te violo ao passar,
    Meus pés são beijos,
    Ânsias, desejos…
    Loucura de te beijar!

    Terra, deusa minha, culto eterno da minha vida! Em ti descobri a paixão dos meus sonhos, bebi na inspiração da tua poesia, ouvi melodias no grito dos meus silêncios, vivi quimeras na visão de mouras encantadas naquela caverna do meio da serra…

    Terra, na imagem do teu relevo, no encanto dos montes e vales, no fascínio dos socalcos e veredas, os meus olhos vislumbram, reflectido na luz, na refracção utópica dos devaneios do meu ser, o êxtase dos meus desejos, o teu corpo de mulher.

    Terra, amanhã, vou dormir contigo, ficar em ti, perpetuar os nossos beijos, num abraço sem fim!

    Carlos Manuel Fernandes Gonçalves

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  2. olá, Carlos Gonçalves. Acabaste de me dar cabo das audiências, mas prazer em conhecer-te. (saber o teu nome)

    Bom, és pecador. Conheces alguém que não o seja?

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  3. Maria, vou-te deixar com as tuas audiências, desculpa, fui penetra em casa alheia...

    Um beijo.

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  4. Carlos,

    ambos sabemos que não nos conhecemos e nem sequer virtualmente nos tínhamos cruzado.

    Por opção (e não vejo razões para mudar o que quer que seja)não tenho qualquer espécie de moderação de comentários.

    Livremente, comentaste do modo que entendeste. Do mesmo modo, respondi aos teus comentários.

    A questão das audiências era uma brincadeira. Para dizer que, agora que assumiste a tua(?!) identidade (até tens foto e tudo), acabou o suspense do enredo que tinhas mantido até aqui. Tu é que sabes as razões do teu agir. Eu não levei nada disso a mal. Se me tivesse sentido incomodada (aliás, da vez que parecias sugerir uma intimidade que não tínhamos, eu referi isso mesmo), não respondia aos teus comentários. Não tens que pedir desculpa de nada. Não há nada que desculpar.

    Contextualizaste muito bem, estes comentários como "devaneio poético". Eu não preciso de mais explicações. Aliás, nem precisava de nenhumas.

    E o ir ou ficar, é decisão tua.

    beijo

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  5. Maria, tudo que disseste é verdade, sem necessidade daquelas interrogações/exclamações na 'tua' identidade, nunca gostei de identidades alheias, por isso me identifiquei para não deixar quaisquer equívocos, no início, confesso, entrei no teu blog no sentido de contestar algo em que não acredito e era apenas para ser um efémero contestatário, depois gostei de alguns posts teus e acabei por ficar... obrigado pela tua compreensão, não nego gostei da forma como abordas, pensas e sentes este tema da religião, da igreja, tu não afastas os não crentes, aproximas-te deles, gostei!

    Um beijo, Maria, noite de muitos encantos para ti.

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  6. Carlos,

    já deves ter a experiência das dificuldades do diálogo. Para se manter um diálogo proveitoso, são necessários vários atributos. Um deles é o acolhimento. E a confiança. Esta, em primeiro lugar, em si próprio. E depois naquele com quem se dialoga. Isto vale também para as pessoas da Igreja. Ou os crentes de qualquer grupo religioso. As intenções muitas vezes até são boas. Falta saber ir confiadamente ao encontro do outro. E também saber dizer "não" quando é preciso.

    As dificuldades que sentes em relação aos crentes, vêm da tensão dos tempos que vivemos. Passou-se da situação em que se era naturalmente católico (isto no caso português)para a situação em que se têm de conhecer e delimitar os espaços de intervenção do religioso na sociedade. No meu caso pessoal, sempre vivi essa tensão. Cresci com ela. Uma parte da família era crente e "praticante", outra não. Reconheço agora que acabei por ganhar com isso.

    Beijo e boa noite também para ti.

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