2012-07-31

se canto, não me dói tanto

parvulário

Física nuclear de acuerdo con la mística



La ingenuidad teológica de los neoconservadores fundamentalistas norteamericanos llega hasta la ridiculez de decir que hay que defender la Creación frente al Big Bang. Y la ingenuidad anti-teológica hace decir, al público mal informado en el bando contrario, que hay que defender el Big Bang en contra de la Creación. Como si no supiéramos que son dos maneras de percibir y expresar la misma realidad, científica y mitopoéticamente.
¿La primera partícula o la última? ¿Partícula maldita o bendita, divina o atea? ¿Qué etiqueta le colgamos al bosón de Higgs? En los comentarios a la ligera sobre el descubrimiento de los investigadores del CERN, se precipitaron las ideologías religiosas, al unísono con las antireligiosas, para usar la noticia en favor de la Creación, por un bando, o de su rechazo, por el contrincante.
Si viviera Laín Entralgo, puntualizaría que la investigación cuántica sobre las partículas subnucleares pertenece al dominio de “certidumbres empíricas sobre lo penúltimo”, compatible sin conflicto con la certeza de las “creencias en incertidumbre sobre lo Último”. Así escribía nuestro gran médico filósofo en el ensayo que le mereció, en 1999, el Premio Jovellanos: “Para la mente humana, lo cierto es y será siempre penúltimo, y lo último es y será siempre incierto... Los saberes científicos nos ilustran con verdad y evidencia acerca de cómo son las cosas, cómo se nos muestran, cómo han llegado a ser lo que son y cómo hacen lo que hacen, no qué son para mostrársenos como se nos muestran... En el arte de bien combinar entre sí lo que para el hombre es cierto y penúltimo (los resultados de la mejor ciencia...) y lo que es último e incierto (lo que enuncian las creencias, sean profanas o religiosas, cuando son la respuesta razonable a preguntas últimas), está la clave de la armonía intelectual” (Qué es el hombre, pp. 220-23).
Con semejante armonía respondía Fabiola Gianotti, coordinadora de experimentos en el proyecto de búsqueda de la incógnita partícula; fue sensata, además de exacta, científica y religiosamente, su contestación: “La ciencia seguramente nunca podrá demostrar ni la existencia ni la inexistencia de Dios”.
Pero aún quedan resabios de la apologética decimonónica del “Dios-tapa-agujeros”; se defendían contra la ciencia haciendo cantar en la catequesis del parvulario los ripios de la causalidad: “No hay reloj sin relojero / ni mundo sin Creador /el que no lo vea está ciego/ que el mundo lo hizo Dios”. Esta confusión de poner la fe en la creación al nivel de las causas físicas, solo sirve para provocar su rechazo. No es extraño que Hawkins, como científico no creyente, ironice cuestionando: “Si el universo no tiene límites ni fronteras, ni principio ni fin, ¿Qué sitio queda para un creador?”
No era con aquella apologética anticuada, sino con mejor teología como respondía a Hawkins el sacerdote anglicano, matemático y físico, John Polkinghorn: “El lugar que queda para el Creador no es un sitio al principio, sino en todos y cada sitio. La creación no es algo que Dios hiciera hace quince billones de años, sino algo que está haciendo aquí y ahora continuamente” (Cf. The Faith of a Physicist, p.73).
El papel divino no es un puntapié inicial al balón del big bang para desencadenar la evolución. No comparemos la acción creadora con un saque de honor al comienzo, sino con al aire que se respira durante toda la competición.
Imaginemos el despliegue de la evolución cósmica como una línea sinuosa, con avances y retrocesos por la superficie de una esfera. Para hablar de creación trazaremos un radio hasta cada punto de la superficie, todos equidistantes del centro. La creación no es algo pasado, está ocurriendo continuamente. “Te proclamo algo nuevo, secretos que no conoces”, dice Isaías, “ahora están siendo creados, y no antes...” (Is 48, 7).
Por eso, la búsqueda científica de la teoría única no es incompatible con el retorno a la unidad primordial por la mística. Pseudo-ciencias y pseudo-religiones, ideologizadas, son incompatibles. Ciencia y espiritualidad, con docta ignorancia, son hermanables. Ciencia y mística coinciden en plegarse a la realidad, reconocer ignorancia y salir de sí, pasando por la nada para preguntar por todo.
En corrientes de pensamiento orientales no se han desarrollado teorías complicadas sobre evolución o creación, materia y espíritu, fragmentación y unidad. Pero se ha cultivado el retorno a la unidad primordial mediante prácticas corpóreo-espirituales como el yoga: respiración y contemplación.
Al periodista que entrevistó a Higgs en el laboratorio y viajó luego a Bombay para un reportaje sobre el ashram de Swami en Vrindavan (India), le vino bien gustar durante el vuelo unos versos de La Divina Comedia. La sugerencia de Dante vale para pasar del bosón al yoga: “En su hondura descubrí cómo se adentra / atado con amor en un volumen / cuanto por el mundo se desencuaderna”. (Nel suo profondo vidi che s'interna,/ legato con amore in un volume, / ciò che per l'universo si squaderna. Canto 33, del Paraíso).


Juan Masiá Clavel

2012-07-30

o Inominável, ontem, hoje e, quem sabe, amanhã

Nunca foi tão fácil a uma pessoa razoável e informada acreditar na existência do Deus teísta, e no caso dos cristãos, esse é o Deus de Jesus Cristo, o nazareno, que morreu crucificado, foi sepultado, e três dias depois ressuscitou.


Um caminho perigoso e muito escorregadio, este de pretender justificar a fé com o conhecimento humano. Não é sem razão que Teixeira de Pascoaes escreve o seguinte aforismo: «Ser uma coisa evidente é ficar reduzido a quase nada.» O texto bíblico o atesta. Na cultura bíblica Deus é o que não tem nome nem rosto.

diário da alma #4


30Jacob interrogou-o, dizendo: «Peço-te que me digas o teu nome.» «Porque me perguntas o meu nome?» - respondeu ele. E então abençoou-o. 31*Jacob chamou àquele lugar Penuel; «porque vi um ser divino, face a face, e conservei a vida» - disse ele.



Génesis 32, 30-31

sai um sermão, perdão, uma posta de pescada


Há umas semanas atrás era o amor como critério de gestão, mas tal como as marés; o sermão de hoje é farto em postas de pescada: «A maré quando sobe é para todos.» (já se viu é que quando baixa é só para alguns, muitos, quase sempre os mesmos.)
Os desempregados, ora! As famílias que ficam sem casa penhoradas pelo fisco ou entregues aos bancos, ora! Os cortes na saúde, educação e cultura, ora!

2012-07-28

a vida em imagens #9

(no pátio,  hoje de manhã)



...ou então uma voz repentina grita-vos ao coração.


Henri Michaux in Antologia

o homem que tinha várias feridas


O homem que tinha várias feridas espalhadas pelo corpo não sabia que as feridas do coração não têm cura, ele julgava que podia curar-se por inteiro. Mas curado por inteiro um homem fica doente, padece da cura. A ferida do coração mantém-nos vivos, só a morte pode tratá-la.

condicionalismos religiosos



"Jesus não nos dá um saber. Dá-nos o sabor de Deus. Um saborear." Escreve Tolentino Mendonça no livro "Pai-Nosso...". Mas só se consegue saborear quando se confia. Quando há entrega. Mas a nossa endémica insegurança, projecta-nos continuamente para o exercício mental, e dele para o juízo. E a seguir ao juízo, vem a autoridade castradora e dominadora.
Estas atitudes interiores, no ambiente religioso, atingiram estádios de obscurantismo. Exemplo cabal é relatado neste artigo, onde um estudante em 1957, na Espanha dominada pelo franquismo, necessitava escrever ao bispo da diocese para poder ler Maquiavel ou Nietzsche que faziam parte da biblioteca familiar.
Um católico já não se confronta com nenhum índex de leituras, mas nem por isso a mentalidade autoritária e paternalista continuam a querer definir um único saber de Deus.

2012-07-26

a resistir à estagnação







Bóia quadragésima sétima:
Com o camaroeiro tentava apanhar o maior número possível de gotas de chuva.


Bóia quadragésima quinta:
A Mariana, dos seus cabelos longos, retira por vezes, belas borboletas.


"Poesia insuflável - cinquenta bóias e uma pausa para insuflação"
Paulo da Ponte (um amigo do jardim)

e o que fazem as mulheres?


31Quem o viu a fim de o poder descrever?
Quem é capaz de o louvar como Ele é, em toda a sua amplidão? (Ben Sira 43)


As relações humanas e, sobretudo, entre homens e mulheres, decorrem nas dinâmicas de poder e submissão. Na Igreja não é diferente. Os homens  -que detêm o poder de decisão - servem-se de todos os meios para o perpetuar. Até o auto nomearem-se  mediadores exclusivos da vontade de Deus.


2012-07-23

Radio Macau - Quando uma Rosa Morre

o pássaro que se apaga

É durante o dia que ele aparece, no dia mais branco. Pássaro.
Bate as asas, voa. Bate as asas, apaga-se.
Bate as asas, ressurge.
Pousa. E depois desaparece. Com um bater de asas apagou-se no espaço branco.
É assim que se comporta o meu pássaro familiar, o pássaro que vem povoar o céu do meu pequeno pátio. Povoar? Bem se vê de que maneira...
Mas permaneço quieto, a contemplá-lo, fascinado pela sua aparição, fascinado pela sua desaparição.


Henri Michaux


2012-07-21

pretender ser bom é mau. impor que outros o sejam à nossa medida, é péssimo

De atitude decidida, caminhava com passos seguros em direcção ao altar. Inclinou-se, dirigiu-se para o ambão e passou o olhar pelas duas páginas do livro para se assegurar onde começava a segunda leitura. Mas a primeira palavra que iria pronunciar ficou-lhe suspensa na abóbada do céu-da-boca. A voz do padre sobrepôs-se: Francisca, tu não lês porque não comungas. Ela abriu um pouco mais os olhos grandes que Deus lhe ofereceu e sorriu com uma certa doçura na direcção da assembleia. Saiu da estante, fez novamente inclinação diante do altar e do celebrante e regressou ao seu lugar com a mesma passada firme e sem qualquer sombra de perturbação. Talvez um leve sinal de quem se interroga interiormente: mas o que é isto? Não sei o que pensaram as outras pessoas, se isso é normal acontecer, se já dão um desconto às atitudes do senhor abade, ou se ficaram a pensar no que se passará com aquela rapariga. Eu não pensei nela, estive toda a missa atento a ver se a outra leitora iria comungar. Foi. Por isso pus-me a pensar nas causas de tal proibição e vieram-me à mente as proibições que actualmente andam em voga na Igreja. Era isso. Depois da missa alguém me explicou a situação familiar da jovem que não leu. Casou pela Igreja com um não crente. Ela crescera num contexto eclesial católico, ele distante de tudo isso. Mas aceitou muito bem o casamento pela Igreja, o casamento é que não teve um desenvolvimento feliz. Entretanto ela tem agora um companheiro de vida a quem aconteceu qualquer coisa de semelhante. Não tendo possibilidade de que este seu amor seja abençoado pela Igreja, vivem placidamente na graça de Deus e dos amigos. Deve ser por isto que ela não pode comungar, pois já ouvi muitas histórias semelhantes. Não percebi se isso a preocupa, espero que não. Trata-se de uma espécie de lei da Igreja que deixa muita gente perplexa, tipo uma rua com o sinal de trânsito que indica: sem saída. A rua não tem continuação, mas pode-se lá entrar. O mesmo acontece com algumas pessoas na missa: podem entrar, participar, sabendo porém que não têm saída para os lados do altar. Esta jovem não pôde ler porque não vai à comunhão, mas não vai à comunhão porque a proíbem de ir. Ou seja, proíbem-na de fazer uma coisa, por não fazer outra que também lhe é proibida. Extraordinário! Que dirá o JP de tudo isto quando crescer mais um pouco? Baptizado aos seis anos, a meio da cerimónia levantou os dois dedos polegares virado para a assembleia e disse com segurança: está a ser fixe! Não sei o que terá querido dizer com isto, mas a verdade é que estava a ser feliz com o baptismo e, para a sua idade, já tinha suficiente consciência do que estava a fazer. Agora com doze anos fez a comunhão solene e parece continuar convencido de que é fixe. Que virá um dia a pensar o JP destas leis tão absurdas que em vez de incluírem excluem, em oposição ao que Jesus disse e fez? E não se pode evocar a autoridade da Igreja porque o ridículo e a parvoíce não têm qualquer autoridade. Nem Igreja. Diante disso só se pode dizer: valha-nos Deus! Estes dois acontecimentos passaram-se bastante longe um do outro, mas por casualidade estive relativamente perto de ambos. No primeiro caso fiquei perplexo porque fui completamente surpreendido. No segundo identifico-me bastante com o avô do JP: à cautela fica-se na ponta do banco para basar quando a fartação já é muita. Confesso que já o fiz. Quando saía reparei que o Jesus da tela da Ascensão mantinha o seu semblante glorioso.
frei matias, op (daqui)

a contrariar a cinza dos dias



O homem aparece assim como uma criatura feliz, cuja única desventura consiste em ter de esperar e, na espera, desvelar-se e desvelar o que está encoberto, atravessando o tempo. Já que o tempo não pode ser assimilado ao ser tão facilmente. O tempo encobre o ser e até o desmente, pelo menos na simples vida dos mortais não decididos a estar de acordo com a razão onde o ser se descobre.


María Zambrano in Metáfora do Coração e Outros Escritos

2012-07-19

"No Teu Poema"

mas tu não


Que, como há 50 anos, um bispo tenha de novo erguido a voz, fazendo "política" em vez de se remeter à sacristia, eis o escândalo que agita hoje esta espécie de tempos democráticos e de liberdade de expressão em que vivemos.
Também em 1958 a Igreja institucional se demarcou da carta do bispo do Porto a Salazar. Revelaria mais tarde D. António que até "da Cúria vaticana alguém [lhe] disse: "Bem sabemos que isso é doutrina da Igreja; mas se, de um lado e de outro sabemos isso, para que estar a pregá-lo?".
Em muitos aspectos, essa carta é hoje de novo singularmente actual: voltaram à rua o "mendigo, o pé-descalço, o maltrapilho, o farrapo (...), os subalimentados"; e o "financismo 'à outrance'", o "economismo despótico", o "benefício dos grandes contra os pequenos", o "ciclo da miséria" são outra vez "o centro da Nação".

Por isso, mais actuais que nunca são também os versos de Sophia: "Porque os outros se mascaram mas tu não/ Porque os outros usam a virtude/ Para comprar o que não tem perdão./ Porque os outros têm medo mas tu não./ Porque os outros são os túmulos caiados/ Onde germina calada a podridão./ Porque os outros se calam mas tu não./ Porque os outros se compram e se vendem/ E os seus gestos dão sempre dividendo./ Porque os outros são hábeis mas tu não./ Porque os outros vão à sombra dos abrigos/ E tu vais de mãos dadas com os perigos./ Porque os outros calculam mas tu não".

Manuel António Pina, in JN

2012-07-17

diário da alma #3


Levanto os meus olhos para ti, SENHOR,
para ti que habitas nos céus.
 
2*Como os olhos do servo se fixam nas mãos do seu amo,
e como os da serva, nas mãos da sua ama,
assim os nossos olhos estão postos no SENHOR, nosso Deus,
até que tenha piedade de nós.
 
3*Tem piedade de nós, SENHOR, tem piedade de nós,
porque estamos saturados de desprezo.
 
4A nossa alma está saturada da troça dos arrogantes
e do desprezo dos orgulhosos!


Salmo 123

já que nem as pedras obedecem a Deus Nosso Senhor


tem que ser sempre o mesmo a encarregar-se das denúncias proféticas.

2012-07-15

porque hoje é domingo


E disse-lhes também: «Em qualquer casa em que entrardes, ficai nela até partirdes dali. E se não fordes recebidos numa localidade, se os seus habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles.» (Mc 6, 10-11) 


A "hora" de Deus ninguém a conhece, nem é determinada por qualquer guião temporal. Por outro lado, Deus respeita as escolhas que fazemos. Deve ser esse o nosso agir; respeito pela hora de Deus e pelas escolhas de cada um.


diário da alma #2



14. Sair da igreja

Sair da igreja
deixar a celebração
porque não se aguenta mais
porque não podemos continuar
por causa do excesso de intensidade e de sobranceria
do que é considerado dever aí ser feito
em contraste com o desaire aflitivo do que de facto se passa
deixar sem escândalo, sem contestação, com tristeza
e o desejo resistente que de novo se eleve
como? como?
a luz do grande poema onde se inauguram todas as coisas.



as outras 16 aqui

2012-07-14

além de si mesmo




No fundo desta época moderna parece residir uma única palavra, um único anseio: querer ser. O homem quer ser, antes de tudo o mais. Cego, antes de esforçar-se em abrir os olhos, quer, quer cegamente. E quando olha é para ser. Por isso não quer ver senão o absoluto. À sua ânsia de absoluto nenhuma outra coisa pode ser dada senão o absoluto também. Mas, na realidade, não foi buscá-lo, porque o absoluto respira já dentro dele. Não se sente, na verdade, incompleto, o homem deste momento; não se sente necessário nem carente de sair em busca de nada. E, contudo, debaixo do seu «absoluto» está - mares de nada -, cega indiferente, a angústia. E, sobre a angústia, os altos muros do sistema.


María Zambrano-"A Metáfora do Coração e Outros Escritos"

2012-07-13

Luz Casal & Carlos Nuñez - Negra sombra.

da "arte de construir"



O Henrique vai ver o mar e rebenta-lhe a poesia nas mãos. Generoso, partilha-a connosco:


Não te despeças dos bons dias, do cumprimento de uma paz
que será a raiz da harmonia. Caminha na mesma, ainda que só
e pesado; arrasta pelo caminho os pés de sangue tardado.
Quando desceres ao Sul, onde até à noite o céu morre.

azul, leva contigo pelo menos um sonho. À gravidade real
opõe a aguardente de medronho. Que o manjar dos deuses
seja a tua quietude, que a tua esperança seja um sempre por 
cumprir. Não mais a finitude ficará por definir. Agora volta

os olhos sobre ti mesmo, adianta o adiamento da felicidade.
Sempre que a esmo alguém perece, exclamam os nervos da 
Idade. Poderás porém alhear-te, de mochila às costas partir

para um lugar onde o sossego seja a arte de construir: fortes
de areia, braços de mar, uma teia onde morar; nós de terra e
ilhas candentes, tudo o que  tão próximo já tão longe sentes.



Henrique Manuel Bento Fialho, "Rogil"
edição da volta d'mar

2012-07-12




Amedeo Modigliani

diário da alma #1


A sabedoria clama nas ruas,
eleva a sua voz nas praças,
grita por sobre os muros,
faz ouvir sua voz à entrada das portas da cidade:
«Até quando, ó simples, amareis a ingenuidade?
Até quando os néscios se deleitarão em zombar
e os insensatos odiarão o saber?»


Provérbios 1, 20-22

Esperemos

Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.



Pablo Neruda - n. 12/07/1904

falta de ousadia profética ou conivência?



Também eu me questiono, fazendo eco da interrogação do bispo Januário Torgal Ferreira: Não está a Igreja demasiado calada, neste momento de particulares dificuldades para a sociedade portuguesa? Onde está a voz profética que deveríamos ouvir?

2012-07-11

a vida que passa



«Tudo passa» seria o grande consolo quietista, se nós não passássemos igualmente, se com o tempo que passa não passasse também a nossa própria vida. Agarrando-nos à verdade, à nossa verdade, associando-nos ao seu descobrimento por a ter acolhido no nosso interior, por ter harmonizado a nossa vida com ela, enraizando-a no nosso ser, sentimos que o nosso tempo não passa, pelo menos, em vão. Algo do seu passar fica, como no fluir da água no rio, que passa e fica. «Tudo passa», corre a água do rio mas o álveo e o próprio rio permanecem. Mas é preciso que haja álveo, e o álveo da vida é a verdade.

E o álveo é tão necessário ao rio, que sem ele não haveria rio, mas pântano. As águas, ao evadir-se, teriam um instante a ilusão de ter alcançado liberdade, de ter recuperado a integridade do seu poder. Mas o poder ir-se-ia esgotando por falta de limites; mesmo sem mais obstáculos que a extensão ilimitada, a fúria da água presa numa acéquia desceria vencida sobre o plano ilimitado. O álveo faz o rio tanto como a fúria da corrente da água que por ele passa. E é um bem que a vida se nos precipite a correr, a fuga do simples permanecer físico a cair nos seios do tempo, a angústia de passar transforma-se em prazer de caminhante.


María Zambrano - Rumo a um saber sobre a alma
"A metáfora do coração e outros escritos"
Tradução José Bento
Assírio & Alvim

2012-07-09

Tom Zé - A Felicidade

como um jardim





O jardim é o lugar do labor e também do repouso. É ainda o lugar da surpresa. Entre a Terra e os Céus, floresce ou definha o jardim.
Ao longo dos tempos, e cada vez mais,  atribuo particular significado à imagem do jardim como metáfora de vida interior. O que aqui aparece é, então, a síntese, o pequeno apontamento,  o alento de uma vida quotidiana discreta e vulgar.

Faz hoje sete anos que iniciei este blogue, aceitam-se prendas, para tornar a efeméride ainda mais festiva.

2012-07-07

bom fim de semana

 
Parque D. Carlos I-Caldas Rainha

como se soubéssemos quem é Deus

“Com frequência acontece também entre os cristãos darmos por suposto que partimos de uma determinada imagem de Deus. Procedemos como se já soubéssemos quem é Deus. Normalmente temos na cabeça uma ideia, muito divulgada, de uma espécie de filosofia ou metafísica grega muito elementar, mas muito arraigada. Deus é, desde esse ponto de vista, o omni-todo: o onipotente, o onisciente…uma imagem de Deus vinculada ao “imaginário” do poder, do ser, da força, da imposição, do maravilhoso. Já temos revelado o mistério de Deus. Não deixamos espaço para a novidade do Deus dos evangelhos, do Deus de Jesus.
Quando chega o Deus de Jesus e se vai manifestando ligado ao rebaixamento, à limitação e à impotência, à vulnerabilidade e ao sofrimento, à pobreza, à oferta não impositiva, à compaixão e ao perdão não o reconhecemos. O Deus de Jesus tem o seu lugar suplantado pelo Deus pagão.
A nossa tarefa, portanto, é árdua, custosa: temos de matar os nossos deuses. Temos de voltar a colocar na nossa mente e coração a imagem escandalosa do Deus de Jesus.”



José María Mardones em Matar os nossos deuses – Em que Deus acreditar?

2012-07-04

a vida em imagens #8






esforçadamente, habitar o siêncio




POÉTICA

Não sei palavras dúbias. Meu sermão
Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.

Com duas mãos fraternas, cumplicio
A ilha prometida à proa do navio.

A posse é-me aventura sem sentido.
Só compreendo o pão se dividido.

Não brinco de juiz, não me disfarço de réu.
Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.

José Paulo Paes