De
atitude decidida, caminhava com passos seguros em direcção ao altar.
Inclinou-se, dirigiu-se para o ambão e passou o olhar pelas duas páginas
do livro para se assegurar onde começava a segunda leitura. Mas a
primeira palavra que iria pronunciar ficou-lhe suspensa na abóbada do
céu-da-boca. A voz do padre sobrepôs-se: Francisca, tu não lês porque
não comungas. Ela abriu um pouco mais os olhos grandes que Deus lhe
ofereceu e sorriu com uma certa doçura na direcção da assembleia. Saiu
da estante, fez novamente inclinação diante do altar e do celebrante e
regressou ao seu lugar com a mesma passada firme e sem qualquer sombra
de perturbação. Talvez um leve sinal de quem se interroga interiormente:
mas o que é isto? Não sei o que pensaram as outras pessoas, se isso é
normal acontecer, se já dão um desconto às atitudes do senhor abade, ou
se ficaram a pensar no que se passará com aquela rapariga. Eu não pensei
nela, estive toda a missa atento a ver se a outra leitora iria
comungar. Foi. Por isso pus-me a pensar nas causas de tal proibição e
vieram-me à mente as proibições que actualmente andam em voga na Igreja.
Era isso. Depois da missa alguém me explicou a situação familiar da
jovem que não leu. Casou pela Igreja com um não crente. Ela crescera num
contexto eclesial católico, ele distante de tudo isso. Mas aceitou
muito bem o casamento pela Igreja, o casamento é que não teve um
desenvolvimento feliz. Entretanto ela tem agora um companheiro de vida a
quem aconteceu qualquer coisa de semelhante. Não tendo possibilidade de
que este seu amor seja abençoado pela Igreja, vivem placidamente na
graça de Deus e dos amigos. Deve ser por isto que ela não pode comungar,
pois já ouvi muitas histórias semelhantes. Não percebi se isso a
preocupa, espero que não. Trata-se de uma espécie de lei da Igreja que
deixa muita gente perplexa, tipo uma rua com o sinal de trânsito que
indica: sem saída. A rua não tem continuação, mas pode-se lá entrar. O
mesmo acontece com algumas pessoas na missa: podem entrar, participar,
sabendo porém que não têm saída para os lados do altar. Esta jovem não
pôde ler porque não vai à comunhão, mas não vai à comunhão porque a
proíbem de ir. Ou seja, proíbem-na de fazer uma coisa, por não fazer
outra que também lhe é proibida. Extraordinário! Que dirá o JP de tudo
isto quando crescer mais um pouco? Baptizado aos seis anos, a meio da
cerimónia levantou os dois dedos polegares virado para a assembleia e
disse com segurança: está a ser fixe! Não sei o que terá querido dizer
com isto, mas a verdade é que estava a ser feliz com o baptismo e, para a
sua idade, já tinha suficiente consciência do que estava a fazer. Agora
com doze anos fez a comunhão solene e parece continuar convencido de
que é fixe. Que virá um dia a pensar o JP destas leis tão absurdas que
em vez de incluírem excluem, em oposição ao que Jesus disse e fez? E não
se pode evocar a autoridade da Igreja porque o ridículo e a parvoíce
não têm qualquer autoridade. Nem Igreja. Diante disso só se pode dizer:
valha-nos Deus! Estes dois acontecimentos passaram-se bastante longe um
do outro, mas por casualidade estive relativamente perto de ambos. No
primeiro caso fiquei perplexo porque fui completamente surpreendido. No
segundo identifico-me bastante com o avô do JP: à cautela fica-se na
ponta do banco para basar quando a fartação já é muita. Confesso que já o
fiz. Quando saía reparei que o Jesus da tela da Ascensão mantinha o seu
semblante glorioso.
frei matias, op (daqui)
Concordo.
ResponderEliminarNão sei quem é o Frei Matias mas desconfio de que não vão deixá-lo ser Frei por muito tempo.
ResponderEliminarBeijos
eu também não sei, Lino. Transcrevi para aqui tal qual está no blogue "nós somos Igreja". Porque considero profundamente desumano que a Igreja continue a assumir esta atitude doutrinária e eclesial. No caso relatado há um excesso de legalismo paranóico e despropositado.
ResponderEliminarBeijos
Beijos, Maria
ResponderEliminarolá, Fernando
ResponderEliminarpassou pelo jardim e deixou beijos?! agradecida. retribuo.
e não quer fazer alguma observação sobre o texto do post? ;)
PS - eu sei que o texto vem do blogue "Nós somos Igreja"... ;)
ResponderEliminarMt Bom :)
ResponderEliminarHDias
Obrigada, HD (também pela informação)
ResponderEliminarEste relato devia servir para lançar a discussão sobre alguns tópicos:
- Comunidade
- Sacramentos
- Igreja na actualidade
Abraço
Sacramentos
ResponderEliminarCasamento
A Igreja não deveria cair na tentação de banalizar este sacramento.
Há "misericordia" para dar o casamento pela Igreja em inumeros casos incorentes ou de devaneio festivo.
No entanto,existe um escrupulo legalista , uma ausencia de "misericordia" perante casos de mulheres ou homens , católicos praticantes confessos, que se recasaram inclusivamente com parceiros assumidamente católicos praticantes.
A Igreja recusa-se a fazer este discernimento.
Não se entende como Jesus hoje os poderia manter fora do altar.
HDias
Bom, HD
ResponderEliminarserá que a banalização não está já instalada? Ao ser criada a norma e todos, obrigatoriamente, aderem a ela ou então...
Há um livro muito bom do Leonardo Boff sobre os sacramentos. Já o tenho há uns bons anos em meu poder, oferecido num contexto de formação católica muito ortodoxa. Não é bem como os contendores integristas discorrem sobre teólogos dissidentes etc.
O texto que tenho acima deste post; uma nota poética do Henri Michaux, além de me atrair pelos significados poéticos, encontra muito eco na minha realidade pessoal. Tenho um pequeno pátio interior, onde um ou outro pássaro ocasional, nas seus voos rápidos e de surpresa, se tornam, para mim, sacramento de vida.
Viver distraído na rotina quotidiana é o que temos de mais certo, tudo o que nos chame à vida é sinal da Vida.
Isto para dizer que, as normas sobre os sacramentos, se não dizem nada à vida dos homens, só a teimosia as sustenta.
Acredito no Amor, acredito na fidelidade e acredito que não somos menos homens ou mulheres, sempre que descobrimos que os caminhos que percorremos são caminhos de morte e decidimos optar pela vida.