2012-07-11



«Tudo passa» seria o grande consolo quietista, se nós não passássemos igualmente, se com o tempo que passa não passasse também a nossa própria vida. Agarrando-nos à verdade, à nossa verdade, associando-nos ao seu descobrimento por a ter acolhido no nosso interior, por ter harmonizado a nossa vida com ela, enraizando-a no nosso ser, sentimos que o nosso tempo não passa, pelo menos, em vão. Algo do seu passar fica, como no fluir da água no rio, que passa e fica. «Tudo passa», corre a água do rio mas o álveo e o próprio rio permanecem. Mas é preciso que haja álveo, e o álveo da vida é a verdade.

E o álveo é tão necessário ao rio, que sem ele não haveria rio, mas pântano. As águas, ao evadir-se, teriam um instante a ilusão de ter alcançado liberdade, de ter recuperado a integridade do seu poder. Mas o poder ir-se-ia esgotando por falta de limites; mesmo sem mais obstáculos que a extensão ilimitada, a fúria da água presa numa acéquia desceria vencida sobre o plano ilimitado. O álveo faz o rio tanto como a fúria da corrente da água que por ele passa. E é um bem que a vida se nos precipite a correr, a fuga do simples permanecer físico a cair nos seios do tempo, a angústia de passar transforma-se em prazer de caminhante.


María Zambrano - Rumo a um saber sobre a alma
"A metáfora do coração e outros escritos"
Tradução José Bento
Assírio & Alvim

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