2012-08-18

Camus interpreta "O Castelo" de Kafka


Poucas obras são mais rigorosas no seu andamento do que O Castelo. K... é nomeado agrimensor do castelo e chega à vila. Mas da vila é impossível comunicar com o castelo. Durante centenas de páginas, K... teimará em encontrar o seu caminho, fará todas as diligências, empregará a manha e a subtileza, nunca se aborrecerá, e, com uma fé desconcertante, quererá entrar na função que lhe confiaram. Cada capítulo é um falhanço. E também um novo recomeço. Não se trata de lógica de persistência. A amplitude dessa teimosia faz o trágico da obra. Quando K... telefona para o castelo, são vozes confusas e mescladas, risos vagos, chamamentos longínquos o que ouve. Isso basta para alimentar a sua esperança, tal como esses poucos sinais que aparecem nos céus do Verão, ou como essas promessas da noite que fazem a nossa razão de viver. (...) «Fico melancólica», diz Olga «quando Barnabé me diz de manhã que vai ao castelo: esse trajecto provavelmente inútil, esse dia provavelmente perdido, essa esperança provavelmente vã.» «Provavelmente», ainda neste cambiante Kafka joga a sua obra. Mas nada altera o essencial: a busca do eterno é nela meticulosa.



Albert Camus in "O Mito de Sísifo"-
"A Esperança e o absurdo na Obra de Kafka"

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