2012-08-28

os sentidos da lei


A Lei, diz o jardineiro, é o Sol,
A Lei é o farol
Que guia o jardineiro
O tempo inteiro.

A Lei é a sageza de antigamente,
O ralhete estridente do avô impotente
A quem os netos deitam uma língua rude,
A Lei são os sentidos da juventude.

A Lei, diz o padre, com  seu ar de vigário,
Para um povo bem pouco sacerdotal
A Lei está escrita no meu missal,
A Lei é o meu púlpito o meu campanário.

A Lei, diz o juiz, empinando o nariz,
Num tom severo e isento,
A Lei é, como vos disse uma vez,
A Lei é, como do vosso conhecimento,
A Lei é, mas posso explicar outra vez,
A Lei é A Lei.

E todavia escrevem os doutos escrivães,
A Lei não é certa nem errada,
A Lei são apenas infracções
Punidas em certas ocasiões
A Lei é a roupa usada
Em qualquer sítio, a qualquer hora,
A Lei é Bom-dia, ou vá-se embora.

Outros dizem, a Lei é o nosso fado;
Outros dizem, a Lei é o nosso  Estado;
Outros ainda reagem,
A Lei é nada,
A Lei partiu de viagem.

E sempre a multidão com a raiva na voz,
A multidão revoltada num escarcéu,
A Lei é Nós,
E sempre o manso idiota mansamente Eu.

Sabendo nós, amor, que não sabemos mais
Do que eles sobre a lei,
Se eu mais do que tu não sei
O que devemos ou não devemos fazer,
A não ser que é ponto asssente
Feliz ou infelizmente
Que a lei é
E é só o que há a dizer,
E se parece, assim, uma absurdidade
Identificara Lei com outra realidade
Ao contrário de tantos outros
Não posso eu repetir
Que a Lei é,
Não podemos, mais do que eles, suprimir
A ânsia universal de pressentir
Ou de abdicar da nossa posição
Em favor de uma indiferente condição.

Embora possa pelo menos resumir
A tua e a minha vaidade
Atrevendo-me a supor
Uma ténue afinidade,
Podemos, apesar de tudo, presumir,
Por hipótese, como o amor.

Como o amor não sabemos onde nem porquê
Como o amor que não podemos coagir
Como o amor de que não podemos fugir
Como o amor que amiúde choramos
Com o amor que raro guardamos.


W. H. Auden - Outro Tempo
Tradução de Margarida Vale de Gato
Relógio D'Agua

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