2012-10-31

dedicado



Deus escreve direito

Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desdo o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento




Sophia de Mello Breyner Andresen in "Obra Poética"
Caminho

2012-10-28

Concílio Vaticano II, 50 anos depois - José Mª Castillo em Lisboa

porque hoje é domingo

(Eustache le Sueur)

46Chegaram a Jericó. Quando ia a sair de Jericó com os seus discípulos e uma grande multidão, um mendigo cego, Bartimeu, o filho de Timeu, estava sentado à beira do caminho. 47E ouvindo dizer que se tratava de Jesus de Nazaré, começou a gritar e a dizer: «Jesus, filho de David, tem misericórdia de mim!» 48Muitos repreendiam-no para o fazer calar, mas ele gritava cada vez mais: «Filho de David, tem misericórdia de mim!» 49Jesus parou e disse: «Chamai-o.» Chamaram o cego, dizendo-lhe: «Coragem, levanta-te que Ele chama-te.» 50E ele, atirando fora a capa, deu um salto e veio ter com Jesus. 51Jesus perguntou-lhe: «Que queres que te faça?» «Mestre, que eu veja!» - respondeu o cego. 52*Jesus disse-lhe: «Vai, a tua fé te salvou!» E logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.

Mc 10, 46-52

"Nas bermas da História os pobres acenam ao poder", "A história está hoje a repetir-se em Portugal."  (bispo Januário Torgal Ferreira na homilia da missa comemorativa do dia do exército em Caldas da Rainha)

2012-10-27



Nós reconhecemos a mentira do sonho,
Se assim o queres, Senhor.
Nós quebraremos o vidro da miragem,
Nós quebraremos o arco-íris da aliança com as flores



Sophia de Mello Breyner Andresen in "Obra Completa"
Caminho

"deixa que as coisas sejam"

El engaño que nos impide ver

En un texto central en su evangelio, Marcos presenta a un ciego como prototipo del verdadero discípulo. Quienes acompañaban a Jesús –ha repetido el evangelista en capítulos anteriores- oyen su palabra, pero no entienden; creen ver, pero en realidad están ciegos. Por eso, en la práctica, toman un camino diferente al del propio maestro.
El ciego Bartimeo, por el contrario, es consciente de que no ve y, a diferencia de los discípulos que reclamaban "los primeros puestos", pide únicamente "ver". Y en el momento mismo en que ve, sigue a Jesús por el camino: un camino que no es topográfico, sino teológico, el que propone el propio Jesús.
Empezamos a vivir cuando, decididamente, queremos ver. A falta de esta determinación, sobrevivimos en la ignorancia de quienes somos, en la creencia de estar separados de los otros y del mundo y en la búsqueda, más o menos compulsiva, de "distracciones" y compensaciones.
Tendemos a oír solo la voz de nuestra mente, en la creencia ilusoria de que ella nos mostrará el camino de la vida. Pero la mente tiene una visión corta y estrecha.
Nos hace girar en torno al yo, como si se tratase de nuestra verdadera identidad. Y, dando eso por supuesto, nos hace deudores de lo que le ocurra a ese yo.
Soledad, miedo, ansiedad y, en definitiva, existencia egocentrada: esas son las características que acompañan a tal identificación. Al vivir con la creencia de que somos el yo, no podemos hacer sino preocuparnos por él. Ahora bien, preocuparnos por algo que no tiene consistencia propia conduce directamente a la ansiedad.
Ese es el motivo por el que la identificación con la mente nos encierra en una prisión, hecha de ignorancia y de sufrimiento, en la que nos reducimos a circunstancias impermanentes, viviendo desconectados de nuestra verdadera identidad. Estamos ciegos, con el agravante de que creemos ver.
¿Cómo salir del engaño y poder ver?
La salida de la prisión de la ignorancia y del sufrimiento, en la que nos encierra nuestra reducción a la mente, pasa por desenmascarar el engaño de la identificación.
La excesiva preocupación por el yo es indicio seguro de ceguera y fuente cierta de cansancio estéril. Quizás solo cuando ese cansancio se nos hace insoportable empezamos a replantearnos nuestro modo de vivir. El desencanto o la hartura nos urgen a buscar una salida, porque nos hemos dado cuenta de que la raíz del problema se halla en nuestro modo de ver.
Solo hay un modo de salir de esa trampa: dejar de reducirnos a la mente (pensamientos, sentimientos, emociones...), dejar de identificarnos con el yo.
No te preocupes demasiado por cómo estás, qué sientes, qué te ha ocurrido o qué temes que te pueda ocurrir... Ven al momento presente y entrégate a él.
Toma distancia del yo y ríndete a la realidad de lo que es, deja que las cosas sean, entrégate a la Sabiduría mayor que habita todo lo real..., hasta que tú mismo seas también instrumento o cauce a través del cual esa misma Sabiduría se exprese. Acepta lo que es y deja que todo sea.
Toma conciencia de que no eres la mente, sino Eso que queda cuando la mente se calla: la plenitud del "Yo Soy" universal. Y reconoce que Eso que eres es perfecto y se halla siempre a salvo.
Cuando sueltes la preocupación por el yo, empezarás a ver y podrás seguir el camino adecuado.

Enrique Martínez Lozano

2012-10-24

a igreja-supermercado





"Generosa nos espaços e modesta nos materiais" é assim uma igreja inaugurada em San Sebastián, na vizinha Espanha. E ainda, além de templo católico, alberga na estrutura, um supermercado.

Os templos devem estar acessíveis e próximos das populações, mas este dois em um, desvirtua, no meu entender, os propósitos de um espaço celebrativo.

EL País

2012-10-23

vida com vida




A nossa crença na realidade da vida e na realidade do mundo não são, com efeito, a mesma coisa. A segunda provém basicamente da permanência e da durabilidade do mundo, bem superiores às da vida mortal. Se o homem soubesse que o mundo acabaria quando ele morresse, ou logo depois, esse mundo perderia toda a realidade, como a perdeu para os antigos cristãos, na medida em que estavam convencidos de que as suas expectativas escatológicas seriam imediatamente realizadas. A confiança na realidade da vida, pelo contrário, depende quase exclusivamente da intensidade com que a vida é experimentada, do impacte com que ela se faz sentir. Esta intensidade é tão grande e a sua força tão elementar, que onde quer que prevaleça, na alegria ou na dor, oblitera qualquer outra realidade mundana. [...] O facto é que a capacidade humana de vida no mundo implica sempre uma capacidade de transcender e alienar-se dos processos da própria vida, enquanto a vitalidade e o vigor só podem ser conservados na medida em que os homens se disponham a arcar com o ónus, as fadigas e as penas da vida.


Hannah Arendt in "A Condição Humana"

2012-10-22

sombra

a lógica da Trindade


Escrevíamos anteriormente que Deus é mistério em si mesmo e para si mesmo. Para os cristãos trata-se de um mistério de comunhão e não de solidão. É a Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A ortodoxia afirma: há três Pessoas e um só Deus. É possível isso? Não seria um absurdo 3=1? Aqui tocamos naquilo que os cristãos subentendem quando dizem "Deus”. É diferente que o absoluto monoteísmo judeu e muçulmano. Sem abandonarmos o monoteísmo, faz-se mister um esclarecimento desta Trindade.
O três seguramente é um número. Mas não como resultado de 1+1+1=3. Se pensarmos assim matematicamente, então Deus não é três; mas, um e único. O número três funciona como um símbolo para sinalizar que sob o nome Deus há comunhão e não solidão, distinções que não se excluem mas que se incluem, que não se opõem mas se compõem. O número três seria como a auréola que colocamos simbolicamente ao redor da cabeça das pessoas santas. Não é que elas andem por ai com essa auréola. Para nós é o símbolo a sinalizar que estamos diante de figuras santas. Assim ocorre com o número três.
Com o três dizemos que em Deus há distinções. Se não houvesse distinções, reinaria a solidão do um. A palavra Trindade (número três) está no lugar de amor, comunhão e inter-retro-relações. Trindade significa exatamente isso: distinções em Deus que permitem a troca e a mútua entrega de Pai, Filho e Espírito.
A rigor, como já viu o gênio de Santo Agostinho, não se deveria falar de três Pessoas. Cada Pessoa divina é única. E os únicos não se somam porque o único não é número. Se disser um em termos de número, então não há como parar: seguem o dois, o três, o quatro e assim indefinidamente. Kant erroneamente entendeu assim e por isso rejeitava a ideia de Trindade. Portanto o número três possui valor simbólico e não matemático. O que ele simboliza?
C. G. Jung nos socorre. Ele escreveu longo ensaio sobre o sentido arquetípico-simbólico da Trindade cristã. O três expressa a relação tão íntima e infinita entre as diversas Pessoas que se uni-ficam, quer dizer, ficam um, um só Deus.
Mas se são três Únicos, não resultaria no triteísmo, vale dizer, três Deuses em vez de um: o monoteísmo? Isso seria assim, se funcionasse a lógica matemática dos números. Se somo uma manga+uma manga+uma manga, resultam em três mangas. Mas com a Trindade não é assim, pois estamos diante de outra lógica, a das relações interpessoais. Segundo esta lógica, as relações não se somam. Elas se entrelaçam e se incluem, constituindo uma unidade. Assim, pai, mãe e filhos constituem um único jogo de relações, formando uma única família. A família resulta das relações inclusivas entre os membros. Não há pai e mãe sem filho, não há filho sem pai e mãe. Os três se uni-ficam, ficam um, uma única família. Três distintos; mas, uma só família, a trindade humana.
Quando falamos de Deus-Trindade entra em ação esta lógica das relações interpessoais e não dos números. Em outras palavras: a natureza íntima de Deus não é solidão; mas, comunhão.
Se houvesse um só Deus reinaria, de fato, a absoluta solidão. Se houvesse dois, num frente a frente ao outro, vigoraria a distinção e, ao mesmo tempo, a separação e a exclusão (um não é o outro) e uma mútua contemplação. Não seria egoísmo a dois? Com o três, o um e o dois se voltam para o três, superam a separação e se encontram no três. Irrompe a comunhão circular e a inclusão de uns nos outros, pelos outros e com os outros, numa palavra: a Trindade.
O que existe primeiro é a simultaneidade dos três Únicos. Ninguém é antes ou depois. Emergem juntos sempre se comunicando reciprocamente e sem fim. Por isso dizíamos: no princípio está a comunhão. Como consequência desta comunhão infinita resulta a união e a unidade em Deus. Então: três Pessoas e um só Deus-comunhão.
Não nos dizem exatamente isso os modernos cosmólogos? O universo é feito de relações e nada existe fora das relações. O universo é a grande metáfora da Trindade: tudo é relação de tudo com tudo: um uni-verso. E nós dentro dele.

Leonardo Boff, aqui

José Maria Castillo passou por Lisboa

No passado sábado, inesperadamente, cumpri um desejo. Há vários anos que acompanho, através da leitura, algum do pensamento do padre e teólogo espanhol, José Maria Castillo.
A convite do movimento "Nós Somos Igreja" veio a Lisboa, mais propriamente ao convento de S. Domingos, dar uma conferência sobre o "Concílio Vaticano II, 50 anos depois".
Pude comprovar o que já sabia, que é profundissimamente humano, afável, simples e com um enorme amor à Igreja. O que não o impede, ou por isso mesmo, de, profeticamente, ter uma atitude crítica em relação à mesma.

Na bagagem ainda trouxe alguns livros dos que tem publicado. Consegui um "Espiritualidade para insatisfeitos", que teve a simpatia de, a meu pedido, autografar.

O encontro terminou com a Eucaristia celebrada por Frei Bento Domingues, em ambiente de verdadeira comunidade. Sendo eu uma intrusa, não pertenço ao movimento NSI, e foi esta a única actividade em que participei, senti-me em casa.


2012-10-19

Manuel António Pina - 1943-2012



Amor como em Casa 

 Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"

2012-10-18

a saudável indignação



 "Daqui sai outro teorema: este tempo de crise e dificuldade gera muito disparate." E eu diria, quer ao General Ramalho Eanes quer ao articulista, que  passamos bem (para não dizer outra coisa) sem os seus teoremas.

A indignação e a zanga são sentimentos que nos permitem impor limites. Tanto a nível pessoal como colectivo. O que se torna óbvio, e a cada diz mais claro, é que a austeridade que nos é imposta, todos os dias ultrapassa os limites do razoável e justo. A tentação de quem nos impõe essa austeridade e os seus (cada vez menos defensores) é reprimir qualquer sentimento ou atitude de indignação.

Quando se tenta reprimir a zanga e a indignação o que acaba por surgir é a sua expressão excessiva, desregulada. Isso, sim, pode conduzir a atitudes e acções menos correctas. Daí, e não só, achar incompreensíveis as recentes declarações do Cardeal Patriarca sobre as manifestações. É que não acredito que ele não considere justa a indignação e também deve conhecer os efeitos da repressão desta.

Estabelecer limites é o começo de uma cidadania activa.

2012-10-16

numa escola portuguesa



Hoje, 16 de Outubro, é o Dia Mundial da Alimentação. Uma criança de cinco anos foi impedida de almoçar na cantina da escola que frequenta, por não terem sido pagas refeições anteriores. A pessoa responsável pelo que aconteceu, apareceu a justificar-se na televisão. Havia razões, claro. E razão nenhuma para que uma criança de cinco anos ficasse sem almoço.

2012-10-15

2012-10-14

porque hoje é domingo


Orei e foi-me dada a prudência;
implorei e veio a mim o espírito de sabedoria.
Preferi-a aos ceptros e aos tronos
e, em sua comparação, considerei a riqueza como nada.
Não a equiparei à pedra mais preciosa,
pois todo o ouro, à vista dela, não passa de um pouco de areia
e, comparada com ela, a prata é considerada como lodo.
Amei-a mais do que a saúde e a beleza
e decidi tê-la como luz,
porque o seu brilho jamais se extingue.
Com ela me vieram todos os bens
e, pelas suas mãos, riquezas inumeráveis.

Sab 7,7-11

2012-10-13

Concílio Vaticano II, cinquenta anos depois



Joana,

aceito com naturalidade que tenhamos visões diferentes sobre os resultados do Concílio Vaticano II. Logo à partida, a vivência que temos do mesmo, é diversa. A Joana viveu o acontecimento há cinquenta anos, numa idade e numa perspectiva, imagino,  de quem deposita grandes expectativas para a Igreja da altura. Eu, como comentei no facebook, considero-me uma filha do Concílio. As recordações que tenho são, de durante toda a infância, e talvez por crescer numa aldeia, os lugares diferenciados que homens, mulheres e crianças, ocupavam durante as celebrações litúrgicas. Alguns homens, mais ligados a alguns movimentos ficavam no altar-mor, as mulheres e crianças no corpo da Igreja, e os restantes homens ao fundo, junto ao guarda-vento. A minha aproximação ao Concílio Vaticano II, aconteceu com o estudo dos textos conciliares muito impulsionado nos grupos que frequentei.

Apesar da minha perspectiva ser a de quem não vivenciou o Concílio no tempo, antes de quem colheu alguns dos frutos que dele emanaram, julgo-me capaz de afirmar que o Concílio Vaticano II, em si, não foi uma decepção, pela porta de renovação evangélica que abriu na Igreja. Não me impede, contudo, de afirmar também, que são evidentes e explícitas algumas situações de poderes instalados na Cúria Romana, e não só, que vêm travando ao longo dos anos a força criadora e renovadora de uma Igreja mais humana e cristã.

Graças a Deus que a Igreja, a par duma estrutura que resiste a renovar-se, vai estimulando crentes cristãos, tanto consagrados como leigos, a manterem presentes e abertos, os caminhos renovadores que o Concílio abriu. E, mesmo que reconheçamos e sintamos o fracasso, saibamos, à semelhança do teólogo espanhol José Maria Castillo, pressentir-lhe o mistério:

Entonces, ¿qué aportó Juan XXIII con su pontificado y su concilio? Lo más decisivo para los discípulos de Jesús: que la bondad es la fuerza que cambia el mundo, que renueva la Iglesia, que nos lleva por los mismos caminos que trazó Jesús. ¿Esto no dice nada? Más aún, ¿esto fue y sigue siendo un fracaso? ¿No terminó la vida de Jesús en el más estrepitoso de los fracasos? Y, sin embargo, ¿no decimos los creyentes que ahí, en eso, está el misterio de lo que más nos humaniza y más felices nos hace? Amigos, aquí estamos tocando el fondo. Como el papa Rocallí lo tocó. 

Um abraço,
maria

a vida em imagens #16



submeto-me à beleza irradiante da nespereira que, em pleno Outono, rebenta de flores. e a esta cesta de fruta.

dedicado



Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência
No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios
Mas sufocado sonho
E não sabemos bem que coisa são os sonhos
Condutores silenciosos canto surdo
Que um dia subitamente emergem
No grande pátio liso dos desastres


Sophia de Mello Breyner Andresen in "Geografia"
Obra Completa,
Caminho

2012-10-10

longe da vista, longe do coração, seguramente

Partilhou no mural do facebook o que tinha escrito no blogue:"Pensei que sim, que já tinha sorrido hoje, sorrisos amargos, sobretudo, mas que também tinha chorado com os que me são mais próximos, aflitos por me saberem desempregado. Estou desempregado. Ao fim de 23 anos de trabalho estou desempregado e não sei o que vou fazer amanhã.". É o Manuel Jorge Marmelo
Ao fim do dia, alguém me pediu que descontasse no valor que vai receber  - uma bolsa de formação - os dez euros e cinquenta que deve e não pode pagar, por não ter como. Está desempregado e acabou de saber que lhe foi recusado o RSI por ter sido ele a rescindir com entidade patronal, com quem estava em contencioso.
O meu bispo, diz isto numa entrevista:"Acho que estamos a julgar e a reagir a uma situação muito séria, de destino e de verdade fundamental do nosso povo e da Europa, a partir da “comichão” que nos fazem as dificuldades económicas do presente. Não somos redutíveis a isso!" Pois não! Mas eu não posso, em nome do meu bispo, dizer ao Manuel Jorge Marmelo, ou ao formando que me comunicou  as dificuldades por que está a passar,  que é uma "comichão" e mais logo vai passar.

2012-10-09

há ou não um Deus?


“Por detrás do silêncio do universo, por detrás das nuvens da história, há ou não um Deus? E se há esse Deus, que nos conhece, o que tem a ver connosco?" discorre o Papa na abertura do Sínodo dos bispos. E a seguir, desafia ao testemunho, mesmo no meio do sofrimento.
É vital que a Igreja continue, com humildade, a debater a questão "Deus". E alargar o debate para além daquilo que são as estruturas em que se define. E o testemunho de fé da Igreja será tanto mais acolhido, quanto ela souber ser próxima, dialogante e desinstalada. 

ponto da situação

gosto de capicuas. vá-se lá saber porquê. segundo o dicionário da Priberam, capicua:
 

aqui fica uma: 3333 mensagens publicadas até à data de hoje.

2012-10-08

fundo musical

repto



Vigiei trinta e uma horas seguidas. Acho que se não foi conTigo é porque não ressuscitastes.


Nuno Bragança in "Directa"
Obra Completa 1969-1985
Dom Quixote

o dedo na ferida


Quanto de cultural, de tradições desumanas, e até de práticas religiosas contrárias às palavras de Jesus, é preciso ainda evangelizar? O que existe ainda de controle, submissão e imposição do homem sobre a mulher no dia a dia, em instituições civis e religiosas? Que “nova evangelização” para a igual dignidade do homem e da mulher é pedida a nós, cristãos?

daqui

2012-10-07



És Tu que estás à transparência das cidades
Vê-se o Teu rosto para além dos bairros interditos.

O mal palpável próximo insistente
Parece tornar-Te evidente.

Sobe do destino uma sede de Ti.
Não somos só isto que se torce
Com as mãos cortadas aqui.



Sophia de Mello Breyner Andresen in "Mar Novo"

2012-10-05






e começarmos a partir daqui?

A Igreja e o Estado, na Alemanha

Na Alemanha há um acordo entre o Estado e as Igrejas católica e protestante (mas apenas a protestante "oficial" - há algumas pequenas comunidades protestantes autónomas que não têm acesso a este sistema). As pessoas que, ao fazerem a inscrição nas finanças, declaram que são católicas ou protestantes, passam a ver descontado automaticamente do salário um imposto para a igreja - no valor de 10% dos impostos pagos ao Estado.
O Estado entrega esse dinheiro às Igrejas - mas é óbvio que a afirmação do Lino não está correcta: o Estado não "paga a padralhada", limita-se a ter um acordo de recolha de fundos com duas das Igrejas que existem na Alemanha.

10% do valor dos impostos é muito dinheiro. E dói ainda mais se as pessoas sentem que a Igreja lhes leva o dinheiro de forma automática, mas não mostra muita consideração por elas. Há casos impressionantes, como um amigo nosso que tem um excelente salário e por isso paga muitos milhares de euros à Igreja todos os anos, mas porque se divorciou (a mulher apaixonou-se por outro) e voltou a casar (não queria deixar a nova companheira numa situação precária apenas para ele ter o direito de continuar a comungar) "vive em pecado" e foi excluído dos sacramentos. Outro caso, gravíssimo, foi o de uma educadora de um jardim infantil católico (pago com esse imposto dos católicos, claro) que perdeu o emprego por ter engravidado sem ser casada.

No fundo, estamos perante uma luta de poder: os católicos não querem pagar automaticamente para uma Igreja com cuja hierarquia não concordam, e a hierarquia trata de os castigar à grande, expulsando-os da comunidade de crentes. Como se a comunidade de crentes fosse propriedade da hierarquia...

Helena, comentário deixado aqui

nova tem de ser a perspectiva


Muitas vezes não pisamos o mesmo chão lamacento que as pessoas pisam e não vamos ao encontro das pessoas. É isto que quer dizer esta forte expressão: a Igreja não pode ser aérea e etérea, mas tem de estar plantada no meio das pessoas, conhecê-las, saber que rostos têm, que sonhos têm, que problemas têm… Era o que Jesus fazia, passando pelo meio das pessoas.

António Couto, bispo

2012-10-02

E Deus, não chama as mulheres?

 

AS MULHERES NÃO CONTAM?


1. Claro que contam. A sua presença qualificada, em muitos sectores da sociedade portuguesa, é cada vez mais afirmativa e insubstituível. Alguns homens chegam a temer um “desequilíbrio” que possa afectar privilégios ancestrais.
Esse destaque feminino, ao mostrar uma realidade irrecusável, sublinha o contraste com um passado humilhante, não muito longínquo. As contínuas notícias de violência doméstica que, por vezes, vai até ao homicídio conjugal, arrefece as visões mais eufóricas. Se a violência doméstica designava, sobretudo, os maus tratos dados às mulheres e crianças, estende-se, cada vez mais, aos idosos, mulheres e homens. Sem adequadas pensões de reforma, ficam sem meios para garantir a defesa da sua dignidade. A predominância actual da cultura utilitarista não pode entender o que exige e implica a dignidade humana dos idosos.
As Igrejas cristãs foram confrontadas, desde o começo, com o estado de negação das mulheres na cultura judaica, gravado para sempre na expressão: “sem contar mulheres e crianças” (Mt 14, 21; 15, 38 e //).
Era, de facto, o retrato da realidade em que Jesus nasceu, foi educado, mas que recusou. As mulheres, afastadas da vida pública, confinadas ao lar, preparando-se para o matrimónio, estavam destinadas a sacrificar-se pela família até ao fim dos seus dias, sob o olhar atento do pai e do marido. Sem estudos, sem papel na religião, sem posses, não tinham qualquer capacidade de decisão autónoma.
Nesta situação, estava certíssima uma oração masculina, cínica e diária: “Bendito sejas, Senhor, por não me teres feito mulher”. (Tos. Ber. VII, 18)
2. Dizem os especialistas, que a ruptura activa de Jesus com essa situação representa um dos traços essenciais da originalidade da sua intervenção histórica. Afrontou tudo o que, no plano social e religioso, marginalizava as mulheres. Segundo as narrativas da paixão e ressurreição, Jesus encontrou nelas quem melhor entendeu a sua mensagem e o seu caminho. Garantiram futuro ao movimento cristão, quando tudo parecia morto.
Artur Cunha de Oliveira publicou uma obra notável sobre Jesus de Nazaré e as Mulheres, a propósito de Maria Madalena (Instituto Açoriano de Cultura, 2011). É uma obra de referência para a teologia feminista e pode ser de muito proveito para os anti-feministas. O autor é um sacerdote católico, dispensado do ministério e casado, licenciado em Teologia Dogmática e em Ciências Bíblicas, tendo sido professor no Seminário Episcopal de Angra, Cónego da Sé e assistente diocesano de vários movimentos, organismos e associações de apostolado.
Em 2011 nasceu a Associação Portuguesa de Teólogas Feministas. Criada por Teresa Toldy, Fernanda Henriques, Maria Carlos Ramos e Maria Julieta Mendes Dias, com os seguintes objectivos: contribuir para o aprofundamento da investigação teológica feminista; criar condições para a troca de experiências de investigação entre investigadores feministas de Teologia a nível nacional e internacional; relançar, em Portugal, o debate sobre as Mulheres, numa perspectiva ecuménica.
Esta Associação vem preencher, entre nós, uma lacuna no campo da teologia, inscrevendo-se num movimento sem fronteiras. A publicação das comunicações do I Colóquio Internacional de Teologia Feminista será apresentada no próximo Colóquio, marcado para o próximo mês de Novembro.
3. A reflexão teológica na Igreja não tem sentido desligada da experiência concreta das comunidades cristãs. É, por natureza, contextual. A descoberta dos direitos e do seu papel na sociedade obrigaram as mulheres cristãs a fazer uma verificação: a nossa situação é esquizofrénica. Por um lado, participamos na emancipação das mulheres na sociedade e por outro, é-nos dito que na Igreja não pode ser assim, tem de ser diferente, pois ela não existe para reproduzir a sociedade, mas para a evangelizar na fidelidade a Jesus Cristo. Manifesta-se, precisamente aqui, um dos aspectos do debate. Na constituição hierárquica da Igreja, não há lugar para as mulheres. Não têm acesso aos ministérios ordenados, pois decretaram que o sacramento da Ordem não é para elas.
Se os ministérios ordenados são para servir, perguntam-se: que haverá em nós, por sermos mulheres, que nos impede de ser chamadas a servir as comunidades cristãs? Surge-nos a dúvida: se fossem verdadeiramente um serviço, seríamos as primeiras a ser chamadas. Como se trata de poder, fica privilégio de homens.
Note-se que nem todas pretendem ser chamadas a preencher a lacuna da falta de vocações masculinas. Mas não escondem o que as comunidades católicas teriam a ganhar com as virtualidades da diferença feminina nos ministérios ordenados. O que não suportam, enquanto cristãs, é que as mulheres não contem na orientação da vida das comunidades cristãs e sejam reduzidas ao estado pré-cristão em que Jesus as encontrou.
A Igreja nunca poderá aceitar a vontade do Simão Pedro do evangelho apócrifo segundo Tomé: “ Maria deve ir embora, pois as mulheres não são dignas da vida”. A resposta do Jesus desse evangelho é dos diabos: “Vede, vou atraí-la para que se torne macho a fim de que ela também se torne um espírito vivente que se assemelha a vós, machos.”
4. Quando certas personalidades da Igreja, para recusar às mulheres determinadas funções, invocam a prática de Jesus para as fundamentar, importa não esquecer o seguinte: antes de mais, é preciso ver a qualidade e o volume de intervenções de Jesus que são uma autêntica revolução; alteraram completamente as ideias e atitudes que ofendiam e marginalizavam a mulher, que faziam dela um ser menor, uma eterna criança. Hoje, abundam os estudos que podem evidenciar o salto civilizacional e religioso que a prática de Jesus e a sua palavra representam.
O que não é aceitável é o seguinte: não se olha para esse acontecimento e, depois, fala-se de uma ausência nas decisões de Jesus, acerca de problemáticas que não pertenciam à sociedade em que Ele viveu. Por exemplo: quando se fala dos ministérios ordenados das mulheres, não é ridículo imaginar um ritual que hoje e há séculos se pratica nas Igrejas para ordenar padres ou bispos? Figurar Jesus, paramentado, de mitra e báculo, rodeado de bispos e padres e de candidatos prostrados de rosto por terra, esperando a sua vez, é não só ridículo como inteiramente anacrónico. Se imaginarmos as coisas assim, Jesus de facto, não ordenou mulheres como não ordenou homens. Só que a questão não é essa. A questão é simples porque é que este ritual foi criado para homens e nunca para mulheres. A partir daqui fica tudo baralhado. O que importa é responder hoje, na problemática de hoje, à novidade da prática de Jesus para hoje e para sempre. Graças a Deus, Jesus Cristo continua vivo e nós, continuamos surdos e cegos.
Frei Bento Domingues, O.P.

Publicado no "Público" e copiado daqui 

 

2012-10-01

 (Setembro 2012)


Ser Igreja é trabalhar com decisão e simplicidade, para que Deus passe por esse mundo desumano. E para o não crente trabalhar para que a solidariedade e a dignidade, o melhor do humano, passe por este mundo, que embora seja mais secular, continua sendo desumano. 


Jon Sobrino