2012-10-13

Concílio Vaticano II, cinquenta anos depois



Joana,

aceito com naturalidade que tenhamos visões diferentes sobre os resultados do Concílio Vaticano II. Logo à partida, a vivência que temos do mesmo, é diversa. A Joana viveu o acontecimento há cinquenta anos, numa idade e numa perspectiva, imagino,  de quem deposita grandes expectativas para a Igreja da altura. Eu, como comentei no facebook, considero-me uma filha do Concílio. As recordações que tenho são, de durante toda a infância, e talvez por crescer numa aldeia, os lugares diferenciados que homens, mulheres e crianças, ocupavam durante as celebrações litúrgicas. Alguns homens, mais ligados a alguns movimentos ficavam no altar-mor, as mulheres e crianças no corpo da Igreja, e os restantes homens ao fundo, junto ao guarda-vento. A minha aproximação ao Concílio Vaticano II, aconteceu com o estudo dos textos conciliares muito impulsionado nos grupos que frequentei.

Apesar da minha perspectiva ser a de quem não vivenciou o Concílio no tempo, antes de quem colheu alguns dos frutos que dele emanaram, julgo-me capaz de afirmar que o Concílio Vaticano II, em si, não foi uma decepção, pela porta de renovação evangélica que abriu na Igreja. Não me impede, contudo, de afirmar também, que são evidentes e explícitas algumas situações de poderes instalados na Cúria Romana, e não só, que vêm travando ao longo dos anos a força criadora e renovadora de uma Igreja mais humana e cristã.

Graças a Deus que a Igreja, a par duma estrutura que resiste a renovar-se, vai estimulando crentes cristãos, tanto consagrados como leigos, a manterem presentes e abertos, os caminhos renovadores que o Concílio abriu. E, mesmo que reconheçamos e sintamos o fracasso, saibamos, à semelhança do teólogo espanhol José Maria Castillo, pressentir-lhe o mistério:

Entonces, ¿qué aportó Juan XXIII con su pontificado y su concilio? Lo más decisivo para los discípulos de Jesús: que la bondad es la fuerza que cambia el mundo, que renueva la Iglesia, que nos lleva por los mismos caminos que trazó Jesús. ¿Esto no dice nada? Más aún, ¿esto fue y sigue siendo un fracaso? ¿No terminó la vida de Jesús en el más estrepitoso de los fracasos? Y, sin embargo, ¿no decimos los creyentes que ahí, en eso, está el misterio de lo que más nos humaniza y más felices nos hace? Amigos, aquí estamos tocando el fondo. Como el papa Rocallí lo tocó. 

Um abraço,
maria

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