2012-11-28

da maioria silenciosa à participação activa


Para melhorar a igualdade entre homens e mulheres na Igreja, é preciso permitir uma verdadeira cidadania das mulheres na Igreja. É urgente que as mulheres que estão privadas da palavra – de maneira equivalente à privação dos direitos cívicos por muito tempo vivida na sociedade civil – se tornem sujeitos da palavra. Certamente, há mulheres nos conselhos pastorais ou que leccionam na faculdade de teologia... Mas as homilias dominicais – lugar de formação cristã para 95% dos católicos – estão fechadas para elas.

daqui

preciosíssimo

ser



Precisamos de uma mística do quotidiano. Deus não vem ao nosso encontro numa praça que nunca visitámos nem bate a uma porta onde não estamos. [José Tolentino de Mendonça]

2012-11-25

olha-te

ignorar não resolve nada



No dia 25 Novembro celebra-se o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres. A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) assinala esta efeméride lançando uma campanha de sensibilização sobre violência contra as mulheres. 

Esta campanha da APAV, como as anteriores campanhas, é, pois, uma forma de combate a um dos problemas mais graves das famílias e, por conseguinte, da sociedade, no qual são violados os direitos essenciais da pessoa humana e, em particular, os direitos das crianças, que, em muitos casos, assistem aos atos de violência. 

retirado daqui

2012-11-22

a mística da felicidade


Aquilo que nós, cristãos, mais urgentemente necessitamos é assumir e tornar nossa a mística da felicidade. Até ao presente momento, pregaram-nos, de forma entediante, a mística da renúncia e do sacrifício, a mística do heroísmo e da entrega. Há muita coisa verdadeira em tudo isso, mas desde que se entenda correctamente. Pois o problema não está no facto de que o que agrada a Deus é a dor e o sacrifício. Aquilo que agrada a Deus é que nós, seus filhos, sejamos felizes e vivamos gostosamente a vida, na medida em que isso for possível. Todavia, o que acontece é que nós devemos proporcionar-nos reciprocamente a felicidade. Somos nós que devemos fazer-nos felizes. Não é Deus quem nos dará a felicidade como uma espécie de maná que vai cair dos céus. A felicidade é a grande tarefa dos cristãos e, evidentemente, de todos os seres humanos. Acontece que é mais exigente e difícil proporcionar felicidade aos outros do que vencer-se a si próprio, vencer os próprios vícios e paixões. Pois, para proporcionar felicidade aos outros, a pessoa tem que começar por ser ela mesma uma pessoa feliz. E, sobretudo, tem que tornar-se sensível de tal modo àquilo que agrada aos outros que terá de renunciar a muitas coisas que lhe agradam para que os outros se sintam bem.
(...)
A felicidade não se impõe por decreto nem se ensina como doutrina. A felicidade  contagia-se, isto é, aquele que é feliz torna felizes aqueles que o cercam e com ele convivem. A capacidade de contagiar felicidade é determinante para quem quer falar de Deus.

José Mª Castillo in "Espiritualidade para insatisfeitos"

2012-11-21

de promessas


“Quando o imperador se diviniza e reivindica qualidades divinas, a política ultrapassa os próprios limites e promete aquilo que não pode cumprir”. São palavras do Papa, no novo livro sobre Jesus. Não será difícil que as mesmas acolham simpatia, ao serem lidas e difundidas. Pergunto-me é se, nelas, está implícito algum exame de consciência em relação ao poder papal - nas vertentes do poder temporal e espiritual.

viver

Espaço para uma canção

As noites desmedidas de novembro
abertas sobre a queixa rígida das árvores
inauguram o outono sobre a terra
Adeus ó meu verão impiedoso
ó limpidez da água sobre as pedras
ó inúmeros galos da manhã
ó tempestade agreste de alegria
É o país da música é a fome da noite
impossível estar só razoável rapaz
meu príncipe da própria juventude
Nos cabelos de vento do mar morto do destino
fundo antigo de água conchas e areias
no centro solitário deste solo
ante a solenidade sensual do sono
eu olho os paralelipípedos do nada
não me detenho nos umbrais das trevas
caminho numa mesma direcção
Onde o cheiro da esteva sobre a vila
o trigo para o campo do olhar
as estrelas abertas pelo céu?
Ponho os pés sobre as folhas no asfalto
espero por dezembro mês para morrer
evoco a luz discreta das doenças de outrora
Aqui os cisnes são da cor da cinza
e o vento devasta o país dos pauis
quando perto do chão a última cigarra
anuncia a definitiva solidão
Que é momentos puros de outra vida
da luminosa luz como ferro em fusão
do silêncio como a nossa melhor obra?
Eu te saúdo outono punitivo
sinal desse silêncio que me não permite
desistir de cantar enquanto vivo
Que o vento a névoa a folha e sobretudo o chão
caibam dentro do espaço da minha canção

Ruy Belo

2012-11-19

a matemática e não só...



A fé é um exercício muito concreto de confiança na narrativa de Deus que Jesus nos relata com a sua própria vida, com o seu próprio corpo, os seus gestos, o seu silêncio, a sua história, a poética da sua humanidade. Que se pode concluir então? Que Deus, por exemplo, não bate a uma porta que nós não temos, mas está à nossa porta e bate; que Deus não está numa época passada ou futura simplesmente, mas Deus emerge no nosso presente histórico e é aí (é aqui!) que o encontro com Ele se torna para nós decisivo.

daqui

2012-11-18







Há setenta e sete anos nasceu a minha mãe. Deu-me a vida e ensinou-me coisas preciosas. Entre elas - ser inteira em tudo.

2012-11-17

que assim seja


«Mais do que converter, a Igreja deseja sair dos seus muros, projetos e conceitos, para dialogar com a cultura, como sendo um dos grandes desafios da tão desejada nova-evangelização»

Jorge Ortiga, arcebispo de Braga

2012-11-16

bom fim-de-semana

Novembro 2012
O Juízo Final  

Chegou o miserável milionário no céu e, impacientemente, esperou a sua vez de ser julgado. Introduziram-no numa sala, noutra sala, noutra sala, até que se viu frente a uma luz ofuscante, na qual pouco a pouco foi dintinguindo a figura santa do pai dos Homens. Em voz tonitroante este, tendo à direita, Pedro, e, à esquerda, uma figura que ele não conhecia, julgou sumariamente dois outros pecadores que estavam à sua frente. E, afinal, dirigiu-se a ele:
- Que fez você de bom na sua vida ?
- Bem, eu nasci, cresci, amei, casei, tive filhos, vivi.
- Ora - disse o Senhor - isso são actos sociais e biológicos a que você estava destinado. Quero saber que bondade específica e determinada você teve para com o seu semelhante.
- Bem - disse o milionário - eu criei indústrias, comprei fazendas, dei emprego a muita gente, melhorei as condições sociais de muita gente.
- Não, isso não serve - disse o Todo-Poderoso - essas acções estavam implícitas ao acto de você enriquecer. Você as praticou porque precisava viver melhor. Não foram intrinsecamente boas acções, desprendidas, não servem.
O milionário escarafunchou o cérebro e não encontrou nada. Em verdade, passara uma vida egoísta, pensando apenas em si mesmo. Nunca o preocupara seu semelhante, nunca olhara para o ser humano a seu lado senão como uma fonte de lucro para as suas indústrias. Mas, de repente, lemboru-se das obras de filantropia.
- Ah - disse, puxando uma caderneta - aqui está. Uma vez dei cem cruzeiros para uma velhinha da Casa dos Artistas, outra vez contribuí com duzentos cruzeiros para o Hospital dos Alienados e outra vez contribuí com quinhentos cruzeiros para a Fundação das Operárias de Jesus.
- Só ? - perguntou Deus.
- Só - disse o milionário contrafeito.
- Josué! - gritou o Todo-Poderoso -, dê oitocentos cruzeiros ao cavalheiro aqui e que vá para o Inferno.
Moral: Amor com amor se paga e o dinheiro com dinheiro também.

Millôr Fernandes, in "Pif-Paf"


Daqui

2012-11-15

A Rota Do Individuo (Ferrugem)


Mera luz
Que invade a tarde cinzenta
E algumas folhas deitam sobre a estrada
O frio é o agasalho que esquenta
O coração gelado quando venta
Movendo a água abandonada

Restos de sonho
Sobre o novo dia
Amores nos vagões
Vagões nos trilhos
Parece que invade a ferrovia
Que mesmo não te vendo te vigia
Como mãe, como mãe
Que dorme olhando os filhos
Com os olhos na estrada

E no mistério
Solitário da penugem
Vê-se a vida correndo, parada
Como se não existisse chegada
Na tarde distante ferrugem
Ou nada

Djavan e Orlando Moraes

2012-11-14


excelente repto


O medo de muitos intelectuais cristãos é precisamente o medo de um mundo fortemente tecnológico e científico onde Deus já nem sequer consegue ser uma sombra ou um fantasma assustador para um ser humano entregue a si mesmo e habitando um cosmos onde Deus foi esquecido. Pelo contrário, enquanto ateus e cristãos discutirem, continuaremos a viver no humano, suficientemente humano velho mundo de sempre. Sem isso, resta-nos apenas um mundo que, podendo continuar a ser humano, será de uma humanidade que se basta a si própria, seja para se salvar, seja para se condenar, limitando-se a substituir a imagem do crucificado por uma crucificação de si mesma.

2012-11-13

Deus e a vida

Para tornar claro onde se encontra o centro da espiritualidade cristã, a primeira coisa que precisamos fazer é tomar consciência de que nós, que temos (ou pretendemos ter) crenças religiosas, estabelecemos, com demasiada frequência e sem dar-nos conta disso, uma relação dialética entre Deus e a vida. Quero dizer: para muitas pessoas, Deus e a vida são duas realidades dissociadas uma da outra. Porém, não só dissociadas, mas sobretudo duas realidades opostas. Porque, em última instância, são muitas as pessoas que vêem na vida, com os seus males, sofrimentos e as suas contradições, a grande dificuldade para acreditar em Deus. E porque, em sentido contrário, são abundantes também as pessoas que vêem em Deus o grande obstáculo para viver, desenvolver, usufruir a vida em toda a sua plenitude e com todas as potencialidades. Ou seja, por um lado, a vida neste "vale de lágrimas" representa nada menos que o problema do mal, isto é, o obstáculo insuperável para aceitar que exista um Deus infinitamente bom e infinitamente poderoso. Porém, por outro lado, esse Deus que nos manda e nos proíbe, ameaça e castiga, traduz-se e concretiza-se no problema da religião, que para muitas pessoas se torna intolerável pela ideia segundo a qual, para aproximar-se de Deus, é preciso sacrificar o entendimento, aceitando dogmas que não entendemos, sacrificar a vontade, submetendo-se a mandatos que resultam difíceis, e vencer-se o mais possível em tudo aquilo que nos agrada, porque assim parecemo-nos mais com Cristo que, com a sua dor, paixão e morte, nos mostrou como é preciso caminhar pela vida.



José Mª Castillo in "Espiritualidade para Insatisfeitos"

2012-11-12


Amar o Universo

 Amar o universo não me traz mágoa.
Sobretudo, amar a areia
Arrebata-me de júbilo e paixão.
Amar o mar completa a minha vida
Com o tacto de um amor imenso.
Mas veio o vento e, por momentos,
amargurou o meu corpo, a oscilar.
E está o Sol aqui, depois de uns dias
Com o jardim obscurecido a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem
e dançam como os insectos,
ébrios em redor do pólen.

Fiama Hasse Pais Brandão





imagem - Festival Diwali, ou Festival das Luzes, a celebrar em Bangalore, no sul da Índia.

que espiritualidade?


Quando a espiritualidade se estrutura a partir do projeto da própria  perfeição espiritual, existe o perigo de que o indivíduo,sem dar-se conta, se centre em si mesmo. Nesse caso, com a maior boa vontade do mundo, aquilo que se faz é fomentar talvez o mais refinado egoísmo. Toda a preocupação do sujeito se concentra no seu próprio protagonismo, no seu próprio crescimento espiritual, na concentração de virtudes e méritos, a fim de conseguir o mais e melhor que se pode alcançar nesta vida: a santidade. Isso foi o que mil vezes foi dito aos cristãos, sobretudo o que foi dito em conventos, noviciados e seminários, isto é, nos ambientes em que tradicionalmente mais se fomentou e cultivou a espiritualidade. Por isso, não é raro encontrar pessoas que cultivam assiduamente a espiritualidade, mas de tal maneira que, ao mesmo tempo, são pessoas agarradas às suas próprias ideias e aos seus interesses. Pessoas impositivas e dominadores, incapazes de dar o braço a torcer, embora tudo isso fique dissimulado sob formas e práticas que podem parecer o mais sublime espiritual deste mundo.

Como sair deste subjectivismo intimista:

Durante séculos, tivemos uma espiritualidade mais preocupada com a virtude da pobreza do que com o sofrimento dos pobres, ou seja, uma espiritualidade mais interessada com a santidade do "espiritual" do que com a fome do "necessitado". Ninguém põe em dúvida que a liberdade em relação ao dinheiro e aos bens deste mundo é algo fundamental. Todavia, com a disposição de que essa liberdade seja a predisposição e a condição de possibilidade para lutar contra a injustiça, a opressão e o sofrimento que os pobres padecem. (...) Não se trata de substituir a ascética pela luta social. Trata-se, em todo o caso, de ser realmente livre e estar disposto a aliviar e, se for possível, suprimir a dor e a humilhação das vítimas deste mundo.


José Mª Castillo in "Espiritualidade para insatisfeitos"



2012-11-11

porque hoje é domingo


Naquele tempo,
Jesus ensinava a multidão, dizendo:
«Acautelai-vos dos escribas,
que gostam de exibir longas vestes,
de receber cumprimentos nas praças,
de ocupar os primeiros assentos nas sinagogas
e os primeiros lugares nos banquetes.
Devoram as casas das viúvas
com pretexto de fazerem longas rezas.
Estes receberão uma sentença mais severa».
Jesus sentou-Se em frente da arca do tesouro
a observar como a multidão deixava o dinheiro na caixa.
Muitos ricos deitavam quantias avultadas.
Veio uma pobre viúva
e deitou duas pequenas moedas, isto é, um quadrante.
Jesus chamou os discípulos e disse-lhes:
«Em verdade vos digo:
Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros.
Eles deitaram do que lhes sobrava,
mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha,
tudo o que possuía para viver».

Mc 12, 38-44

a caridade


En contra de los que solemos pensar, el evangelio nos está diciendo que el principal valor de la limosna no es socorrer una necesidad perentoria de otra persona, sino mostrar una verdadera actitud religiosa. La limosna de la viuda, a pesar de su insignificancia, demuestra una actitud de total confianza en Dios y de total disponibilidad. En nuestras relaciones con Dios no sirven de nada las apariencias. La sinceridad es la única base para que la religiosidad sea efectiva. A Dios no se le puede engañar con apariencias.
No se trata directamente de generosidad, sino de desprendimiento. Lo que el evangelio deja claro es que el egoísmo y el amor son dos platillos de la misma balanza, no puede subir uno si el otro no baja. Nuestro error consiste en creer que podemos ser generosos sin dejar de ser egoístas. Lo que Jesús descubre en la viuda pobre es que, al dar todo lo que tenía, el platillo del ego bajó a cero; con lo que, el platillo del amor había subido hasta el infinito. Si mi limosna no disminuye mi egoísmo, no tiene valor espiritual.
El evangelio de hoy, ni cuestiona ni entra a valorar la limosna desde el punto de vista del necesitado, porque lo que la viuda echó en el cepillo no iba a solucionar ninguna necesidad. Se trata de valorar la limosna desde el punto de vista del que la hace. Jesús ensalza la actitud de la viuda, aunque acaba de criticar muy duramente la manera que tenían los sacerdotes de gestionar los donativos al templo.
La limosna de la que hoy se habla, no es la que salva al que la recibe, sino la que salva al que la da. La diferencia es tan sutil que corremos el riesgo de hablar hoy de tanta necesidad acuciante que podemos encontrar en nuestro mundo y por tanto, de la necesidad de hacer limosna para remediar esas necesidades extremas. Hoy no se trata de eso. Se trata de dilucidar donde ponemos nuestra confianza. Podemos ponerla en la seguridad que dan las posesiones o en la seguridad que nos da la confianza en Dios.
La motivación de cualquier limosna no debe ser, en primer lugar, remediar la necesidad de otro, que está en peores condiciones que yo, sino el manifestar el desapego de las cosas materiales y afianzar nuestra confianza en lo que vale de verdad. La cuantía de la limosna en sí, no tiene ninguna importancia; solo tendrá valor espiritual, si el hacerla, supone privarme de algo. Dar de lo que nos sobra, puede aliviar la carencia de los demás, pero ningún valor religioso para mí. Mi limosna valdrá la pena solo si me duele un poquito.
El que recibe una limosna, puede estar realmente necesitado de lo que recibe; en ese caso, la limosna ha cumplido un objetivo social. Ese objetivo no es lo esencial, porque puede alcanzarse por circunstancias ajenas a una voluntad humana. El que recibe una limosna, puede aceptarla como una lotería sin descubrir la calidad humana del que se la ha dado. O puede darse cuenta de que la actitud del otro le está invitando a ser también él mismo más humano. Si esto segundo no sucede, es que la limosna como acto religioso, ha fallado para el que la recibe. Alcanzar este último objetivo, depende de la manera de hacerla.
El que la da puede ser que tenga sus necesidades bien cubiertas y da de lo que le sobra; o puede ser que se prive de algo que necesita, al hacer la limosna. En el primer caso, aún podía demostrar un cierto desapego al superar el afán de acaparar y buscar en las riquezas seguridad. En el segundo, entramos en una dinámica religiosa. Se podría dar el caso de que un necesitado hace una limosna de la que se va a aprovechar el que no la necesita. En ese caso, el objetivo religioso se cumple. Sin tener esto en cuenta, con frecuencia dejamos de dar una limosna, porque no estamos seguros de que vaya a remediar una necesidad real.
Solo cuando das lo último que te queda, demuestras que confías absolutamente. El primer céntimo no indica nada; el último lo expresa todo, decía S. Ambrosio: Dios no se fija tanto en lo que damos, cuanto en lo que reservamos para nosotros. Un famoso escritor actual dijo en una ocasión: solo se gana lo que se da; lo que se guarda se pierde. La viuda, al renunciar a la más pequeña seguridad, manifiesta la verdadera pobreza.


2012-11-05



e de tudo quanto os meus olhos desejaram, nada lhes recusei: não privei o meu coração de nenhuma alegria, pois o meu coração sentiu alegria em todas as minhas canseiras e este foi o quinhão que me ficou de todo o meu esforço. (Eclesiastes 2,10)         
A teologia do "vale de lágrimas"

A teologia cristã ocupou-se mais com o sofrimento do que com a alegria. E preocupou-se mais com as situações duras e penosas da vida do que com aquilo que nos proporciona  felicidade, bem-estar e satisfação. Em boa medida, pode-se garantir que os teólogos interessaram-se mais pela morte do que pela vida. E, embora seja correcto dizer que nos escritos teológicos se fala com frequência da vida, o facto é que a teologia e a liturgia dão a impressão de que a vida que interessa é a "outra" vida, não "esta" vida. Mais ainda, todos nós sabemos que nas igrejas se fala com frequência de renúncia ao prazer, da mortificação do bem-estar, da austeridade, do sacrifício, da suportabilidade e da resignação, ao passo que mal se escuta algo que mova e leve as pessoas a procurar ser felizes, a deleitar-se com tudo aquilo que de bom Deus pôs no  mundo e na vida, desfrutar o prazeroso, o sensível, o corporal. Sem dúvida alguma, a moral, a espiritualidade, a simples presença do religioso causam mal estar a muitas pessoas. E, evidentemente, não é comum encontrar pessoas que, espontaneamente, associem Deus e a religião à alegria de viver e, em geral, a tudo aquilo que nos faz sentir melhor, sentir-nos bem e ser mais felizes. Por que acontece isso?



José Mª Castillo in "Espiritualidade para insatisfeitos"

2012-11-04


O Falso Conforto da Religião 

O homem comum entende como sendo a sua religião um sistema de doutrinas e promessas que, por um lado lhe explica os enigmas deste mundo com uma perfeição invejável, e que por outro lhe garante que uma Providência atenta cuidará da sua existência e o compensará, numa futura existência, por qualquer falha nesta vida. O homem comum só consegue imaginar essa Providência sob a figura de um pai extremamente elevado, pois só alguém assim conseguiria compreender as necessidades dos filhos dos homens ou enternecer-se com as suas orações e aplacar-se com os sinais dos seus remorsos. Tudo isto é tão manifestamente infantil, tão incongruente com a realidade, que para aquele que manifeste uma atitude amistosa para com a humanidade é penoso pensar que a grande maioria dos mortais nunca será capaz de estar acima desta visão de vida. 

É ainda mais humilhante descobrir como é grande o número de pessoas, hoje em dia, que não podem deixar de perceber que essa religião é insustentável, e, no entanto, tentam defendê-la sucessivamente, numa série de lamentáveis actos retrógados. Gostaríamos de pertencer ao número dos crentes, para podermos advertir os filósofos que tentam preservar o Deus da religião substituindo-o por um princípio impessoal, obscuro e abstracto, e dizemos: «Não usarás o nome de Deus em vão!». Alguns dos grandes homens do passado fizeram o mesmo, mas isso não serve de justificação para nós; sabemos porque é que tiveram que o fazer.

Sigmund Freud, in 'A Civilização e os Seus Descontentamentos'

2012-11-03

somos o que fazemos para mudar o que somos

 

 

O velho Mestre pediu a um jovem triste que colocasse a mão cheia de sal em um copo d’água e bebesse.

- Qual é o gosto? – perguntou o Mestre.
- Ruim. – disse o aprendiz.
O Mestre sorriu e pediu ao jovem que pegasse outra mão cheia de sal e levasse a um lago. Os dois caminharam em silêncio e o jovem jogou o sal no lago. Então o velho disse:
- Beba um pouco dessa água. Enquanto a água corria no queixo do jovem, o Mestre perguntou:
- Qual é o gosto?
- Bom! – disse o rapaz.
- Você sente o gosto do sal? – perguntou o Mestre.
- Não, disse o jovem.
O Mestre então, sentou ao lado do jovem, pegou em suas mãos e disse:
- A dor na vida de uma pessoa não muda. Mas o sabor da dor depende de onde a colocamos. Quando você sentir dor, a única coisa que você deve fazer é aumentar o sentido de tudo o que está à sua volta. É dar mais valor ao que você tem do que ao que você perdeu. Em outras palavras: é deixar de ser copo para tornar-se lago. Somos o que fazemos, mas somos principalmente o que fazemos para mudar o que somos.

 

 

daqui

2012-11-02

assim

Arte de Amar  

Metidos nesta pele que nos refuta,
Dois somos, o mesmo que inimigos.
Grande coisa, afinal, é o suor
(Assim já o diziam os antigos):
Sem ele, a vida não seria luta,
Nem o amor amor.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

inversão do foco



Aqui faz-se a apologia do sofrimento. Tendo como modelo a imitar, o sofrimento de Jesus, tido, ainda, como incomparável. Não subscrevo (com todo o respeito) este modelo de cristianismo. Ao longo da história houve, e há, quem tenha sofrimentos equivalentes ou superiores aos de Jesus Cristo.
Ler a história do nazareno, apenas pela via do sofrimento, é mutilá-la. Porque toda ela é uma demanda para suprimir o sofrimento. É nesse processo que todo e qualquer cristão deve colocar empenho.


2012-11-01

claríssimo


19*Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro. 20*Se alguém disser: «Eu amo a Deus», mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. 21*E nós recebemos dele este mandamento: quem ama a Deus, ame também o seu irmão.



(1ª Jo 4, 19-21)


um dia feliz - descobri um poeta

[...]

Que verdade existe no ventre das pombas?

A verdade está na língua ou no espaço dos espelhos?

A verdade é o que se responde às perguntas dos príncipes?

Qual é então a resposta às perguntas dos oleiros?

Se levantares uma túnica encontrarás um corpo mas não uma
     pergunta:

para quê as palavras enxutas em cíngulos ou as construídas em
     esquinas imóveis,

as convertidas em lâminas e, em seguida, despojadas e ávidas?

Ou melhor: alguma vez fui cínico como asfalto ou pelame?

Não se trata disso, apenas que o asfalto possuía a minha memória e
     as minhas exclamações relatavam a perdição e a inimizade.

A nossa sorte é difícil reclusa na beladona e nos recipientes que
     não devem ser abertos.

Sujo, é o mundo; porém respira. E tu entras no quarto como
     um animal resplandecente.

Depois do conhecimento e do esquecimento que paixão me con-
     cerne?

Não hei-de responder mas sim reunir-me com tudo o que está ofe-
     recido nos átrios e na distribuição dos resíduos,

com tudo o que treme debaixo da noite.





antonio gamoneda
descrição da mentira
trad. vasco gato
quasi
2003