2012-11-13

Deus e a vida

Para tornar claro onde se encontra o centro da espiritualidade cristã, a primeira coisa que precisamos fazer é tomar consciência de que nós, que temos (ou pretendemos ter) crenças religiosas, estabelecemos, com demasiada frequência e sem dar-nos conta disso, uma relação dialética entre Deus e a vida. Quero dizer: para muitas pessoas, Deus e a vida são duas realidades dissociadas uma da outra. Porém, não só dissociadas, mas sobretudo duas realidades opostas. Porque, em última instância, são muitas as pessoas que vêem na vida, com os seus males, sofrimentos e as suas contradições, a grande dificuldade para acreditar em Deus. E porque, em sentido contrário, são abundantes também as pessoas que vêem em Deus o grande obstáculo para viver, desenvolver, usufruir a vida em toda a sua plenitude e com todas as potencialidades. Ou seja, por um lado, a vida neste "vale de lágrimas" representa nada menos que o problema do mal, isto é, o obstáculo insuperável para aceitar que exista um Deus infinitamente bom e infinitamente poderoso. Porém, por outro lado, esse Deus que nos manda e nos proíbe, ameaça e castiga, traduz-se e concretiza-se no problema da religião, que para muitas pessoas se torna intolerável pela ideia segundo a qual, para aproximar-se de Deus, é preciso sacrificar o entendimento, aceitando dogmas que não entendemos, sacrificar a vontade, submetendo-se a mandatos que resultam difíceis, e vencer-se o mais possível em tudo aquilo que nos agrada, porque assim parecemo-nos mais com Cristo que, com a sua dor, paixão e morte, nos mostrou como é preciso caminhar pela vida.



José Mª Castillo in "Espiritualidade para Insatisfeitos"

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