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Que verdade existe no ventre das pombas?
Que verdade existe no ventre das pombas?
A verdade está na língua ou no espaço dos espelhos?
A verdade é o que se responde às perguntas dos príncipes?
Qual é então a resposta às perguntas dos oleiros?
Se levantares uma túnica encontrarás um corpo mas não uma
pergunta:
para quê as palavras enxutas em cíngulos ou as construídas em
esquinas imóveis,
as convertidas em lâminas e, em seguida, despojadas e ávidas?
Ou melhor: alguma vez fui cínico como asfalto ou pelame?
Não se trata disso, apenas que o asfalto possuía a minha memória e
as minhas exclamações relatavam a perdição e a inimizade.
A nossa sorte é difícil reclusa na beladona e nos recipientes que
não devem ser abertos.
Sujo, é o mundo; porém respira. E tu entras no quarto como
um animal resplandecente.
Depois do conhecimento e do esquecimento que paixão me con-
cerne?
Não hei-de responder mas sim reunir-me com tudo o que está ofe-
recido nos átrios e na distribuição dos resíduos,
com tudo o que treme debaixo da noite.
antonio gamoneda
descrição da mentira
trad. vasco gato
quasi
2003
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