2012-12-02

porque hoje é domingo



Porquê, se é possível, levar assim por diante o prazo
da existência, como o loureiro, um pouco mais escuro do que todo
o outro verde, com pequenas ondas em cada
bordo das folhas (como o sorriso de um vento) -: porquê então
ter de ser humano -, e, evitando o destino,
ter saudades do destino?...

                                                                                       Oh, não porque a ventura,
esse ganho apressado de uma perda próxima.
Não por curiosidade, ou para adestrar o coração
que também haveria no loureiro...

Mas porque estar aqui é muito, e porque aparentemente
precisa de nós tudo o que é daqui, esta efemeridade que
estranhamente nos respeita. A nós, os efémeros. Cada
uma vez, só uma vez. Uma vez e não mais. E nós também
uma vez. Nunca outra. Mas ter sido
esse uma vez, ainda que só uma vez:
ter sido terrestre não parece revogável.

E assim nos apressamos e queremos fazê-lo,
queremos contê-lo nas nossas mãos simples,
no olhar mais transbordante e no coração sem fala.
Queremos sê-lo. - A quem o dar? Mais vale
ficar com tudo para sempre...Ah, para a outra relação,
oh dor, o que se leva? Não o contemplar, aqui
tão lentamente aprendido, e daqui nenhum acontecido. Nenhum.
As dores, portanto. Portanto, antes de mais, o que pesa,
portanto a longa experiência do amor, - portanto
só o indizível. Mas mais tarde,
sob as estrelas, que importa: elas são tão mais indizíveis.
O viajante também não traz da ribanceira da montanha
para o vale uma mão-cheia de terra, a todos indizível, mas sim
uma palavra adquirida, pura, a genciana azul
e amarela. Estamos aqui talvez para dizer: casa,
ponte, fonte, portão, bilha, árvore de fruta, janela, -
quando muito: coluna, torre...mas para dizer, percebes,
oh, para dizer assim, como as próprias coisas nunca
pensaram ser intimamente. [...]



Rainer Maria Rilke, in "Elegias de Duíno - Os soneto de Orfeu"
da 9ª Elegia
Tradução Vasco Graça Moura
Bertrand


2 comentários:

  1. Gosto bem do Rilke mas só o nome do VGM dá-me vómitos!
    Beijos

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  2. :)

    faz como eu: não consumas. só assim, nas traduções.

    Beijos

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