2012-12-03

um mistério para comtemplar

A desventura máxima é a solidão. É tão verdade que o reconforto supremo - a religião - consiste em encontrar uma companhia que nunca falhe - Deus. A oração é um desabafo, como com um amigo. A obra equivale à oração, porque nos põe em contacto com os que dela tirarão proveito. O problema da vida é, portanto, o seguinte: como romper com a nossa solidão, como comunicar com os outros. Assim se explica a existência do matrimónio, da paternidade, das amizades. Mas que a felicidade resida nisto, balelas! Porque se deva estar melhor comunicando com os outros do que só, é estranho. É talvez apenas uma ilusão: a maior parte do tempo estamos muitíssimo bem sós. É agradável ter, de tempos a tempos um odre onde nos possamos despejar e, em seguida, bebermo-nos a nós próprios: dado que pedimos aos outros apenas aquilo que já temos em nós. É um mistério o motivo porque não basta perscrutar e beber em nós próprios e seja preciso reavermo-nos por intermédio dos outros.


Cesare Pavese in "O Ofício de Viver"
Tradução de Alfredo Amorim
Relógio D'Água

8 comentários:

  1. Este livro já o quero comprar há algum tempo. Este excerto aguçou-me.

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  2. Então deixo mais um aperitivo:

    "Em suma, porque se deseja ser grande, ser génio criador? Para a posteridade? Não. Para circular no meio da multidão e ser apontado? Não. Para apoiar a fadiga quotidiana na certeza de que tudo o que fazemos vale a pena, é algo único. Por hoje, não pela eternidade."

    É o diário de um homem ferido que, na primeira pessoa, reflecte sobre o mistério da vida e da morte. Como diz Italo Calvino a propósito:"O diário de Pavese é ao mesmo tempo ma técnica poética e um modo de estar no mundo"

    Se estivéssemos perto eu podia emprestar. :)

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  3. Já me emprestou o apetite. :)

    Fiquei a «saber» deste livro pelo Pedro Mexia.

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  4. nada por acaso, tenho feito leituras muito boas, e aproveitei umas promoções da fnac (passe a publicidade) de 50% e comprei alguns dos livros que há muito queria ler.

    Li de seguida toda a obra do Nuno Bragança e, passe o lugar comum, adorei.

    É curioso, mas o Pedro Mexia (por algumas coisas que leio dele) será um leitor que encontrará alguma identificação com o Pavese. As dificuldades de relacionamento com as mulheres? no Mexia, não sei se concretas se inventadas. E não só.

    O Pavese assume-se misógino. Perdoei-lhe. :) É aceitar o olhar do outro...mas não conto mais. é ler. :)

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  5. Nuno Bragança, conheço excertos... é gostei do que li, e se afiança ser bom, é mais um para a lista. Que livro será o melhor?

    Pois, o Mexia também é meio misógino. :)

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  6. Bom, lá venho eu fazer publicidade à fnac (é só porque para mim é mais cómodo, faço a maioria das compras de livros online)mas está à venda a obra completa de Nuno Bragança por 9,90€ e para aderentes ainda é menos 1 euro.

    Eu prendi-me aos "A noite e o Riso" e "Square Tolstoi", mas gostei de todos. É aquele tipo de leitura que mesmo depois de a terminarmos há um bom tempo ainda nos sentimos envolvidos nela. Não sei se me faço explicar...

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  7. Por acaso, a Wook tem a Obra Completa por 7,92 eur. Dá para os portes. :)

    Fez-se entender. Vou comprar.

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  8. oh, bom! :)

    "entender", pois. ando imprópria para consumo. :)

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