2012-12-28

uma parábola do crer




[...]A Bíblia é distante e remota: é um texto antigo. A arte, tal como a liturgia ou a pregação, transporta a Bíblia para o presente, para o quotidiano. À sua maneira como que a reescreve com a ortografia de hoje. Escolho como exemplo o capítulo XXII do livro do Génesis, quando Abraão escuta aquela palavra aparentemente contraditória da parte de Deus para imolar Isaac. Deus parece desautorizar-se a si próprio, ir contra si mesmo, porque ordena a Abraão o impensável. Ora bem: quem havia dado a Abraão o seu filho? O próprio Deus! Isaac era o filho da promessa, e contudo ele deveria ser sacrificado. Abraão sobe ao monte, ascende com terror sob aquele céu mudo. Deus está ausente, cala-se depois da enigmática ordem. Um extraordinário filósofo do século XIX, Soren Kierkegaard, e tantos outros grandes artistas tomaram este tema para meditação. Rembrandt, por exemplo, representa Abraão a fechar os olhos ao filho enquanto mantém a faca na outra mão, de maneira a ocultar o instrumento da morte. Kierkgaard escreveu sobre este motivo numa obra muito bela, intitulada Temor e Tremor. E aqui procura explicar o significado daquela página bíblica. Situa-a como uma parábola do crer, o drama de todo o crente. No fundo, a qualquer crente a fé exige um último passo, que ocorre na solidão absoluta, sem mais nenhuma prova. É o momento do puro risco. Mas Kierkegaard diz: naquele momento em que Deus nos empurra para o último passo, Deus ama-nos. Tal como uma mãe deve afastar do seu corpo o filho, ajudá-lo a alimentar-se sozinho e não apenas do leite materno, assim Deus parece afastar o homem de Si para que este se torne uma criatura livre, capaz de caminhar pelo mundo. Deus quer que O amemos livremente. Não porque daí tiramos vantagens ou provas.[...]

Gianfranco Ravasi

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