2013-01-31

logro



Sónia, tímida por natureza, já antes sabia que era mais fácil maltratá-la a ela do que qualquer outra pessoa, e qualquer um podia ofendê-la impunemente. Mas em todo o caso, até àquele momento, parecia-lhe que era possível fugir de algum modo à desgraça - com cautela, com submissão, com obediência a todos e qualquer um. A sua desilusão era demasiado pesada.



F. Dostoievski in "Crime e Castigo"
Relógio D'Água


2013-01-30

realidade e sonho




Somos um sonho divino que não se condensou, por completo, dentro dos nossos limites materiais. Existe, em nós, um limbo interior; um vago sentimental e original que nos dá a faculdade mitológica de idealizar todas as coisas. (...) Se fôssemos um ser definido, seríamos então um ser perfeito, mas limitado, materializado como as pedras. Seríamos uma estátua divina, mas não poderíamos atingir a Divindade. Seríamos uma obra de arte e não vivente criatura, pois a vida é um excesso, um ímpeto para além, uma força imaterial, indefinida, a alma, a imperfeição.A vida é uma luta entre os seus aspectos revelados e o limbo em que eles se perdem e ampliam até à suprema distância imaginável; uma luta entre a realidade e o sonho, a Carne e o Verbo.
Entre nós, o Verbo não encarnou inteiramente. Somos corpo e alma, verbo encarnado e verbo não encarnado, a matéria e o limbo, o esqueleto de pedra e um fumo que o encobre e ondula em volta dele, e dança aos ventos da loucura...
E aí tendes um pobre tolo sentimental, uma caricatura elegíaca.
Neste limbo interior, neste infinito espiritual, vive a lembrança de Deus que alimenta a nossa esperança, e transfigura esse bicho do Demónio, que anda por esses boulevards, vestido à moda ou coberto de farrapos.
Ardemos num incêndio de esperança, para que reste de nós uma lembrança, um fumo que sobe e não se apaga.
Tudo é memória: um fumo leve, em mil visagens animadas; ou denso, em formas inertes e sombrias; e, ao longe, a grande fogueira invisível que os demónios e os anjos alimentam.
Vivo, porque espero. Lembro-me, logo existo. 



Teixeira de Pascoaes, in 'O Pobre Tolo'



2013-01-27

porque hoje é domingo



20Há, pois, muitos membros, mas um só corpo. 21Não pode o olho dizer à mão: «Não tenho necessidade de ti», nem tão pouco a cabeça dizer aos pés: «Não tenho necessidade de vós.» 22Pelo contrário, quanto mais fracos parecem ser os membros do corpo, tanto mais são necessários, 23e aqueles que parecem ser os menos honrosos do corpo, a esses rodeamos de maior honra, e aqueles que são menos decentes, nós os tratamos com mais decoro; 24os que são decentes, não têm necessidade disso.
Mas Deus dispôs o corpo, de modo a dar maior honra ao que dela carecia,
25para não haver divisão no corpo e os membros terem a mesma solicitude uns para com os outros. 26Assim, se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; se um membro é honrado, todos os membros participam da sua alegria.
[1ª Coríntios, 12]


Um dos princípios básicos do cristianismo é a unidade - unidade na diferença. Ninguém se substitui a ninguém e todos são igualmente imprescindíveis. Aceitar o diferente é tornar a vida possível.

feliz o homem

2013-01-26

desejo





Um jardim onde o coração possa fazer ressoar os seus murmúrios, antes que a eternidade se nos acabe.


foto - Edward Steichen

2013-01-25



Acabei de receber um exemplar de um livro da autoria de Hans Küng "O cristianismo - Essência e História", reeditado pelo Círculo de Leitores.
Na apresentação, que tem por título "O porquê deste livro", o autor assume que interrogarmo-nos, hoje, sobre o cristianismo, acaba por "despertar sentimentos contraditórios" porque "ao longo da história, o que é cristão tem sido tantas vezes descurado, banalizado, traído...precisamente também pelas Igrejas!" e continua com uma observação que faço também minha: "E embora um grande número de cristãos já não saiba lá muito bem o que fazer da sua pertença eclesial, a verdade é que não quer abandonar o cristianismo."

"Também para mim o cristianismo continua a ser a minha pátria espiritual - a despeito da inumanidade do sistema romano que tive o ensejo de conhecer dolorosamente por experiência própria. E talvez a apresentação do cristianismo por um cristão empenhado seja mais apaixonante do que a descrição «neutra» de especialistas das ciências religiosas ou das diferentes confissões. Não, não abandonei a esperança de que será ainda possível, no terceiro milénio, viver o cristianismo de modo credível - ao mesmo tempo fiel e crítico - com conteúdos de fé convincentes, sem rigidezes dogmáticas, com orientações éticas sem a tutela do moralismo. A cristandade deve tornar-se mais cristã. - não há outra perpectiva de futuro para o terceiro milénio. O sistema romano, o tradicionalismo ortodoxo e o fundamentalismo protestante não passam todos eles de manifestações históricas do cristianismo. Nem sempre existiram e hão de desaparecer um dia. Porquê? Não pertencem à essência da realidade cristã."

2013-01-24

um credo



Creio em um só Deus
que fez a todos nós
e cuja divindade infunde toda a vida
com o sagrado.

Creio nas múltiplas revelações
desse Deus
vivo em cada coração humano,
expressado em cada cultura,
e encontrado em todas as sabedorias
do mundo.

Creio
que Jesus Cristo,
o filho único de Deus,
é o rosto de Deus
na terra
em quem vemos melhor
a justiça divina,
a misericórdia divina,
e a compaixão divina,
a que somos chamados.

Creio no Cristo
que é Um em ser com o Criador
e que nos mostra a presença de Deus
em tudo o que existe
e desperta o sagrado em nós.

Creio em Jesus, o Cristo,
que nos leva à plenitude
da estatura humana,
ao que fomos chamados a nos tornar
antes de todos os tempos
e por todas as outras coisas que foram feitas.

Por meio de Cristo
tornamo-nos novas pessoas,
chamadas a ir além das consequências
da nossa fragilidade
e elevados à plenitude da vida.

Pelo poder do Espírito Santo
ele nasceu da mulher Maria,
pura de alma
e sincera –
um sinal para as eras
do lugar exaltado
da feminilidade
no plano divino
da salvação humana.

Ele cresceu como nós
através de todas as fases da vida.
Ele viveu como nós
presa das pressões do mal
e intencionado ao bem.
Ele não rompeu nenhuma ligação com o mundo
ao que estava ligado.
Ele não pecou.
Ele nunca se afastou da mente de Deus.
Ele nos mostrou o Caminho,
viveu-o por nós,
sofreu por causa dele,
e morreu por causa dele
para que vivêssemos
com um coração novo,
uma mente nova,
e uma nova força
apesar de toda a morte
a que estamos diariamente sujeitos.

Para o nosso bem
e pelo bem da Verdade eterna
ele foi perseguido,
atacado
e executado
por aqueles
que eram os seus próprios deuses
e que não valorizavam o sagrado
em nenhum outro.

Ele sofreu para que pudéssemos perceber
que o espírito em nós
nunca pode ser morto,
seja qual for o preço que tenhamos que pagar
por nos mantermos fiéis
ao desejo de Deus.

Ele morreu
mas não morreu
porque ele vive em nós
ainda.

"No terceiro dia" no túmulo
ele ressuscitou
naqueles que ele deixou para trás
e em cada um de nós também
para viver nos corações
que não sucumbirão
aos inimigos da vida.

Ele mudou toda a vida
para todos nós desde então.
Ele ascendeu para a vida de Deus
e espera lá
pela nossa própria ascensão
para a vida além da vida.

Ele espera lá,
julgando o que foi antes
e o que ainda está por vir
contra os valores infinitos
e, em nome da virtude eterna,
pelo tempo em que toda a vida
será reunida em Deus,
cheia de vida e de luz,
embebida de verdade.

Creio no Espírito Santo,
o sopro de Deus
sobre a terra,
que mantém a visão de Cristo presente
às almas ainda na escuridão,
dá vida
mesmo aos corações agora cegos.
Infunde energia
em espíritos ainda cansados, isolados,
em busca e confusos.

O espírito falou
ao coração humano
por meio dos profetas
e me dá sentido
à Palavra
ao longo do tempo.

Creio na Igreja una, santa e universal.
Unida pela santidade da criação
e pela santidade dos corações
sempre verdadeiros.

Reconheço a necessidade
de ser liberto das compulsões
da minha vida desordenada
e a minha necessidade de perdão
diante da fragilidade.

Busco a vida eterna
de formas que eu não posso nem sonhar
e confio
que a criação continua criando
neste mundo
e em nós
para sempre.

Amém.

Amém à criação, ao Deus que é vida, à coragem, à esperança, ao espírito da verdade, à natureza, à felicidade, à plenitude, ao lugar das mulheres no plano de Deus, ao Cristo que nos chama para além os limites de nós mesmos, ao perdão, a tudo o que faz da vida o primeiro passo na expansão do coração para as dimensões de Deus. Amém. Amém. Amém. Em tudo isso, nós certamente podemos crer. Como Deus fez.


daqui

2013-01-22

à imagem de um Deus perfeito, contrapor a imagem de Deus Amor



“De forma inovadora aparece a ideia de Deus, a identidade de Deus [Vaticano II]. Diante da ideia de que Deus é um ser perfeitíssimo, brota uma Igreja que representa poder sagrado e uma sociedade perfeita; mas se tomamos a definição de que Deus é amor, brota uma Igreja que tem que ser sinal visível desse amor, um sacramento da comunhão, que quer dizer amor realizado e que faz uma Igreja servidora”.

daqui



 

2013-01-20



Acordar  

Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,
Acordar da Rua do Ouro,
Acordar do Rocio, às portas dos cafés,
Acordar
E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.

Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,
Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.
À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma,
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.

Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne,
Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,
Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom,
São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,
Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes,
Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,
Seja

A mulher que chora baixinho
Entre o ruído da multidão em vivas...
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
Cheio de individualidade para quem repara...
O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã,
Tudo isto tende para o mesmo centro,
Busca encontrar-se e fundir-se
Na minha alma.

Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...

Deita-me as mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Meu coração chora
Na sombra dos parques,
Não tem quem o console
Verdadeiramente,
Exceto a própria sombra dos parques
Entrando-me na alma,
Através do pranto.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Minha dor é velha
Como um frasco de essência cheio de pó.
Minha dor é inútil
Como uma gaiola numa terra onde não há aves,
E minha dor é silenciosa e triste
Como a parte da praia onde o mar não chega.
Chego às janelas
Dos palácios arruinados
E cismo de dentro para fora
Para me consolar do presente.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Mas por mais rosas e lírios que me dês,
Eu nunca acharei que a vida é bastante.
Faltar-me-á sempre qualquer coisa,
Sobrar-me-á sempre de que desejar,
Como um palco deserto.

Por isso, não te importes com o que eu penso,
E muito embora o que eu te peça
Te pareça que não quer dizer nada,
Minha pobre criança tísica,
Dá-me das tuas rosas e dos teus lírios,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Álvaro de Campos, in "Poemas"


 

porque hoje é domingo


 



Naquele tempo,
realizou-se um casamento em Caná da Galileia
e estava lá a Mãe de Jesus.
Jesus e os seus discípulos
foram também convidados para o casamento.
A certa altura faltou o vinho.
Então a Mãe de Jesus disse-Lhe:
«Não têm vinho».
Jesus respondeu-Lhe:
«Mulher, que temos nós com isso?
Ainda não chegou a minha hora».
Sua Mãe disse aos serventes:
«Fazei tudo o que Ele vos disser».
Havia ali seis talhas de pedra,
destinadas à purificação dos judeus,
levando cada uma de duas a três medidas.
Disse-lhes Jesus:
«Enchei essas talhas de água».
Eles encheram-nas até acima.
Depois disse-lhes:
«Tirai agora e levai ao chefe de mesa».
E eles levaram.
Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho,
– ele não sabia de onde viera,
pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam –
chamou o noivo e disse-lhe:
«Toda a gente serve primeiro o vinho bom
e, depois de os convidados terem bebido bem,
serve o inferior.
Mas tu guardaste o vinho bom até agora».
Foi assim que, em Caná da Galileia,
Jesus deu início aos seus milagres.
Manifestou a sua glória
e os discípulos acreditaram n’Ele. [Jo 2, 1-11]




Nem ritos nem abluções podem purificar o ser humano. Que nada te engane. O melhor vinho não falta nunca, está escondido dentro de ti.


2013-01-14

espiritualidades



A incapacidade de questionar, em profundidade, esta versão trituradora da máquina capitalista é a vergonha do nosso tempo. O Papa relembrou-o, muito recentemente, mas os economistas, os gestores, os banqueiros, os ministros que se confessam cristãos preferem espiritualidades de chá de tília religiosa, a ouvir o clamor dos pobres e dos empobrecidos e questionar teorias que mostram a sua inadequação, pelos frutos que produzem. As teorias são para os seres humanos, não estes para teorias, onde as pessoas estão sempre a mais. 
 (...)

Daqui não se pode concluir que os cristãos possam ser indiferentes ao que se passa na sociedade. Não dispõem de uma mensagem, descida do céu, para os levar para o céu, sem se importarem com o que se passa na terra. Se a Bíblia fosse, apenas, revelação divina escrita por autores inspirados, não teria de dar contas de nada nem a ninguém, era puro ditado sobrenatural. Esta é a posição do fundamentalismo mais ignorante. Nessa perspectiva, a Bíblia poderia ser decorada, mas nunca estudada. Não é esse o pensamento católico actual. O documento A Interpretação da Bíblia na Igreja (1993) liberta a investigação de qualquer constrangimento. A Bíblia não remete para si mesma: aponta para o mistério de Deus e para o mistério do mundo. Deus não estava calado antes da Bíblia, nem emudeceu depois do último parágrafo da Sagrada Escritura. É preciso aprender a escutá-lo na experiência de cada um, nos acontecimentos da sociedade e em todas as tentativas para decifrar o sentido da vida.  (...)

Bento Domingues, sobre os tempos que vivemos: com uma fé dormente. Ou interpelante? aqui.


zelos





“Desejo sinceramente que o vosso esforço, levado a cabo muitas vezes com sacrifício e com riscos, seja sempre animado por uma sã fé cristã, que é sem dúvida o mais precioso tesouro e valor espiritual” Bento XVI, às forças de segurança, daqui.

A foto é da Reuters: um grupo de manifestantes que luta pelos direitos das mulheres (despidas de preconceitos e de roupas) foi para a praça de S. Pedro, enquanto o Papa rezava a oração do Angelus. Uma outra mulher, armada de guarda-chuvas, tentou pôr ordem na praça. Foi contida pela forças da ordem. Uma oração inesperadamente aquecida com um fervor incomum. Mas que, ou muito me engano, vai aquecer mais.

2013-01-10

quem somos, efectivamente?




No sabemos qué fue lo que Jesús vivió antes de su bautismo, ni qué hizo que tal acontecimiento supusiera para él la “revelación” de su identidad más profunda. Lo que nos ha llegado es que, en esa circunstancia, se percibió a sí mismo como “hijo amado”, con una intensidad tal que habría de marcar definitivamente su vida y su destino.
“Hijo amado” naciendo, constante y permanentemente, del Fondo amoroso y Fuente de vida a la que habría de llamar “Padre”, y de la que se sabía y vivía no separado.
En realidad, todo lo que tiene que ver con la vida tendría que conjugarse en gerundio, porque todo es siendo. Al substantivar la realidad, tendemos a pensarla como “objetos” aislados unos de otros y cerrados sobre sí mismos. Es consecuencia inevitable de ver –y nombrar- todo desde la mente objetivadora.
Sin embargo, cuando se sortea esa trampa, no es difícil advertir que, paradójicamente, todo es ya pleno presente y, simultáneamente, todo es procesual: todo ES a la vez que ESTÁ SIENDO.
Jesús supo vivirse en ese “doble nivel”, en su realidad histórica como persona individual, y en su realidad más honda, como Fondo que se expresaba en una forma histórica.
Aquí radica la sabiduría que nos permite despertar: somos una “ola” concreta que está siendo, en un recorrido histórico determinado, y somos a la vez el océano que siempre es.
Cuando nos reducimos a la “ola”, es inevitable la confusión y el sufrimiento, porque nos vemos inconsistentes, vulnerables y a merced de cualquier circunstancia.
Cuando, por el contrario, no perdemos la conexión con nuestra identidad más profunda –aquella que permanece cuando soltamos todo-; cuando nos hacemos conscientes, como Jesús, de que “el Padre y yo somos uno”, nos estamos percibiendo y experimentando como el “océano” que genera olas sin cesar. En este caso, quitamos a las circunstancias su poder sobre nosotros y empezamos a verlas como “nubes” que ya no nos afectan absolutamente.
En el primer caso, al reducirnos a la identidad individual, estamos dormidos. Tomamos como real el “sueño” de la vida y vivimos como actores y actrices que han “olvidado” su verdadera identidad para asumir la del personaje que representan. Se comprende que nos sintamos como “personajes” endebles, asustados y perecederos.
Al despertar, seguimos reconociendo el valor “relativo” de este sueño, pero ya no nos identificamos con los “papeles” que estamos representando.
Esta no-identificación no significa indolencia, pasividad ni indiferencia, como nuestra mente (nuestro ego) está tentada a leer. Esa tendencia de la mente se comprende porque, debido a su carácter dual, tiende a separar tajantemente lo que solo son dos polos complementarios. Es decir, para la mente, si no hay identificación, hay pasividad.
La actitud adecuada es otra: no hay identificación –porque evitamos la trampa de reducirnos a lo que no somos-, pero estamos en conexión constante con nuestra identidad profunda que es Amor y Unidad con todo. Por eso no es necesario estar identificados con el personaje para comprometerse en la transformación del mundo.
Lo que ocurre es que, mientras se adopte, consciente o inconscientemente, una postura dual, la ecuanimidad y el compromiso no podrán verse sino como opuestos, imposible de armonizar entre sí.
Sin embargo, en una perspectiva no-dual, cada uno reclama al otro: la contemplación es el corazón del compromiso, y este es la expresión de aquella.




2013-01-09

a oração possível




O dia inclina-se

Encontras-me deserto, Senhor
no teu dia,
fechado a toda a luz.

De ti privado temo,
perdida a estrada do amor,
e não há graça
nem sequer um trépido cantar-me
que faça secos os meus quereres.

Amei-te e bati-te;
o dia inclina-se
e colho as sombras dos céus:
que tristeza o meu coração
de carne!


Salvatore Quasimodo

2013-01-07

a palavra que se reza



1*Junto aos rios da Babilónia nos sentámos a chorar,
recordando-nos de Sião.
 

2Nos salgueiros das suas margens
pendurámos as nossas harpas.
 

3Os que nos levaram para ali cativos
pediam-nos um cântico;
e os nossos opressores, uma canção de alegria:
"Cantai-nos um cântico de Sião."
 

4Como poderíamos nós cantar um cântico do SENHOR,
estando numa terra estranha?


5Se me esquecer de ti, Jerusalém,
fique ressequida a minha mão direita!
 

6Pegue-se-me a língua ao paladar,
se eu não me lembrar de ti,
se não fizer de Jerusalém
a minha suprema alegria!


7*Lembra-te, SENHOR, do que fizeram os filhos de Edom,
no dia de Jerusalém, quando gritavam:
"Arrasai-a! Arrasai-a até aos alicerces!"
 

8*Cidade da Babilónia devastadora,
feliz de quem te retribuir
com o mesmo mal que nos fizeste!
 

9*Feliz de quem agarrar nas tuas crianças
e as esmagar contra as rochas!



Este Salmo 137 é uma das mais belas orações de súplica colectiva. Normalmente, fixamo-nos nos primeiros versículos e ignoramos os últimos, que se tornam escandalosos pela extrema dureza. Como pode um "povo eleito", expressar tais sentimentos? Ouviria - e ouvirá - Deus, tal súplica?
O contexto do Salmo é o exílio da Babilónia. A profundíssima dor é manifestada, no início, com belas imagens, como as harpas que se penduraram, ou a língua que se obriga a ficar quieta,  e a mão ressequida - para não poderem tocar nenhum instrumento e entoar os hinos -, mas os versículos 8 e 9 são o epílogo que ilustra a totalidade de sentido do Salmo.






2013-01-06

porque hoje é domingo - o profeta da consolação



Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz
e brilha sobre ti a glória do Senhor. Vê como a noite cobre a terra
e a escuridão os povos.
Mas sobre ti levanta-Se o Senhor e a sua glória te ilumina.
As nações caminharão à tua luz
e os reis ao esplendor da tua aurora. Olha ao redor e vê:
todos se reúnem e vêm ao teu encontro; os teus filhos vão chegar de longe
e as tuas filhas são trazidas nos braços. Quando o vires ficarás radiante, palpitará e dilatar-se-á o teu coração, pois a ti afluirão os tesouros do mar,
a ti virão ter as riquezas das nações. Invadir-te-á uma multidão de camelos, de dromedários de Madiã e Efá.
Virão todos os de Sabá,
trazendo ouro e incenso
e proclamando as glórias do Senhor.

Is 60,1-6

cada um olhe para si



" Viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O.” Mt 2, 11


Quem procura…

É verdade, assusta-me quem não tem dúvidas! Quem se mostra convencido de que sabe tudo, que pode adivinhar o futuro e que conhece todas as soluções (quase sempre as mais catastróficas, porque quem não procura a verdade faz a verdade coincidir com as suas ideias!). Normalmente não pede nem precisa de ajuda e, quase sempre, é profundamente infeliz, ainda que se rodeie de riqueza ou poder e algum espavento. Em dia de Reis (que afinal é de Magos, pois assim conta São Mateus), encantam-me estes personagens que a história e a lenda pintaram com sumptuosas vestes e séquitos deslumbrantes, a começar pelos camelos, daqueles verdadeiros com bossas e tudo! Encanta-me a grandeza que os leva a calcorrear caminhos atrás de uma estrela à procura de um rei extraordinário. Maravilho-me com a humildade de se irem “pôr na boca do lobo”e bater à porta de Herodes a perguntar o caminho. Ah, grandes reis, ou magos, que nos ensinam a procurar e nunca nos julgarmos “donos da verdade”.   
Procurar é algo a que os guardiões da verdadeira religião, neste caso os sumos sacerdotes e os escribas, não estão habituados. E nem têm vontade de para aí se voltarem: então a sua ”religiãozinha” não é tão boa que lhes dá “cama, mesa e roupa lavada”? “E o povinho não gosta tanto de vir fazer os sacrifíciozinhos, e deixar as ofertas no Templo, e volta para casa contentinho porque já fez a sua obrigação?! Para quê procurar? O culto é tão bonito e isto de Deus ser um mistério faz muita confusão que o melhor é não levantar ondas, porque se o Messias vai nascer em Belém ele há-de cá vir ter e nós ensinar-lhe-emos como se deve comportar!” Devo estar enganado e nada disto passou pelas cabeças dos sábios de Jerusalém, mas o certo é que ninguém acompanhou os Magos!
E pode-se convidar um rei a procurar? Mesmo um rei-quase-fantoche como é Herodes, pois Israel está sob domínio romano, não deixa a comodidade do seu poder para ir a uma aldeola porque as Escrituras anunciam que aí nascerá o Messias. “E isto do Messias tem muito que se lhe diga. O povinho alimenta a esperança de que ele irá fazer justiça aos pobres e atender os mais atribulados, e isso pode dar muita confusão. Já cá temos o nosso sistema de esmolas que serve para manter as diferenças entre ricos e pobres senão isto seria o caos! E quanto à justiça todos entendem que ela é feita por quem tem poder e, naturalmente não pode beneficiar os maltrapilhos e borra-botas que não querem fazer nenhum. É preciso manter as diferenças, e se um pretenso rei vem para aí mudar isto e acabar com os poderes instituídos é urgente fazer-lhe frente. Sim, que somos todos filhos de Deus tudo bem, mas há uns mais filhos que outros!” Não, nada disto passou pela cabeça de Herodes (e de todos os Herodes em todos os tempos quando a mensagem de Jesus começa a arder nos bolsos e nas assinaturas!) mas também ele não foi a Belém!
Foram os que procuravam. E ainda hoje é assim: só vai a Jesus quem procura, quem tem fome e sede de justiça, quem é pobre (de coração, mesmo), quem deseja ser melhor, quem não é autosuficiente, quem sonha e ama, quem pouco deseja para si, quem não ambiciona poder nem riqueza, quem é capaz de adorar, quem está vivo! És tu um desses?

P. Vitor Gonçalves, daqui

2013-01-05

ainda aparecem novidades na blogosfera



Ando a seguir com alguma curiosidade e expectativa este blogue. Quero ver até onde vai a capacidade e coragem do autor na abordagem dos temas. É pena ser num registo demasiado "Inimigo Público", e o enfoque ser, sobretudo, sobre pessoas ligadas às religiões, religião católica incluída. E também desconfio da selecção. Veremos...






sempre que como um diospiro, lembro-me do poema






Há frutos que é preciso
acariciar
com os dedos com
a língua

e só depois
muito depois

se deixam morder

 
Jorge Sousa Braga

o destino que a antiguidade traçou




"O que aqui vedes é pura e simplesmente o ensaio das minhas faculdades naturais e de maneira nenhuma o das adquiridas. Quem me surpreender em flagrante delito da ignorância, não me fará nada de mal, pois não posso responder a outrem pelas minhas opiniões, eu que não o faço a mim mesmo e que não estou satisfeito com elas." [Montaigne, "da amizade e outros ensaios"] Pertinente aviso - é que atrás estava escrito sobre o tema casamento e amizade:"Acresce que, para dizer a verdade, a capacidade normal das mulheres não está à altura de uma confiança mútua e recíproca como a de que se nutre esse santo liame (o casamento) nem tão pouco a alma delas parece assaz constante para sustentar o vínculo de um nó tão apertado e tão duradouro. E, decerto, se assim não fosse, se se pudesse estabelecer uma relação livre e voluntária em que não apenas as almas tivessem cabal fruição mas ainda os corpos tomassem parte na aliança, em que o homem se empenhasse todo inteiro, certo é que a amizade resultante seria mais plena e completa. Mas não há, de resto, nenhum exemplo de que o sexo feminino haja sido capaz de lá chegar; e as escolas filosóficas da Antiguidade, por consenso geral, negam que tal possa acontecer.

2013-01-03



O arcanjo Gabriel bem tentou que se esclarecesse o essencial, mas depois lá desmoronava o dogma da concepção virginal. Ou antes, a forma como tem sido entendido:



"Quebraba Benedicto el sueño, dando unas cabezaditas durante el telediario de sobremesa. Una pálida luz azulada difuminaba la sala cuando se dibujó en el ambiente onírico la figura del arcángel Gabriel.

-Alégrate, Benedicto, el Señor está contigo.
-Agradable sorpresa, Gabriel. Llegas en un buen momento. Necesito que me eches una mano para acabar de redactar el capítulo de la Anunciación.
-Bien, ya sabes, maestro, haz hermenéutica, que algo queda.
-Sí, ya he explicado que los peregrinos de la estrella ni eran tres, ni eran reyes, ni eran magos, que la mula entra en escena por alusión a Isaías; que hay música de salmos de liberación para armonizar el magnifcat del abrazo entre las dos primas embarazadas, telón de fondo de Emmanuel para los nacimientos y gloria en el mutis de los pastores. Ah, y que traduzcan bien lo de la eu-dokía: paz a hombres y mujeres, que por algo son todos y todas objeto de la buena voluntad del Altísimo, que por algo los quiere a todos y a todas la eu-dokía del Señor.
-¿Qué más quieres, Benedicto? Tú tienes muchas tablas para clases magistrales. Tu libro será un best seller. ¿Qué te voy añadir yo?
-Pues justo lo que te decía: el tema de lo vuestro, quiero decir, lo tuyo con María y José cuando irrumpe el Espíritu.
-Escribe bien ese capítulo, que cuando lo pongan en teleserie la máxima audiencia será para la aparición de Gabriel, susto para la niña: una estéril embarazada y una virgen concibiendo; sendos mensajeros tranquilizan en sueños al esposo de una y al novio de la otra...
-Pero es muy delicado aclarar eso. Ahí sí que no me atrevo como con la mula y el buey...
-Tú, buen teólogo, puedes hacerlo. Aclara lo esencial.
- Sí, eso ya lo he escrito. Mateo y Lucas saben lo que hacen: narrativa de promesa, identidad y vocación con mensaje salvífico. Francisco lo popularizó en los belenes: Paz a quienes adoran con amor infante, esperanza adolescente y fe adulta. Yo les repito el mensaje en el Año de la Fe, medio siglo después de Juan XXIII, el Bueno. Que entiendan bien el mensaje de paz en la tierra por la Encarnación de la Palabra de Gracia. Y que vean, como veía el Papa Juan, la clave del misterio en el rostro de la criatura recién nacida. Cada bebé viene al mundo por la unión amorosa de sus progenitores y, a la vez, por obra y gracia de Espíritu de Vida.
-Perfecto, Benedicto.
-Ya, pero no basta, porque van a preguntar por la concepción y... si les digo, como hay que decir, que la estrella de Oriente no es tema de astronomía, ni la concepción mesiánica es cuestión de biología, lo van a entender mal.
-De ningún modo. Llámame a mí por testigo, yo velaba en el umbral mientras María y José dormían su primera noche. Irrumpió el Espíritu Santo. María y José hicieron al niño que el Espíritu les dió. El Espíritu les dió el niño que hicieron ellos.
-Ya lo sé, Gabriel, ya lo sé. Pero el pueblo falto de catequesis adulta no lo va a entender. Mira la que se armó cuando dije lo del buey y la mula; van a pensar que lo de Mateo y Lucas es cuento de hadas y que no es propio de mí desmitificar tu Anunciación. Tengo que decirles claramente que esas narraciones no son mito, sino historia.
-Entonces te criticarán tus colegas de teología, que defienden la verdad mitopoética.
-Pero si te desmitifico, Gabriel, el pueblo creyente sencillo se desconcertará.
-Y si no lo haces, no pasarán a fe adulta y se quedarán creyendo al pie de la letra, como cuando decían que a los bebés los trae de París una cigüeña.
-Calla, Gabriel, calla, por Dios, no mientes a “Cigoñas y cigoñinos”, que trae mala suerte a Religión Digital.
-Entonces díselo con palabras de magisterio papal, que eso tranquiliza mucho a los fundamentalistas. Cítales a tu mentor Juan Pablo II, el Firme, que acuñó una de las mejores fórmulas para hablar de Anunciación y Concepción virginal. Dice al comienzo de la encíclica Evangelium vitae que “la Navidad manifiesta el sentido profundo de todo nacimiento humano” . Es decir, que si virginidad es culmen de receptividad y donación mutua, María y José no pierden la virginidad al unirse para procrear, sino que se hacen vírgenes al unirse para hacerse padre y madre del fruto de su amor. Hay que ser poeta como Lucas y Mateo para plasmar tan bellamente en sus evangelios el misterio de la encarnación de lo divino en lo humano: se consuma cuando una mujer y un varón se dan y reciben por completo, convirtiéndose en vírgenes precisamente por hacerse engendradores de vida."

Juan Masiá, aqui
 (Alexey Bednij)


Faz-se Luz  

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes    loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina    realmente    os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos    e na boca

Mário Cesariny, in "Pena Capital"

2013-01-02

a fé



No outro dia, o Gabriel descobriu numa gaveta - está na fase de investigar o que guardam as gavetas e caixinhas que se encontram pela casa - um saca agrafos que, imediatamente, denominou tubauão. E, a partir daí, o tubauão foi ripar o musgo do presépio, as folhas das plantas da sala, abrindo e fechando as mandíbulas ao ritmo da imaginação do meu neto.
Este episódio  despertou-me para a importância da imaginação - que, sendo tão fértil na infância, decresce e  desaparece na maturidade. E perde-se, desse modo, uma dimensão importante para interagirmos com o mundo à nossa volta e com as diferentes dimensões do nosso ser.

A fé é um desafio à imaginação. Muito mais do que um desafio intelectual. Bem, já estou a imaginar as objecções que a minha explanação vai despoletar. Ainda há poucos dias, no diálogo com dois não crentes, pedi que, numa palavra, definissem Deus. Inevitavelmente, surgiu a palavra "mito". Agora estou a valorar a imaginação como componente da fé. A verdade é que, abordar os textos bíblicos, por exemplo, sem capacidade de imaginação, fazendo-o, apenas - à boa maneira evangélica -, na sua literalidade, perde-se uma parte substancial dos mesmos.








2013-01-01

hoje e sempre



1* Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos,
se não tiver amor, sou como um bronze que soa
ou um címbalo que retine.
2Ainda que eu tenha o dom da profecia
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas,
se não tiver amor, nada sou.
3Ainda que eu distribua todos os meus bens
e entregue o meu corpo para ser queimado,
se não tiver amor, de nada me aproveita.
4*O amor é paciente,
o amor é prestável,
não é invejoso,
não é arrogante nem orgulhoso,
5nada faz de inconveniente,
não procura o seu próprio interesse,
não se irrita nem guarda ressentimento.
6Não se alegra com a injustiça,
mas rejubila com a verdade.
7Tudo desculpa, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta.
8*O amor jamais passará.
As profecias terão o seu fim,
o dom das línguas terminará
e a ciência vai ser inútil.
9Pois o nosso conhecimento é imperfeito
e também imperfeita é a nossa profecia.
10Mas, quando vier o que é perfeito,
o que é imperfeito desaparecerá.
11Quando eu era criança,
falava como criança,
pensava como criança,
raciocinava como criança.
Mas, quando me tornei homem,
deixei o que era próprio de criança.
12*Agora, vemos como num espelho,
de maneira confusa;
depois, veremos face a face.
Agora, conheço de modo imperfeito;
depois, conhecerei como sou conhecido.
13*Agora permanecem estas três coisas:
a fé, a esperança e o amor;
mas a maior de todas é o amor.


1ª Coríntios 13, 1-13