2013-01-06

cada um olhe para si



" Viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O.” Mt 2, 11


Quem procura…

É verdade, assusta-me quem não tem dúvidas! Quem se mostra convencido de que sabe tudo, que pode adivinhar o futuro e que conhece todas as soluções (quase sempre as mais catastróficas, porque quem não procura a verdade faz a verdade coincidir com as suas ideias!). Normalmente não pede nem precisa de ajuda e, quase sempre, é profundamente infeliz, ainda que se rodeie de riqueza ou poder e algum espavento. Em dia de Reis (que afinal é de Magos, pois assim conta São Mateus), encantam-me estes personagens que a história e a lenda pintaram com sumptuosas vestes e séquitos deslumbrantes, a começar pelos camelos, daqueles verdadeiros com bossas e tudo! Encanta-me a grandeza que os leva a calcorrear caminhos atrás de uma estrela à procura de um rei extraordinário. Maravilho-me com a humildade de se irem “pôr na boca do lobo”e bater à porta de Herodes a perguntar o caminho. Ah, grandes reis, ou magos, que nos ensinam a procurar e nunca nos julgarmos “donos da verdade”.   
Procurar é algo a que os guardiões da verdadeira religião, neste caso os sumos sacerdotes e os escribas, não estão habituados. E nem têm vontade de para aí se voltarem: então a sua ”religiãozinha” não é tão boa que lhes dá “cama, mesa e roupa lavada”? “E o povinho não gosta tanto de vir fazer os sacrifíciozinhos, e deixar as ofertas no Templo, e volta para casa contentinho porque já fez a sua obrigação?! Para quê procurar? O culto é tão bonito e isto de Deus ser um mistério faz muita confusão que o melhor é não levantar ondas, porque se o Messias vai nascer em Belém ele há-de cá vir ter e nós ensinar-lhe-emos como se deve comportar!” Devo estar enganado e nada disto passou pelas cabeças dos sábios de Jerusalém, mas o certo é que ninguém acompanhou os Magos!
E pode-se convidar um rei a procurar? Mesmo um rei-quase-fantoche como é Herodes, pois Israel está sob domínio romano, não deixa a comodidade do seu poder para ir a uma aldeola porque as Escrituras anunciam que aí nascerá o Messias. “E isto do Messias tem muito que se lhe diga. O povinho alimenta a esperança de que ele irá fazer justiça aos pobres e atender os mais atribulados, e isso pode dar muita confusão. Já cá temos o nosso sistema de esmolas que serve para manter as diferenças entre ricos e pobres senão isto seria o caos! E quanto à justiça todos entendem que ela é feita por quem tem poder e, naturalmente não pode beneficiar os maltrapilhos e borra-botas que não querem fazer nenhum. É preciso manter as diferenças, e se um pretenso rei vem para aí mudar isto e acabar com os poderes instituídos é urgente fazer-lhe frente. Sim, que somos todos filhos de Deus tudo bem, mas há uns mais filhos que outros!” Não, nada disto passou pela cabeça de Herodes (e de todos os Herodes em todos os tempos quando a mensagem de Jesus começa a arder nos bolsos e nas assinaturas!) mas também ele não foi a Belém!
Foram os que procuravam. E ainda hoje é assim: só vai a Jesus quem procura, quem tem fome e sede de justiça, quem é pobre (de coração, mesmo), quem deseja ser melhor, quem não é autosuficiente, quem sonha e ama, quem pouco deseja para si, quem não ambiciona poder nem riqueza, quem é capaz de adorar, quem está vivo! És tu um desses?

P. Vitor Gonçalves, daqui

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