2013-02-28

Assim me Explico




O que É Perfeito não Precisa de Nada  

Sim, talvez tenham razão.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.

Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.

No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.

E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.

E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada. 



Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa 



2013-02-27

onde pousar o olhar



Por estes dias, em que o gesto inusitado do Papa faz surgir tanta opinião e informação, não deixo de me interrogar sobre o papel da Igreja: Porta de entrada ao mistério de Deus, ou obstáculo que, por ter em si mesma concentradas as atenções, nos desvia do "lugar" onde devemos pousar o olhar.
Não que eu pretenda anular os paradoxos da fé: tudo é imagem de Deus e tudo é imagem idolátrica, se com ela pretender afirmar o absoluto de Deus.


#imagem-Óbidos, 2013

2013-02-26





Predestinada à tua órbita,
Que te importa, estrela, a noite




Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

 

a neurociência e a fé


Todas as emoções têm um mecanismo neural?

Sim, é evidente que sim.

E a fé?

A fé não é uma emoção. A fé é um estado de crença que tem um componente emocional, mas que não se limita a uma emoção nem a mecanismos neurais. 


António Damásio, aqui

2013-02-25





Bem-aventurado aquele que ama a vida tal como é e não como tende a representá-la.

daqui

o essencial



João César das Neves, lamenta que a maioria das pessoas, ao comentarem a renúncia do Papa, passem ao lado do essencial. E o essencial, quanto a ele, é que o Papa é o vigário de Cristo na terra (não explica, mas estou a imaginar o esquema que usa: a Igreja como uma pirâmide, e no topo, o Papa) e não está mais que a obedecer a um mandato divino. Descreve-o do seguinte modo: "o factor mais decisivo (...): Deus. Concorde-se ou não, goste-se ou não da sua convicção, é evidente que Bento XVI tomou a sua decisão diante de Deus." 

Neste particular, estou de acordo com César das Neves. O factor decisivo foi/é Deus. Vou então esquecer tudo o que já se disse, as suspeitas, intuições (o que o próprio Papa nomeou como razões: a doença, as exigências do cargo/serviço...) e contrapor-lhe Deus? Porque parece ser a tentativa de César das Neves.

Na tradição da Igreja e na tradição do texto bíblico, Deus não se serve de fenómenos exteriores aos homens (e um Papa, por mais títulos que se lhe imponham: "Sua Santidade", "Sumo Pontífice", "Vigário de Cristo", está limitado e dispõe dos mesmos meios, que qualquer outro homem) para se comunicar. O que quero dizer, é que foi nas razões que o Papa enumerou, nas que intuímos e talvez nunca venhamos a saber, que Deus se manifestou. O divino que existe em cada homem, não age à margem das debilidades e contingências humanas.

2013-02-24

a vida sexual dos padres devia suscitar tanto interesse como a de outra qualquer pessoa. como ainda não chegámos lá, é bom que se pense e estude o assunto

 
 
Eu não acho que os padres católicos que têm problemas com o sexo, os tenham por serem padres. Acho, sim, é que há gente que decide ser padre por já ter, à partida, problemas com o sexo.
Não se tem que ficar com taras sexuais por se fazer voto de castidade. A esmagadora maioria das pessoas que viveram toda a sua vida sem relações sexuais não desenvolveu patologias sexuais por causa disso. Outras há que estão anos e anos nessa situação sem que isso provoque alteração do comportamento. 
Não temos que tentar perceber por que razão, um pouco por todo o mundo, há tanto padre católico sexualmente criminoso.Temos, sim, que tentar perceber o que levou essas pessoas a quererem ser padres. Para serem bons cristãos? Mas pode-se ser um excelente cristão sem ser padre. Ir à missa todas as semanas, agir como um cristão ou até mesmo ter uma militância activa numa organização cristã. Porquê, então, ser padre católico? Um padre protestante sabe que pode casar e ter filhos. Sabe que, neste aspecto, ser padre é como ser professor, médico, canalizador ou empregado de escritório. Mas um padre católico sabe que, por sê-lo, não poderá ter relações sexuais, não pode apaixonar-se, ter mulher, ter filhos. 
Por que razão, então, aceitará sacrifício? Posso responder de duas maneiras. Por um lado, pode não ser um sacrifício. Pode achar que não gosta de sexo, ter medo do sexo, ter um qualquer complexo ou trauma que o leve a pensar que prefere rejeitar o sexo. Só que, se for esse o caso, isso significa que, à partida, já existe um problema com o sexo. Vamos então supor que se trata mesmo de um sacrifício. Que gosta de sexo, que se sente atraído sexualmente por outras pessoas, que tem uma libido activa. Neste caso, porque rejeita tudo isso para aceitar ser padre católico? Porque não assume uma vida sexual normal, sabendo que pode ser um bom cristão de mil e uma maneiras possíveis?
Esta história de tantos e tantos padres católicos que padecem de desvarios sexuais merecia um estudo sério. Ser padre não implica ser doente. Mas é provável que a muito doente dê bastante jeito vir a ser padre.
 
retirado daqui

Sete Lágrimas - Senhora del Mundo

2013-02-23

os prepúcios de cem filisteus (1ª Samuel 18,25)



Não era para escrever sobre o assunto. Mas algumas intervenções públicas de elementos da Igreja, nomeadamente do bispo auxiliar de Lisboa, Nuno Brás, que disse à Renascença e que aqui se reproduz: "a Igreja é constituída por pecadores, os pastores da Igreja são pecadores, uns mais do que outros, obviamente". O comentário é sobre as notícias que envolvem outro bispo, da Igreja portuguesa, Carlos Azevedo.
Um combate que a Igreja internamente tem de travar, mas está a milhas de se convencer disso, é fazer cessar o moralismo. E os escândalos que, por toda a parte, surgem na Igreja são a prova disso. Mas é mais fácil encher a boca e os discursos sobre o pecado dos outros. E se é um pecado ligado ao corpo, e mais concretamente ao sexo, temos o moralismo em todo o seu esplendor. 


O bispo Nuno Brás faz por ignorar que, em matéria de pecado, não se contabilizam pecados: uns pecam de um modo, outros de outro.

Saul era o rei ungido por Samuel, o escolhido de Deus. Mas no seu coração germinou a inveja e o sonho do poder ilimitado, colocou, então, David - que se estava a tornar uma ameaça aos planos acalentados com soberba - na frente de batalha e obter os prepúcios de cem filisteus (depois de os passar à espada, está visto). Ele, ousado, conseguiu e apresentou o dobro do pedido. Pensando estar a agradar o Rei, e futuro sogro, com estas conquistas, ainda tornava a sua situação, aos olhos do outro, mais vulnerável.

Desconte-se o fino humor do autor bíblico - colocar como objecto do dote os prepúcios dos filisteus - o que convém retirar do "relato" bíblico, é que os grandes pecados moram no coração do homem. E tão distraídos andamos a preservar as nossas seguranças e aquilo que consideramos conquistas, que nem damos conta por onde o mal avança. E é sempre dentro de nós.


este texto não esgota a temática, mas é um bom contributo



... “para governar a barca de são Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor tanto do corpo como do espírito, vigor que, nos últimos meses, diminuiu em mim de tal forma que hei de reconhecer minha incapacidade para exercer bem o ministério que me foi encomendado”.

Essa é, decerto, uma das mais revolucionárias declarações deste início de século. Ao anunciar sua renúncia, o papa Bento XVI manifestou uma constatação que, de tão óbvia, tomou de surpresa a tantas pessoas (dentre as quais não me incluo) pelo mundo afora. Que constatação é essa? Que, como todos os seres vivos, também ele tem/é um corpo. Tal como você, eu, tal como Jesus. A corporeidade é nosso inarredável ponto de partida, que nos torna sensíveis, relacionais e históricos.
Constatar isso talvez tenha sido árduo para o cardeal Ratzinger, que passou boa parte de sua vida religiosa e pontificado olhando para a corporeidade alheia, em geral nela apontando o que considera mazelas e desvios. Enquanto isso, instalou-se num mundo platônico, em que manejava com maestria ideias e doutrinas distantes dos dilemas mais prementes dos companheiros e companheiras de humanidade.
Eis que – à semelhança de casais homossexuais, usuários de camisinha e de anticoncepcionais, perpetradores e vítimas de pedofilia, sacerdotes doidos para casar (ou padres casados ansiosos para voltar ao serviço sacerdotal), freiras que o povo quer ver celebrando missa e sacramentos, assim como jovens mergulhados em aluvião hormonal – de repente o papa exclama: “Olhem, tenho um corpo!”. E pede: “Estou com idade avançada. É difícil compreender isso?”
Aqui surge um segundo componente da corporeidade, que introduz carne e sangue no asséptico silogismo aristotélico “Todos os homens são mortais, eu sou um homem, deinde sou mortal”. Velhice, dor e doença são sinal da finitude que, por sinal, deslanchou a conversão do príncipe Sidarta. Mesmo que os teólogos elaboradores de dogmas insistam em que papas são infalíveis (ok, em matéria de fé), quando as articulações doem, a próstata incha e dificulta a reles ação de urinar, o coração exige uma ajuda tecnológica e periódica troca de pilha e quando isso tudo desemboca em enorme cansaço, só aí é que se vê que papas, como o atual, são falíveis no nível mais fundamental.
Ao contrário da crença que os curiais tentaram incutir durante a agonia de João Paulo II – midiaticamente exposta ao longo de doze anos – o papa não é um holograma, um ectoplasma, um símbolo. Não, o papa só será simbólico e inspirador se assumir radicalmente a nossa comum condição humana. A tanto, Bento XVI foi impelido por seu corpo e contradisse a tradição de que o papado dura até o momento em que seu titular entra para a eternidade.
A  renúncia de Bento XVI só é considerada grandiosa ou profética porque ocorreu num ambiente enrijecido. Em corporações e instituições políticas modernas, a troca de poder é normal, desejável e esperada. Fazendo uma metáfora, piscar o olho é coisa corriqueira e nada digna de comemorações, a não ser que ocorra num paciente há longo tempo em coma. Essa renúncia mostrou que ainda há vida no doente principal, a Igreja Católica.
Agora se anuncia a boa notícia: o gesto de Bento XVI o coloca no meio de nós. Daqui para a frente, todos os papas terão oficialmente um corpo, serão mortais, como todos os seres vivos. Sê bem vindo à raça humana, Herr Joseph, nós amorosamente te acolhemos.

 daqui

2013-02-22






8Num acesso de ira, e por um instante,
escondi de ti a minha face,
mas Eu tenho por ti um amor eterno.
É o SENHOR teu redentor quem o diz.


Isaías 54,8

leituras



O Absoluto do Ser 

-Deus não é bom?
- Não, para falar com propriedade, Deus não é bom: é. Bom, mau, são pobres palavras que se aplicam a um conjunto de regras respeitantes a alguns pormenores da nossa vida material. Porque é que Deus seria limitado pelas nossas pobres palavras e valores? Não, Deus não é bom. É mais do que isso. É a forma mais rica, mais completa, mais poderosa do ser, de qualquer maneira. Torna concreta a abstracção mesmo da forma do ser. E penso que o «envisagement» do ser não podia ser possível se Deus não lhe tivesse dado anteriormente o seu estado. Deus é a criação. É pois um princípio inextinguível, não orientado, a própria vida. Lembrem-se das palavras: «Eu sou Aquele que sou». Nenhuma outra palavra humana compreendeu e relatou melhor a forma divina. Intemporal, não, nem sequer intemporal e infinita. O princípio. O facto de que há qualquer coisa no lugar onde não havia nada.
- Mas então, Deus não tem necessidade...
- E até mesmo para lá de toda a expressão. Se quiser, eu sou Deus. Não há dúvida a sustentar, pergunta a fazer. Você existe. Portanto é Deus. Você não pode existir de outro modo. Se você não fosse Deus, não existiria.
- Um panteísmo, de certa maneira?
- Não, porque não se trata de louvar Deus em todas as coisas. Deus é exterior, e se eu lhe dizia que você é Deus, que eu sou Deus, não era para lhe dar a ideia que, segundo eu, Deus é uma espécie de corpo no interior do qual nós vivemos. Não, eu queria apenas insinuar uma espécie de analogia entre as duas palavras da frase, agir no ser determinando-o, por Deus. Sendo o Ser de certa maneira uma dimensão própria, tão relativa mas tão real como o tempo e o espaço. E Deus sendo o absoluto desta dimensão, como o infinito é o absoluto do espaço, e o eterno o absoluto do tempo. De facto, o absoluto do Ser é também o absoluto do espaço e o absoluto do tempo. Eis porque Deus é neste ponto inimaginável para os pobres espíritos dos homens.

J.-M. G. Le Clézio, in 'A Febre'

2013-02-20

Chico Buarque - Construção



A crítica não é bem vista em lado nenhum (ah, pois, nos enunciados) e, na Igreja, muito menos. Mas deviam existir muito mais vozes como esta. Masculinas e femininas:



Um bom começo será dar uma boa varredela nos poderes mais ou menos ocultos da Cúria Romana e das estruturas do Estado da Santa Sé, que tendem a monopolizar a estrutura eclesial tornando-a apenas eclesiástica e burocrática. Um poder, eufemisticamente chamado serviço, exclusivamente masculino, constituído por idosos celibatários que vivem, quais peixinhos no aquário de águas cálidas, bem longe dos problemas quotidianos das famílias e que têm a ousadia de dizer de cátedra como se deve viver, que Bispos se devem nomear, que Papa se pode escolher entre o restrito número de Cardeais, sendo que que o mais das vezes são oriundos do tal aquário mesmo se a pele for de outra cor menos predominante…

2013-02-19

e se o papa fosse uma mulher? (e dispensa-se qualquer argumentação dos puristas)



Diante dos fatos e das circunstâncias, é fundamental refletir sobre a estrutura da Igreja tendo por base as primeiras comunidades cristãs. A propósito, o título deste texto traz uma provocação estrutural. Creio não ser possível pensar a função do Papa desvinculada da estrutura da Igreja e do contexto de modernidade avançada em que nos encontramos, com seus múltiplos desafios. O Papa é um elemento constituinte da conjuntura da Igreja, mas, ao mesmo tempo, com poder para fomentar a manutenção ou a alteração de bases estruturantes da própria Igreja.
Na atual estrutura eclesial parece inconcebível, por exemplo, imaginar a possibilidade de termos no comando geral da Igreja uma mulher. Não se trata de discutir o desejo, as condições ou a capacidade de alguma mulher no mundo ser Papa, ou, no caso, Papisa. O fato seria inédito, a não ser que a Igreja admitisse como realidade e não como lenda a existência da Papisa Joana da Idade Média. Então, ao sair fumaça branca na chaminé do Vaticano, a Igreja poderia proclamar de maneira amplamente inovadora: Habemus Papisa.
O que pode parecer algo totalmente fora de cogitação ou em pleno desacordo com a doutrina, não seria, contudo, um absurdo ou uma aberração. Não mesmo, ainda mais em se pensando na quantidade de mulheres que fazem a Igreja acontecer na prática. Não seria absurdo também se considerássemos a necessidade da Igreja, enquanto instituição histórica, caminhar no compasso do mundo moderno, que garantiu às mulheres direitos políticos, sociais, económicos, culturais.... Que lhes possibilitou não só o direito de votar, mas também de serem eleitas para os mais altos postos, inclusive da Presidência de Estado.
Não soaria absurdo que uma mulher fosse Papisa, como não o seria que outras mulheres tivessem o direito a ser cardeais, bispas, sacerdotisas, diaconisas... Não seria absurdo que a Igreja fosse mais democrática em todas as suas instâncias e possibilitasse direitos iguais entre homens e mulheres. Direitos não só de presença e de coordenação de alguma pastoral, mas de decisão e ocupação das mais diversas funções na hierarquia. Do mesmo modo, a muitos já não parece absurda a superação do celibato obrigatório e a recondução de padres casados a funções ministeriais para animar a vida das comunidades e dos diferentes serviços pastorais.
Não seria absurdo igualmente que os papas e, eventualmente, as papisas fossem eleitos por um período não superior a dez anos, como exemplificou ser possível o próprio Bento XVI. Se a um bispo, que lhe cabe uma responsabilidade infinitamente menor que a de um Papa, é exigido que entregue a função de titular de sua diocese aos 75 anos, porque não aplicar o mesmo princípio ao Papa? Essa contradição exige, logicamente, que os papas ou papisas eleitos sejam mais jovens. E isso não soaria nada absurdo, já que o somatório de idade traz consigo uma série de limites humanos.
Ainda não seria absurdo imaginar que os futuros papas ou papisas fossem escolhidos em forma de rodízio, contemplando cada vez um continente ou região do mundo católico. Ter-se-ia, assim, uma real expressão de colegialidade, democracia e dinamismo na Igreja. Se, em tese, todos os cardeais têm o mesmo poder de representação, tal ideia não incorre em absurdo e inconveniente. Afinal de contas, a democracia e a representatividade não é um valor de menor importância para a sociedade e para as nações em geral. Por que haveria de sê-lo para a Igreja de Cristo?
Enfim, não se constitui em absurdo que a Igreja dê um ou vários passos adiante, sem, contudo, desviar-se de sua mais nobre missão que é contribuir na construção do Reino de Deus. A opção preferencial pelos pobres, a espiritualidade profético-libertadora, a promoção da dignidade e da fraternidade humana, o fortalecimento da justiça, da paz e da igualdade e o cuidado com a Mãe Terra estão em perfeita sintonia com os vários desafios estruturais que a Igreja tem à sua frente. Se, um dia, uma mulher chegar a ser Papisa, quiçá tenhamos enfrentado também outros importantes desafios. Avançar nessa direção: eis a grande questão...

daqui

2013-02-18





RES COGITANS

Penso, logo minto.
No que vejo, incerto,
reside o infinito,
pesadelo sem objecto.

E se afino o tacto,
mesmo sem afinco,
o real me escapa,
paródia de labirinto.

Atónito entre nomes
e números, imagens
que me consomem,

sei que esta margem,
sua textura informa,
traduz outra paisagem.



Reynaldo Damazio





e eu vou pensar devagarinho nisso tudo


«O que eu pretendo que os outros pensem de mim» constitui uma estrutura mental difícil (até impossível) de satisfazer. Por dois motivos: primeiro, porque esse outro é plural; segundo, porque essa estrutura não é racional. Muitos tentam livrar-se dela rumando a desertos físicos ou a metafísicos ermos. O problema reside no facto de não conseguirem abandonar o outro enquanto renovada medida que lhes faz sombra – ou de insistirem em imaginá-lo enquanto invisível presença que lhes traz luz.


José Ferreira Borges, aqui

2013-02-17

assim vai a Igreja





Por estes dias, em que a Igreja anda nas "bocas do mundo" por causa do papal gesto de renúncia, de forma mais recatada decorre o proclamado "Ano da Fé" e, na sequência do mesmo, uma visita pastoral na diocese de Lisboa.
Por esse motivo, fui, com os meus colegas, surpreendida no local de trabalho, por uma comitiva composta por um bispo, padre, órgãos autárquicos etc.
Suponho que os restantes eventos da visita pela diocese sejam similares a este que presenciei, mais umas celebrações de missas, lanches de convívio e ponto final.
Se recuar cinquenta anos atrás - sou boa em lembranças e recordações - uma visita pastoral do séc. XXI é decalcada das que aconteciam por essa altura.

Não faço ideia de quais serão os objectivos de base para programar, assim, as tais visitas pastorais. Se é para aproximarem as pessoas de cada comunidade, do bispo, tenho sérias dúvidas que tal aconteça. 


# a imagem retirei da net e é da diocese de Castelo Branco, mas a que refiro no texto foi similar.



Ilumina-se a Igreja por Dentro da Chuva  

Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...

Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro ...

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...

Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro...

A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...

E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa ...


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

2013-02-14

o que sentimos e calamos



- Avó, vem comigo, porque lá dentro é assustador. - "Lá dentro" era o quarto onde queria procurar um brinquedo. Sorri com o "assustador" que ainda não lhe tinha ouvido.
Enquanto ligava o candeeiro e procurávamos o brinquedo, pensava em como a idade nos inibe de exprimir os sentimentos que consideramos "malditos", ou achamos que nos fragilizam perante os outros e até nós mesmos.








A quem?
 
 
Eu amava as árvores, a rua deserta em que descansava
o sol da tarde, o frio que arrefecia o meu corpo.
À janela da casa olhava lá para fora. Nenhuma
paixão pelo que é humano perturbava,
durante esse instante de silêncio, a paz
do meu espírito. Flores amarelas na erva
que crescia entre a estrada e a residência. De uma
árvore caíam, lânguidos, os ramos e no seu
verde brilhavam espigas vermelhas. Era sábado,
talvez. A poesia era-me inacessível. As palavras
pesavam no papel e no espírito como erros de cálculo,
como um excesso e prova, inesperadamente,
do desajuste. A quem dirigir uma súplica ou uma carta
em que, não falando de amor, se revelaria o maior amor? 
A quem? Incapaz de responder e de me atormentar,
eu deixava passar os minutos. Depois levantava-me
da cadeira em que estivera sentado e ia àquilo
a que eu chamava a minha vida, o meu destino.



João Camilo
nunca mais se apagam as imagens
Longe de Casa
Fenda
1996
 
 
 

na verdade



[...] também em nossos dias, muitos estão prontos a “rasgar as vestes” diante de escândalos e injustiças – naturalmente cometidos por outros -, mas poucos parecem disponíveis a agir sobre o próprio “coração”, sobre a própria consciência e sobre as próprias intenções, deixando que o Senhor transforme, renove e converta.



Bento XVI, homilia na Missa de Quarta-Feira Cinza, daqui


2013-02-13

imagens do dia



imagens ANSA

as coisas não são exactamente como as queremos ver



Para quem teima em ver, na forma como o papado é exercido, o serviço ao Evangelho e uma liderança espiritual, vá pondo os olhos nestas notícias.

Eu revejo-me no sonho de D. Helder da Câmara, bom, bom era que o Papa tivesse enlouquecido e pegasse fogo ao Vaticano, porque esta renúncia, apesar de quase inédita -pelo menos nos últimos séculos - não me convence grande coisa.


a conversão necessária



Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes,
convertei-vos ao SENHOR, vosso Deus,
porque Ele é clemente e compassivo,
paciente e rico em misericórdia.



Joel 2,13

 

2013-02-12

será que se pode contar com este espírito no próximo conclave?



Devemos discernir com inteligência o que atualmente melhor serve a mensagem cristã  no contexto de uma crise social e ecológica de gravíssimas consequências. O problema central não é a Igreja mas o  futuro da Mãe Terra, da vida e da nossa civilização. Como a Igreja ajuda nessa travessia? Só  dialogando e somando forças com todos.

L. Boff, aqui


 

sobre a renúncia do Papa, o que me ocorre dizer



Não vou negar a surpresa que a notícia da renúncia do Papa Bento XVI me causou. Com os meios de informação que a actualidade nos oferece, fui seguindo algumas reacções publicadas.
Nos mais conservadores e seguidistas, surgiram laivos de orfandade, desalento e, até, acusações de falta de fé - confiança em Deus - por, à semelhança do antecessor, não continuar, apesar da idade e das doenças que lhe são inerentes. Nas partilhas institucionais, sobretudo da Igreja em Portugal, foi uma torrente de manifestações de louvor que, aplicadas à pessoa do Papa, parecem querer ignorar a forma como o papado é exercido. Isto é,  muito pouco transparente e, como afirmou o teólogo Hans Kung, de governo absolutista. Isto tudo leva-me a afirmar que não sei, nem posso saber, não podemos saber, o quanto significa a renúncia do Papa como decisão pessoal.

Neste acto de renúncia e futura eleição, como leiga católica, vejo uma transição de poder. Sem mais. E no entanto, até pelas reacções que fui verificando, até entre inúmeros "não crentes", este é um momento de enorme responsabilidade para a Igreja Católica. Este meu sentir é também expresso pelo teólogo espanhol José Maria Castillo:







2013-02-10

porque hoje é domingo




No ano em que morreu Ozias, rei de Judá,
vi o Senhor, sentado num trono alto e sublime;
a fímbria do seu manto enchia o templo.
À sua volta estavam serafins de pé,
que tinham seis asas cada um
e clamavam alternadamente, dizendo:
«Santo, santo, santo é o Senhor do Universo.
A sua glória enche toda a terra!»
Com estes brados as portas oscilavam nos seus gonzos
e o templo enchia-se de fumo.
Então exclamei:
«Ai de mim, que estou perdido,
porque sou um homem de lábios impuros,
moro no meio de um povo de lábios impuros
e os meus olhos viram o Rei, Senhor do Universo».
Um dos serafins voou ao meu encontro,
tendo na mão um carvão ardente
que tirara do altar com uma tenaz.
Tocou-me com ele na boca e disse-me:
«Isto tocou os teus lábios:
desapareceu o teu pecado, foi perdoada a tua culpa».
Ouvi então a voz do Senhor, que dizia:
«Quem enviarei? Quem irá por nós?»
Eu respondi:
«Eis-me aqui: podeis enviar-me».


do livro de Isaías


Deus chama a todos, sempre. Responder a esse chamamento - que não é exterior a nós mesmos - implica renúncia. Renúncia, antes de mais, à margem de segurança que teimamos em manter, porque o sublime é também o lugar do "abismo profundo" [Teilhard de Chardin].

2013-02-08

porque os tempos não são de falinhas mansas



A UM PAPA


Poucos dias antes de morreres, a morte
pousou os olhos em alguém da tua idade:
aos vinte anos, tu estudavas, ele era pedreiro,
tu, nobre, rico, ele, um rapazote plebeu:
mas os mesmos dias douraram sobre vós
a velha Roma, voltando a dar-lhe a sua juventude.
Vi os seus despojos, pobre Zucchetto.
Andava de noite, bêbado, à volta dos Mercados,
e um eléctrico que vinha de San Paolo atropelou-o
e arrastou-o por uns metros de carris no meio dos plátanos:
durante umas horas ficou ali, sob o rodado:
poucas pessoas se juntaram em redor, olhando-o,
em silêncio: já era tarde, havia pouca gente.
Um dos homens que existem para que tu existas,
um velho polícia, desbocado como todos os patifes,
gritava aos que se aproximavam mais: «Larguem-lhe os colhões!»
Depois veio uma ambulância buscá-lo:
as pessoas desapareceram, só ficaram uns grupos aqui e acolá,
e, mais à frente, a dona de um cabaré,
que o conhecia, disse a um recém-chegado
que Zucchetto tinha ficado debaixo de um eléctrico, que estava morto.
Poucos dias depois, morrias tu: Zucchetto era um
dos do teu grande rebanho romano e humano,
um pobre bêbado, sem família nem leito,
que andava de noite, vivendo ao deus-dará.
Tu ignoravas: como ignoravas
outros milhares e milhares de cristos como ele.
Talvez seja cruel ao perguntar por que razão
a gente como Zucchetto é indigna do teu amor.
Há lugares infames, onde mães e filhos
vivem na poeira antiga, na lama de outras eras.
Não muito longe de onde tu viveste,
à vista da bela cúpula de San Pietro,
fica um desses lugares, o Gelsomino...
Um monte cortado ao meio por uma pedreira, e no sopé,
entre um charco e uma fieira de prédios novos,
um montão de tugúrios miseráveis, não casas mas pocilgas.
Bastava um gesto teu, uma palavra,
para esses teus filhos terem uma casa:
nunca fizeste um gesto, nunca disseste uma palavra.
Ninguém te pedia que perdoasses Marx! Uma vaga
imensa que irrompe sobre milénios de vida
te separava dele, da sua religião:
mas não se fala, na tua religião, de piedade?
Milhares de homens sob o teu pontificado,
diante dos teus olhos, viveram em estábulos e pocilgas.
Tu sabias que pecar não é fazer o mal:
não fazer o bem, isso sim, é que é pecar.
Quanto bem podias tu ter feito! E não fizeste:
não houve quem mais pecasse do que tu.



poemaspier paolo pasolini
trad. maria jorge vilar de figueiredo
assírio & alvim
2005


roubado daqui

2013-02-06

delicadamente




devo confessar o meu espanto, causado por tamanha sensibilidade.



* a foto é de Man Ray

anseio



E quando se habita nessa morada da nudez interior e material, os diálogos passam a ser reais e sem subterfúgios… aí, mesmo aquilo que existe de pior em nós já não tem lugar onde se esconder...!

2013-02-04

viver


"'Onde', pensou Raskólnikov, continuando o seu caminho, 'onde é que eu li aquilo sobre um condenado à morte que no momento de morrer dizia ou pensava que se o deixassem viver no alto, numa rocha e num espaço tão reduzido que mal tivesse onde pousar os pés - e se à volta não houvesse mais que o abismo, o mar, trevas eternas, a eterna solidão e a tempestade perene - e tivesse de ficar assim, nesse espaço de um archin, a sua vida toda, mil anos, a eternidade... preferiria viver assim a morrer imediatamente? O que interessa é viver, viver, viver! Viver, seja como for, mas viver! O homem é covarde!', acrescentou passado um minuto."

F. Dostoievski in "Crime e Castigo" 

 

2013-02-03

não parece, é!



É do presente plural, aberto ao futuro, que importa experimentar e falar. O que não se pode é persistir em opções que desconvocam, logo à partida, a maioria dos cristãos, as mulheres.
Esta persistência da hierarquia católica em não contar com elas para conceber, projectar, orientar e realizar a missão da Igreja no mundo contemporâneo, é considerada altamente negativa, em alguns ambientes eclesiais, embora noutros, essa situação ainda se possa apresentar como absolutamente normal, pois “sempre foi assim”.
Este último argumento só pode ser usado por quem não vê o papel activo das mulheres em todos os sectores das sociedades ocidentais. Portugal não é excepção. Não procurar alterar o funcionamento da Igreja, tendo em conta esta tendência irreversível, parece cegueira, fuga aos sinais dos tempos, tantas vezes evocados em vão. 
 
Bento Domingues, retirado daqui

como música




Chamar a Si Todo o Céu com um Sorriso  

que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso

E. E. Cummings, in "livrodepoemas"

2013-02-02

da ingenuidade à responsabilidade pelo mal



Há uma infinidade de frases - sobre a bondade - ingénuas, que podem ferir de morte qualquer vida, e a vida de uma comunidade humana. Não é que os textos bíblicos não avisem à saciedade que o lobo convive com o cordeiro e trigo e joio têm de crescer juntos.

Esta manhã, ao consultar o site de um semanário, deparei-me com a notícia de mais um caso de um padre suspeito de abusos de menores. Em Portugal e, mais concretamente, na minha Diocese e, dor ainda mais aguda, aparecia a denominação geográfica do Oeste. Bastou com mais um pouco de informação, e a consulta ao site do Patriarcado de Lisboa, para se confirmarem as minhas suspeitas. O padre suspeito é do meu conhecimento. Sublinho que nunca fui paroquiana dele, nem privei com muita proximidade.

Mas não é a minha mágoa, com mais esta nefasta notícia, que  interessa para alguma coisa. Consegui em poucos minutos fazer a ligação da notícia ao "padre X", porque quando ele "abandonou" uma das paróquias do Oeste, ficaram a pairar "no ar" uns rumores. Ora, eu não acredito, mas de modo algum, que D. José Policarpo - que tem casa de família, aqui mesmo onde vivo, localidade próxima  onde estes "rumores" surgiram -, não tivesse conhecimento do caso. E sendo o bispo da Diocese. E única medida que tomou, à semelhança de todos os outros casos conhecidos, foi transferir o padre para uma paróquia de Lisboa, e nos últimos anos, para a Diocese do Algarve. Mas isto, não tem que ter consequências na Igreja? Até quando se pretende manter a ingenuidade de que o mal está todo "fora" da Igreja?

2013-02-01



Hás-de ensinar-me o caminho da vida,
saciar-me de alegria na tua presença,
e de delícias eternas, à tua direita.


(Salmo 16,11)


paciência com Deus



Concordo com os ateus em muitas coisas, muitas vezes em quase tudo… exceto no que diz respeito à sua não crença de que Deus existe. Perante o bulício mercantil de artigos religiosos de todo o género, eu, com a minha fé cristã, por vezes, sinto-me mais próximo dos céticos, dos ateus, dos agnósticos, críticos da religião. Com certo tipo de ateus partilho um sentimento de ausência de Deus no mundo. Contudo, considero a sua interpretação de tal sentimento demasiado precipitada, como que uma expressão de impaciência.
...
Há poucas coisas que apontem para Deus e apelem tão instantemente a Deus como a experiência da sua ausência. Essa experiência é capaz de levar alguns a «acusar Deus» e, eventualmente, a rejeitar a fé. No entanto, existem muitas outras interpretações dessa ausência, de modo particular na tradição mística, e outras formas de reconciliação com ela. Sem a dolorosa experiência de um «mundo sem Deus», é difícil para nós apreender o sentido da busca religiosa, bem como de tudo o que queremos dizer acerca da «paciência com Deus» e dos seus três aspetos: fé, esperança e amor.
...
Estou convencido de que uma fé madura deve incorporar essas experiências, a que alguns chamam «a morte de Deus» ou – de forma menos dramática – o silêncio de Deus, embora seja necessário sujeitar essas experiências a uma reflexão interior, além de se lhes submeter e de as ultrapassar com sinceridade e não de uma forma superficial ou fácil. Não pretendo dizer aos ateus que eles estão errados, mas que têm falta de paciência.
...
Se a nossa relação com Deus se baseasse apenas na convicção de que Ele existe, que pode ser adquirida de forma indolor através de uma avaliação emocional da harmonia do mundo ou de um cálculo racional de uma cadeia universal de causas e efeitos, não corresponderia àquilo que eu tenho em mente quando falo de fé.