2013-02-23

este texto não esgota a temática, mas é um bom contributo



... “para governar a barca de são Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor tanto do corpo como do espírito, vigor que, nos últimos meses, diminuiu em mim de tal forma que hei de reconhecer minha incapacidade para exercer bem o ministério que me foi encomendado”.

Essa é, decerto, uma das mais revolucionárias declarações deste início de século. Ao anunciar sua renúncia, o papa Bento XVI manifestou uma constatação que, de tão óbvia, tomou de surpresa a tantas pessoas (dentre as quais não me incluo) pelo mundo afora. Que constatação é essa? Que, como todos os seres vivos, também ele tem/é um corpo. Tal como você, eu, tal como Jesus. A corporeidade é nosso inarredável ponto de partida, que nos torna sensíveis, relacionais e históricos.
Constatar isso talvez tenha sido árduo para o cardeal Ratzinger, que passou boa parte de sua vida religiosa e pontificado olhando para a corporeidade alheia, em geral nela apontando o que considera mazelas e desvios. Enquanto isso, instalou-se num mundo platônico, em que manejava com maestria ideias e doutrinas distantes dos dilemas mais prementes dos companheiros e companheiras de humanidade.
Eis que – à semelhança de casais homossexuais, usuários de camisinha e de anticoncepcionais, perpetradores e vítimas de pedofilia, sacerdotes doidos para casar (ou padres casados ansiosos para voltar ao serviço sacerdotal), freiras que o povo quer ver celebrando missa e sacramentos, assim como jovens mergulhados em aluvião hormonal – de repente o papa exclama: “Olhem, tenho um corpo!”. E pede: “Estou com idade avançada. É difícil compreender isso?”
Aqui surge um segundo componente da corporeidade, que introduz carne e sangue no asséptico silogismo aristotélico “Todos os homens são mortais, eu sou um homem, deinde sou mortal”. Velhice, dor e doença são sinal da finitude que, por sinal, deslanchou a conversão do príncipe Sidarta. Mesmo que os teólogos elaboradores de dogmas insistam em que papas são infalíveis (ok, em matéria de fé), quando as articulações doem, a próstata incha e dificulta a reles ação de urinar, o coração exige uma ajuda tecnológica e periódica troca de pilha e quando isso tudo desemboca em enorme cansaço, só aí é que se vê que papas, como o atual, são falíveis no nível mais fundamental.
Ao contrário da crença que os curiais tentaram incutir durante a agonia de João Paulo II – midiaticamente exposta ao longo de doze anos – o papa não é um holograma, um ectoplasma, um símbolo. Não, o papa só será simbólico e inspirador se assumir radicalmente a nossa comum condição humana. A tanto, Bento XVI foi impelido por seu corpo e contradisse a tradição de que o papado dura até o momento em que seu titular entra para a eternidade.
A  renúncia de Bento XVI só é considerada grandiosa ou profética porque ocorreu num ambiente enrijecido. Em corporações e instituições políticas modernas, a troca de poder é normal, desejável e esperada. Fazendo uma metáfora, piscar o olho é coisa corriqueira e nada digna de comemorações, a não ser que ocorra num paciente há longo tempo em coma. Essa renúncia mostrou que ainda há vida no doente principal, a Igreja Católica.
Agora se anuncia a boa notícia: o gesto de Bento XVI o coloca no meio de nós. Daqui para a frente, todos os papas terão oficialmente um corpo, serão mortais, como todos os seres vivos. Sê bem vindo à raça humana, Herr Joseph, nós amorosamente te acolhemos.

 daqui

5 comentários:

  1. Mentir é pecado, viu, Sr. Papa? Agora só falta deixar os padres casarem e terem filhos. Vai cair o número de pervertidos sexuais na igreja. Vocês já estão perdendo os fiéis. Demorou...

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  2. "Daqui para a frente, todos os papas terão oficialmente um corpo, serão mortais, como todos os seres vivos"

    Quem seriam os ingenuos que ate aqui acreditavam no contrario?

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  3. simplesmente anónimo,

    ao seu comentário bem se aplica a máxima: tanta inteligência até faz dor de cabeça.

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  4. Mas que tontice.

    Nao seja tonta, as tontices dao dor de cabeça.

    Qual foi o papa que renunciou por idade, ou por incapacidade? Muitos deles em fim de vida foram meros fantoches. Quem governava eram outros, mas a figura era essencial, tal como nas ditaduras. Os ditadores mesmo incapacitados governam sempre ate o nosso velhinho “Botas”.

    O que a mim me “gusta”, o argumento da velhice como meio de afastamento, pode ser mas nao acredito. E claro o papa nao iria usar o verdadeiro, matematico. A historia ainda esta por fazer e tal como o seu antecessor de ha mais ou menos 600 anos que praticou tal acto, sendo depois substituido pelos contestarios, um dia sera feita a historia. Era muito mau um papa dizer que saia porque as pressoes daqui ou dali eram insuportaveis e ja nao tinha capacidade. Mas entao ja se percebe melhor o pedido para que rezem por ele e pela igreja, a hipocrisia de que ele fala na igreja, e talvez ate o papel do mordomo recentemente condenado e por ele perdoado seja mais compreensivel quando ele falava nos inimigos do papa.

    Fale-me da “espuma” que eu gosto.

    “Mesmo que os teólogos elaboradores de dogmas insistam em que papas são infalíveis (ok, em matéria de fé), quando as articulações doem, a próstata incha e dificulta a reles ação de urinar, o coração exige uma ajuda tecnológica e periódica troca de pilha e quando isso tudo desemboca em enorme cansaço, só aí é que se vê que papas, como o atual, são falíveis no nível mais fundamental.”

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  5. o erro, nesta temática, é atribuir um significado único ao acto da renúncia. Suponhamos que o motivo sejam as tais pressões (não digo que não existam) nos próximos exercícios do papado, todas as motivações que agora se discutem, e mais outras, entrarão como ponderáveis.

    Depois, o texto que trouxe para aqui agradou-me porque a doutrina da Igreja é demasiado avessa ao corpo e a tudo o que a ele está ligado. Muito influenciados pelos escritos paulinos, e ele, pelos platonistas, o corpo é sempre um bem descartável em função de um bem superior: a alma, o espírito. Assumirmos o nosso corpo e as contingências a ele ligadas e sabermos que não somos corpo+alma, antes corpo e alma. Melhor: pessoa.

    Isto parece coisa de ingénuos, como lhe chamou, mas leva séculos de doutrinação.

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