2013-03-31

a vida que somos





Para a maior parte de nós, o bem que mais preservamos é a vida. E olhamos para a morte como o acontecimento que se lhe opõe. Não é inevitável que assim aconteça. Podemos olhar a morte e a vida noutra perspectiva:

A nossa identidade última não é um "eu" que tem vida. Não, somos vida que se expressa transitoriamente, na forma concreta de um "eu". Cada um de nós pode dizer: eu sou vida. Sabendo que o sujeito (eu) dessa frase não é o indivíduo particular, antes o "EU SOU" universal da única vida que se expressa em infinitas formas.

Mas para chegarmos a esta compreensão da vida teremos de mudar alguns esquemas de pensamento a que estamos habituados, onde nos sentimos confortáveis, mas nem por isso satisfeitos:

Realmente, só podemos saber o que é a Vida quando a somos de modo consciente...É então, ao sê-lo, que experimentamos que somos vida. E que há uma única Vida que vive em nós. 



ler o texto completo aqui 




2013-03-30



A todas e a todos, votos de Feliz Páscoa!

 


No primeiro dia da semana,
Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro
e viu a pedra retirada do sepulcro.
Correu então e foi ter com Simão Pedro
e com o discípulo predilecto de Jesus
e disse-lhes:
«Levaram o Senhor do sepulcro
e não sabemos onde O puseram».
Pedro partiu com o outro discípulo
e foram ambos ao sepulcro.
Corriam os dois juntos,
mas o outro discípulo antecipou-se,
correndo mais depressa do que Pedro,
e chegou primeiro ao sepulcro.
Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou.
Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira.
Entrou no sepulcro
e viu as ligaduras no chão
e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus,
não com as ligaduras, mas enrolado à parte.
Entrou também o outro discípulo
que chegara primeiro ao sepulcro:
viu e acreditou.
Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura,
segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

Jo 20,1-9 





PAUSA

Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas –
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.

A alegria que ontem foi angústia,
tempestade –
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.



Antonia Pozzi, in "Morte de uma estação" averno, 2012
trad. Inês Dias

2013-03-29

(Ecce-Homo by Giovanni Baglione)




46*Cerca das três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte: Eli, Eli, lemá sabactháni?, isto é: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?

Mt 27,46 



2013-03-28



Cefaleias e noites mal dormidas, levaram o prefeito romano a condenar Jesus à crucificação. Quem nunca sofreu destes males, atire a primeira pedra.


conferir aqui


Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo. 2*O diabo já tinha metido no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, a decisão de o entregar.3*Enquanto celebravam a ceia, Jesus, sabendo perfeitamente que o Pai tudo lhe pusera nas mãos, e que saíra de Deus e para Deus voltava, 4*levantou-se da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura. 5Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que atara à cintura. 6Chegou, pois, a Simão Pedro. Este disse-lhe: «Senhor, Tu é que me lavas os pés?» 7Jesus respondeu-lhe: «O que Eu estou a fazer tu não o entendes por agora, mas hás-de compreendê-lo depois.» 8Disse-lhe Pedro: «Não! Tu nunca me hás-de lavar os pés!» Replicou-lhe Jesus: «Se Eu não te lavar, nada terás a haver comigo.» 9Disse-lhe, então, Simão Pedro: «Ó Senhor! Não só os pés, mas também as mãos e a cabeça!» 10*Respondeu-lhe Jesus: «Quem tomou banho não precisa de lavar senão os pés, pois está todo limpo. E vós estais limpos, mas não todos.» 11Ele bem sabia quem o ia entregar; por isso é que lhe disse: 'Nem todos estais limpos'. 12Depois de lhes ter lavado os pés e de ter posto o manto, voltou a sentar-se à mesa e disse-lhes: 13«Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me 'o Mestre' e 'o Senhor', e dizeis bem, porque o sou. 14Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. 15Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também.

Jo 13,1-15


 

2013-03-26

Torquato da Luz 1943 - 2013



morreu o poeta Torquato da Luz. do seu blogue "ofício diário", retirei o poema:

PRESENÇA
 
Já não estás onde estavas, já não estás
onde sempre te vi.
Mas, olhando o lugar, sinto-te aí
e recupero a paz.
 
O que conta não é o que se sabe,
tão-pouco o  que se vê.
O que conta é aquilo que não cabe
dentro dos olhos, mas se crê.
 
 
 

2013-03-24

e




O Reino do Céu é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem encontra. Volta a escondê-lo e, cheio de alegria, vai, vende tudo o que possui e compra o campo.[Mt 13,44]



2013-03-22

lembram-se?




Grassa por aí o escândalo, por o papa Francisco dizer que quer uma Igreja pobre para os pobres. Não vejo qual é o espanto. Nunca vi governante que dissesse que ia tratar de que os ricos se governassem. Não é que as coisas não acabem por se passar assim, mas não é assim que se ganham eleições.
Na Igreja, quase dois mil anos de história e tradição, fazem esquecer - demasiadas vezes - a pessoa que a fundamenta e é razão de existência: Jesus. A opção pelos pobres, não é uma mania dos "Franciscos", é um mandato evangélico.


2013-03-19

não ter medo



Queria pedir, por favor, a quantos ocupam cargos de responsabilidade em âmbito económico, político ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: sejamos «guardiões» da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do ambiente; não deixemos que sinais de destruição e morte acompanhem o caminho deste nosso mundo! Mas, para «guardar», devemos também cuidar de nós mesmos. Lembremo-nos de que o ódio, a inveja, o orgulho sujam a vida; então guardar quer dizer vigiar sobre os nossos sentimentos, o nosso coração, porque é dele que saem as boas intenções e as más: aquelas que edificam e as que destroem. Não devemos ter medo da bondade, ou mesmo da ternura.




Francisco  - Homilia na missa de início do ministério petrino do bispo de Roma

2013-03-17

porque hoje é domingo



Assim poderei conhecer Cristo,
o poder da sua ressurreição
e a participação nos seus sofrimentos,
configurando-me à sua morte,
para ver se posso chegar à ressurreição dos mortos.
Não que eu tenha já chegado à meta,
ou já tenha atingido a perfeição.
Mas continuo a correr, para ver se a alcanço,
uma vez que também fui alcançado por Cristo Jesus.



da carta aos Filipenses, 3 



2013-03-16

a igreja e a consciência



Em tema tão delicado e central, a Igreja, com sua complexidade, vive tensões internas. Constata-se a retomada de modelos autoritários recheados de pessimismo que, apoiados em certa ideia de consciência, quer a todo custo coadunar discurso condenatório com a boa notícia do Evangelho. São tentativas reais de controle das consciências através do “policiamento ostensivo” do pensamento e dos comportamentos cotidianos do fiel. Pretensos representantes de uma visão de Igreja tridentina, reforçada por certa interpretação do Concílio Vaticano I, manipulam textos bíblicos, instrumentalizam o Direito Canônico, dogmatizam o Catecismo e servem-se das declarações da hierarquia. A obsessão denunciante e intransigente os torna coadores de mosquitos que engolem camelos (Mt 23,24). Intolerantes, pervertem o sacramento da Penitência para atemorizar o fiel com uso indiscriminado da ideia de pecado. Por entender a consciência como órgão de ressonância das normas institucionais pregam a submissão rigorosa à autoridade. Uma moral de absolutos, do tudo ou nada, sem matizações, cujo único intérprete é a hierarquia, vale por si mesma. Consciências afônicas, cuja voz silenciada cultiva uma vida moral infantilizada e de fiéis amedrontados ante o risco do pecado e intimidados pela ameaça da censura.
 (...)
 A catolicidade da Igreja não significa anulação da singularidade das consciências e da especificidade das tradições culturais. A verdade pode encontrar diferentes expressões históricas. “De fato, tudo o que neles há de bom e verdadeiro, considera-o a Igreja como preparação ao Evangelho e como dom daquele que ilumina todo homem para que afinal tenha a vida” (Lumen gentium, 16). O cristianismo não é uma supermoral aplicável de maneira homogênea a todas as situações e contextos históricos. O Evangelho não oferece soluções acabadas e a Igreja não tem obrigação de dar respostas para todos os problemas. Novos problemas nem sempre combinam com soluções automáticas apoiadas em uma compreensão patriarcal, ocidental e clerical da consciência. Não se aceitam mais posturas cesaropapistas ou da cristandade gregoriana. A obsessão de responder a tudo e a todos deve ser superada por uma busca coletiva, em diálogo com todas as pessoas de boa vontade (cf. Gaudium et spes, 33 e 43). Uma coisa é manifestar reservas a respeito de algumas práticas, outra é pretender impô-las aos demais em uma sociedade que já não compartilha da mesma visão. Quando os princípios são questionados pelas novas situações, já não basta aplicá-los sem mais. A credibilidade da Igreja depende, em grande parte, do reconhecimento da pluralidade, das novas sensibilidades e da diversidade típica do mundo contemporâneo. Não só a religião, mas outros inúmeros fatores influenciam na formação da consciência. As dimensões intelectuais, afetivas e espirituais precisam ser levadas em conta.

texto completo aqui




Dizem que em cada Coisa uma Coisa Oculta Mora  

Dizem que em cada coisa uma coisa oculta mora.
Sim, é ela própria, a coisa sem ser oculta,
Que mora nela.

Mas eu, com consciência e sensações e pensamento,
Serei como uma coisa?
Que há a mais ou a menos em mim?
Seria bom e feliz se eu fosse só o meu corpo -
Mas sou também outra coisa, mais ou menos que só isso.
Que coisa a mais ou a menos é que eu sou?

O vento sopra sem saber.
A planta vive sem saber.
Eu também vivo sem saber, mas sei que vivo.
Mas saberei que vivo, ou só saberei que o sei?
Nasço, vivo, morro por um destino em que não mando,
Sinto, penso, movo-me por uma força exterior a mim.
Então quem sou eu?

Sou, corpo e alma, o exterior de um interior qualquer?
Ou a minha alma é a consciência que a força universal
Tem do meu corpo por dentro, ser diferente dos outros?
No meio de tudo onde estou eu?

Morto o meu corpo,
Desfeito o meu cérebro,
Em coisa abstracta, impessoal, sem forma,
Já não sente o eu que eu tenho,
Já não pensa com o meu cérebro os pensamentos que eu sinto meus,
Já não move pela minha vontade as minhas mãos que eu movo.

Cessarei assim? Não sei.
Se tiver de cessar assim, ter pena de assim cessar,
Não me tomará imortal.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"


 

2013-03-15

conhecer sempre os dois lados (pelo menos)





Lisboa, 2012


tal e qual



Con demasiada frecuencia la religión nos invita a revolver en nuestra propia mierda, sin hacernos ver la posibilidad de lo nuevo, que seguimos teniendo, a pesar de nuestros fallos. Dios es plenitud y nos está siempre atrayendo hacia Él. Esa plenitud hacia la que tendemos, siempre estará más allá. Será como un anhelo que nos dejará sin aliento por lo no conseguido.

daqui 



 

2013-03-14

navega

um presente com vida


Uma pedrinha e outra pedrinha,
Folhas de árvore, várias, de várias formas,
Um troço de madeira, um fruto
Seco a aflorar ao rés da terra.
Coisas. Momentos do mundo
Que é o que surge diante. Nada diz
Mais do que é ou pode ser:
Um pedaço de musgo é a sua cor,

O seu cheiro, a textura quando a mão
Se encontra com ele. Tudo isso
É já o que podia ser. E nada morre,
Nada se consome na possibilidade de não ser
Porque tudo é. A não ser o tempo,
Coisa sem ser coisa, que não é,
Mas persiste dentro e fora
Deste e daquele pormenor, em cada vida.

oferta do Rui Almeida

2013-03-13






cardeal Jorge Bergoglio, a partir de hoje, papa Francisco I, no rito do lava-pés, numa maternidade de Buenos Aires em 2005.



REUTERS/Tony Gomez

2013-03-12

prioridade



Iniciado o conclave, descubro-me sem expectativas, nem ansiedades. Afinal, com Jesus, nem templo, nem sacerdotes, nem ritos. «Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde» (Jo 14,27). Tudo o resto tem de estar ordenado a isto. 



li(n)do


Quando não esperava, entrei-te pelos olhos dentro. Deixei de ser invisível. Senti o corpo quente. Inchei como um balão de feira. Era um deus louco e caprichoso que me soprava para dentro. Achei, pela segunda vez na vida, que podia ser feliz.

aqui

2013-03-11



Não consigo deixar de sentir hoje que uma parte de mim fica de lado observando-me a viver e maravilhando-se. Atirada para a vida sem experiência, ingénua, sinto que algo me salvou.


Anaïs Nin in Henry & June, diário íntimo

2013-03-10

descobrir a alegria




Não é de aceitação simples a imagem de "Deus Amor". Não tem sido, tantas vezes, essa a mensagem dos diferentes grupos religiosos. Nem a vida, nas suas múltiplas circunstâncias, propicia a adesão a esse modo de olhar Deus.
Mas ser difícil, não quer dizer que seja impossível. Há seres humanos que, nas piores circunstâncias, conseguem abrir-se à alegria, que não depende de se estar contente, ou ter uma vida fácil. 
Quando penso em conversão - é nesta adesão à alegria e ao amor - que encontro o significado mais completo. 
Etty Hillesum, uma jovem judia que morreu em Auschwitz, escreveu no seu diário: "A guerra, os campos de concentração (...) tudo isso existe, eu sei, mas, num momento de abandono, encontro-me no peito nu da vida, e os seus braços  circundam-me tão doces e protectores, e as batidas do seu coração que ainda não sei descrever: tão lento e regular e tão doce, quase abafado, nunca tão fiel, como se nunca tivesse que parar, e também tão bom e misericordioso".
Nem todos temos capacidade de amar assim. E de nos sentirmos amados. Ou não ousamos?


2013-03-09

a mulher sem sombra - Strauss

é tão natural ignorar o que somos



Lá dentro, por trás da linha de secretárias, o trabalho não parava. As máquinas de escrever tilitavam, o ruído do calçado andava de um lado para o outro. De vez em quando um telefone tocava; o barulho da campainha invadia toda a superfície do hall, repetindo-se cinco ou sei vezes. Uma mão pegava no telefone e as vozes começavam a fanhosear. No tecto, um ventilador de pás largas cortava o ar em silêncio, dissipando as volutas de fumo dos cigarros. Tudo isto era trabalho; era agitação inútil, imbecil, espécie de comédia triste que se representava no fundo das casamatas. As pessoas viviam ali, amontoadas, presas pelos rumores e pelas pancadas, sem pensarem em nada. Esqueciam os pormenores. Não viam a poeira nem as moscas, não se ocupavam das ligeiras perturbações que vinham lentamente, do mais fundo deles próprios, lembrar-lhes quem eram.



Le Clézio in A Febre

2013-03-07

como árvores





Comecei então a entrever até que ponto cada ser humano - cada pessoa, raios - tem de comum com a árvore e as raízes, o tronco e a copa com ramagens de folhas muitíssimas e tenras, feitas para a captação da luz solar. Raízes mergulhadamente em busca dos sucos primitivos, tanto da humidade como da própria história pessoal (é o mesmo). O corpo tronco prolonga-se ofertando ao Alto umas extremidades ultra-sensíveis, ultra-quebradiças, frágeis, insubstituíveis de maravilhosas.
Com uma diferença. É que enquanto o vegetal tem o seu equilíbrio naturalmente garantido, a pessoa precisa em cada instante de se esforçar por não depender da copa a ponto de deixar estiolar raízes, nem depender destas até não aproveitar a copa. E isto ainda: para dar flor e fruto em cada tempo seu, precisa a pessoa de aceitar a morte cíclica da liturgia Primavera, Verão, Outono, Inverno, Primavera.
Durante alguns momentos fiquei como que suspenso sobre o vácuo. Porque vi o meu próprio ser humano sob a forma de árvore que é. Céus, Terra, o desequilibrismo disso.


Nuno Bragança in Square Tolstoi


2013-03-06

para que a alegria seja completa





Não é todos os dias que se faz cinquenta e quatro anos. Mas hoje faço mesmo. A alegria que sinto ao celebrar este aniversário, tem rostos e laços de afecto. Para que a minha alegria seja completa, sintam-se incluídos: amigos, leitores e passantes ocasionais. 


2013-03-05

Deus criador



Dios es la raíz y sustento del ser, su explicación suficiente y sobrada, el Fundamento Óntico de cuanto existe. La brizna de hierba, el elegante alazán, la polícroma mariposa, los ojos de un niño, el arrepentimiento de un convertido, las lágrimas de una víctima dolorida, la entera salvación cósmica, todo tiene en Dios su razón de ser. Es cuanto podemos decir. Pero que nadie pregunte el cómo de esa relación fontal entre la divinidad y el cosmos porque transformará en burda mitología lo que acostumbramos a nombrar metafóricamente “historia de salvación”.

Juan Luis Herrero del Pozo - "Mi nuevo paradgima teológico"
aqui

2013-03-04



Vi uma miúda que se esforçava por patinar só com um patim. Tomava balanço, depois atirava-se para a frente, os dois braços no ar, e deslizava só num pé. Mas perdia imediatamente o equilíbrio e todas as vezes esteve quase a cair. Caiu mesmo duas ou três vezes. Mas isso não parecia desencorajá-la, e recomeçava sempre, incansavelmente; houve um  momento em que passou muito perto do banco e agarrou-se-lhe para parar. Olhei-a e disse-lhe:
- Não tem medo de cair?
Mas ela não me respondeu. Um minuto mais tarde, como voltasse junto do banco, tornei a fazer-lhe a mesma pergunta. Respondeu-me:
- Precisava de ter os dois patins, assim não cairia.
Perguntei-lhe porque é que não tinha os dois patins. Reflectiu um momento, depois respondeu:
- Foi Ivan. O meu irmãozinho. É ele quem tem o outro patim. Compreende, os patins são dele, por isso só me empresta um. 
Deu uma ou duas voltas, ao pé-coxinho, evitando os transeuntes, depois voltou para junto do banco.
- E mais. Se me emprestasse o patim direito seria fácil. Mas ele só me empresta o patim esquerdo, por isso...
Disse-lhe que não sabia haver direito e esquerdo nos patins com rodas, pensava que eram intermutáveis. 
- Geralmente, são. Mas estes patins são especiais. Está a ver - disse ela mostrando-me o pé - como vê, tem uma espécie de bota. Em geral só têm correias. Mas nestes patins há uma espécie de bota para pôr o pé; são especiais, é para que não nos aleijem.
Eu disse que era uma parvoíce que não se pudesse pôr o patim esquerdo no pé direito, e que devia ser muito difícil manter-se assim na perna esquerda, excepto, claro para os canhotos. Ela olhou para mim com um ar um pouco condoído e explicou-me:
- Canhotos, isso é nas mãos, nos pés não é conhecido.
Por mais que eu tentasse dizer-lhe que havia pessoas que eram canhotas tanto nos pés como nas mãos, não quis acreditar-me. Disse-me que era idiota, completamente idiota. Contentei-me então em repetir que devia ser muito complicado patinar com o pé esquerdo. Ela gritou-me:
- É uma questão de hábito.
E recomeçou a correr. Desta vez foi para muito longe,  e um grupo ocultou-ma. Esperei um momento que ela aparecesse, porque queria pedir-lhe que me emprestasse o patim para dar uma volta; mas ela não voltou, e, como começava a sentir frio novamente, parti também.

Jean-Maria Gustave Le Clézio in "Febre - Parece-me que o barco se dirige para a ilha"

2013-03-03

e fomos


Lisboa, Av. Liberdade - 2 de Março 2013

salvação



El éxodo es la experiencia central de todo el AT. Dios salva a su pueblo y en esa salvación, el pueblo se reconoce como elegido por Dios. Fíjate bien, Dios responde a las quejas del pueblo. No es un Dios impasible trascendente que le importa muy poco la suerte de los seres humanos. Es un Dios que interviene en la historia a favor del pueblo oprimido. Así lo creían ellos.
Otra cosa es cómo tenemos que interpretar esa actuación de Dios. Se sirve de los seres humanos para llevar a cabo la obra de salvación. Aunque Moisés se declara incapacitado, es enviado. Esto es muy importante a la hora de aplicar a Dios la liberación. Somos nosotros los responsables de que la humanidad camine hacia una liberación o que siga hundiendo en la miseria a la mayoría de los seres humanos.
"Yo soy el que soy". Estamos ante la intuición más sublime de toda la Biblia, y seguramente de todo el pensamiento religioso: Dios no tiene nombre, simplemente, ES. El nombre de Dios es una expresión verbal: "El que es y será".
En aquella cultura, conocer el nombre de alguien era dominarlo. La enseñanza es que Dios es inabarcable y nadie puede conocerle ni manipularle. Es una pena que, sin tener esto en cuenta, hayamos intentado durante dos mil años, meterlo en conceptos para manipularlo. Las pretensiones de la "teología" han sido y siguen siendo descabelladas. Todos sabemos que el discurso sobre Dios es siempre analógico, es decir: sencillamente inadecuado, y solo "sequndum quid" acertado. Pero a la hora de la verdad, olvidamos esto y defendemos nuestros ridículos conceptos sobre Dios como si se tratara de la mismísima realidad divina.
Partiendo de la experiencia de Israel, Pablo advierte a los cristianos de Corinto, que no basta pertenecer a una comunidad para estar seguro (I Cor 10,1-12). Nada podrá suplir la respuesta personal a las exigencias de tu ser. El ampararse en seguridades de grupo, puede ser una trampa. Esta recomendación de Pablo está muy de acuerdo con el evangelio. Pablo dice: "El que se cree seguro, ¡cuidado! no caiga." Y Jesús dice por dos veces: "si no os convertís, todos pereceréis". La vida humana es camino hacia la plenitud, que necesita de constantes "rectificaciones": si no corregimos el rumbo equivocado, nos precipitaremos al abismo.
El evangelio de hoy nos plantea el eterno problema, ¿Es el mal consecuencia de un pecado? Así lo creían los judíos del tiempo de Jesús y así lo siguen creyendo la mayoría de los cristianos de hoy. Desde una visión mágica de Dios, se creía que todo lo que sucedía era fruto de su voluntad. Los males se consideraban castigos y los bienes premios. Incluso la lectura de Pablo que acabamos de leer se puede interpretar en esa dirección. Jesús se declara completamente en contra de esa manera de pensar. Lo expresa claramente el evangelio de hoy, pero lo encontramos en otros muchos pasajes; el más claro es el del ciego de nacimiento en el evangelio de Juan, donde los discípulos preguntan a Jesús, ¿Quién peco, éste o sus padres? Para Jesús la relación de Dios con nosotros está en un ámbito más profundo.
Debemos dejar de interpretar como actuación de Dios lo que no son más que fuerzas de la naturaleza o consecuencia de atropellos humanos. Ninguna desgracia que nos pueda alcanzar, debemos atribuirla a un castigo de Dios; de la misma manera que no podemos creer que somos buenos porque las cosas nos salen bien. El evangelio de hoy no puede estar más claro, pero como decíamos el domingo pasado, estamos incapacitados para oír lo que nos dice. Solo oímos lo que nos permiten escuchar nuestros prejuicios.
Insisto, debemos salir de esa idea de Dios Señor o patrón soberano que desde fuera nos vigila y exige su tributo. De nada sirve camuflarla con sutilezas. Por ejemplo: Dios, puede que no castigue aquí abajo, pero castiga en la otra vida... O, Dios nos castiga, pero es por amor y para salvarnos... O Dios castiga solo a los malos... O merecemos castigo, pero Cristo, con su muerte, nos libró de él. Pensar que Dios nos trata como tratamos nosotros al asno, que solo funciona a base de palo o zanahoria, es ridiculizar a Dios y al ser humano.
Claro que estamos constantemente en manos de Dios, pero su acción no tiene nada que ver con las causas segundas. La acción de Dios es de distinta naturaleza que la acción del hombre, por eso la acción de Dios, ni se suma ni se resta ni se interfiere con la acción de las causas físicas.
Desde el Paleolítico, se ha creído que todos los acontecimientos eran queridos y por lo tanto realizados puntualmente, por "un dios" todopoderoso. Pero resulta que Dios, por ser "acto puro", por estar haciéndolo todo en todo instante, no puede hacer nada en concreto. No puede empezar a hacer nada, porque una acción es enriquecimiento del ser que actúa, y si Dios pudiera ser más, antes no sería Dios. Tampoco puede dejar de hacer nada de lo que está haciendo, porque perdería algo y dejaría de ser Dios.
Si no os convertís, todos pereceréis. La expresión no traduce adecuadamente el griego metanohte que significa "cambiar de mentalidad, ver la realidad desde otra perspectiva". No dice Jesús que los que murieron no eran pecadores, sino que todos somos igualmente pecadores y tenemos que cambiar de rumbo.
Sin una toma de conciencia de que el camino que llevamos nos lleva al abismo, nunca estaremos motivados para evitar el desastre. Si soy yo el que voy caminando hacia el abismo, solo yo puedo cambiar de rumbo. Cada uno tiene la responsabilidad de sus acciones. No somos marionetas en las manos de Dios, sino personas, es decir seres autónomos que debemos apechugar con nuestra responsabilidad. La mejor traducción sería: si no aprendes, incluso de los errores, perecerás.
La parábola de la higuera es esclarecedora. La higuera era símbolo del pueblo de Israel. El número tres es símbolo de plenitud. Es como si dijera: Dios me da todo el tiempo del mundo y un año más. Pero el tiempo para dar fruto es limitado. Dios es don incondicional, pero no puede suplir lo que tengo que hacer yo. Soy único, irrepetible. Tengo una tarea asignada; si no la llevo a cabo, esa tarea se quedará sin realizar y la culpa será solo mía. No tiene que venir nadie a premiarme o castigarme. Cumplir la tarea será el premio, no cumplirla el castigo. La tarea del ser humano no es hacer cosas sino hacerse, es decir, tomar conciencia de su verdadero ser y vivir esa realidad a tope. Claro que si ese proceso de concienciación no se traduce en "frutos", será la prueba de que no se ha dado.
¿Qué significa dar fruto? ¿En qué consistiría la salvación para nosotros aquí y ahora? Tal vez sea esta la cuestión más importante que nos debemos plantear. No se trata de hacer o dejar de hacer esto o aquello para alcanzar la salvación. Se trata de alcanzar una liberación interior que me lleve a hacer esto o dejar de hacer lo otro porque me lo pide mi auténtico ser. La salvación no es alcanzar nada ni conseguir nada. Es tu verdadero ser, estar identificado con Dios. Descubrir y vivir esa realidad es tu verdadera salvación.


Arvo Pärt, Da Pacem Domine

é nesta confiança amorosa que vivemos



«Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha.
Foi procurar os frutos que nela houvesse,
mas não os encontrou.
Disse então ao vinhateiro:
‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira
e não os encontro.
Deves cortá-la.
Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’
Mas o vinhateiro respondeu-lhe:
‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano,
que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo.
Talvez venha a dar frutos.
Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».


[Lc 13]

2013-03-01

eu vou

 

Quem Tem Ouvidos para Ouvir que Oiça!

 
 
As manifestações convocadas para o próximo dia 2 não devem ser vistas como mais um episódio isolado, nem como representando apenas a força política de quem as convoca. A meu ver, são, antes, uma expressão do enorme e generalizado descontentamento que, presentemente, atravessa toda a sociedade portuguesa (europeia, também), independentemente das diferentes ideologias e simpatias partidárias que lhe subjazem. (...)
 
 
 
 
Manuela Silva, aqui



basta que te dispas até te doeres todo,
retoma-te no tocado, no aceso,
e fica cego e,
por memória do tacto, desfaz os nós,
muitos, muito
atados uns nos outros,
e que inteiramente te alcance o ar e,
depois de te haver abraçado de alto a baixo, apareça já
inextricável, ar
falado, a fino ouvido: cacofónico,
mas de um modo exacto, acho,
música inquieta, inconjunta, impura,
isso: essa música



Herberto Helder in A Faca Não Corta o Fogo