2013-03-16

a igreja e a consciência



Em tema tão delicado e central, a Igreja, com sua complexidade, vive tensões internas. Constata-se a retomada de modelos autoritários recheados de pessimismo que, apoiados em certa ideia de consciência, quer a todo custo coadunar discurso condenatório com a boa notícia do Evangelho. São tentativas reais de controle das consciências através do “policiamento ostensivo” do pensamento e dos comportamentos cotidianos do fiel. Pretensos representantes de uma visão de Igreja tridentina, reforçada por certa interpretação do Concílio Vaticano I, manipulam textos bíblicos, instrumentalizam o Direito Canônico, dogmatizam o Catecismo e servem-se das declarações da hierarquia. A obsessão denunciante e intransigente os torna coadores de mosquitos que engolem camelos (Mt 23,24). Intolerantes, pervertem o sacramento da Penitência para atemorizar o fiel com uso indiscriminado da ideia de pecado. Por entender a consciência como órgão de ressonância das normas institucionais pregam a submissão rigorosa à autoridade. Uma moral de absolutos, do tudo ou nada, sem matizações, cujo único intérprete é a hierarquia, vale por si mesma. Consciências afônicas, cuja voz silenciada cultiva uma vida moral infantilizada e de fiéis amedrontados ante o risco do pecado e intimidados pela ameaça da censura.
 (...)
 A catolicidade da Igreja não significa anulação da singularidade das consciências e da especificidade das tradições culturais. A verdade pode encontrar diferentes expressões históricas. “De fato, tudo o que neles há de bom e verdadeiro, considera-o a Igreja como preparação ao Evangelho e como dom daquele que ilumina todo homem para que afinal tenha a vida” (Lumen gentium, 16). O cristianismo não é uma supermoral aplicável de maneira homogênea a todas as situações e contextos históricos. O Evangelho não oferece soluções acabadas e a Igreja não tem obrigação de dar respostas para todos os problemas. Novos problemas nem sempre combinam com soluções automáticas apoiadas em uma compreensão patriarcal, ocidental e clerical da consciência. Não se aceitam mais posturas cesaropapistas ou da cristandade gregoriana. A obsessão de responder a tudo e a todos deve ser superada por uma busca coletiva, em diálogo com todas as pessoas de boa vontade (cf. Gaudium et spes, 33 e 43). Uma coisa é manifestar reservas a respeito de algumas práticas, outra é pretender impô-las aos demais em uma sociedade que já não compartilha da mesma visão. Quando os princípios são questionados pelas novas situações, já não basta aplicá-los sem mais. A credibilidade da Igreja depende, em grande parte, do reconhecimento da pluralidade, das novas sensibilidades e da diversidade típica do mundo contemporâneo. Não só a religião, mas outros inúmeros fatores influenciam na formação da consciência. As dimensões intelectuais, afetivas e espirituais precisam ser levadas em conta.

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5 comentários:

  1. Maria, não acredito em soluções colectivas para as nossas buscas individuais. É verdade que a hierarquia podia ser um pouquinho menos má, mas não podia ser radicalmente melhor.
    É a natureza das coisas...

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  2. O., não sei o que entendes por soluções colectivas. O individualismo e o fechamento em nós mesmos é um perigo que sempre nos espreita, tanto individualmente como aos grupos.

    Pessoalmente, se na actualidade não encontro um espaço "físico" na igreja onde me sinta inserida e possa aprofundar as minhas buscas, nem por isso me sinto menos ligada à mesma. Ainda que dolorosamente algumas vezes. Mas isso faz parte: "é da natureza das coisas". ;)

    É sempre possível fazer melhor. Só uma atitude de preguiça e comodismo pode sugerir o contrário. Não estou a falar de coisas perfeitas, mas de manter uma atitude de busca pessoal e colectiva (o colectiva podem ser dois ou três:"onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, estarei no meio deles." [Mt, 18,20].

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  3. Solução individual seria o que tu chamas "a tua fé".
    Solução colectiva seria qualquer grupo que inclua mais pessoas do que as que vivem numa pequena aldeia em que todos se conhecem.

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  4. Seria qualquer solução organizada por um grupo (pelos líderes de um grupo) demasiado grande para que todas as pessoas se possam conhecer. Era isto que eu queria dizer...

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  5. O. A Igreja, na figura do papa, goza de uma mediatização que faz com que o seu discurso chegue até aos lugares mais remotos. Na altura do conclave e quando se soube da eleição, eu entrava no meu mural do facebook e todos os meus "amigos", a maior parte ateus convictos ou nada dados às causas religiosas, não falavam de outra coisa que do papa. Mas isso foi um dia, no dia seguinte o assunto tinha morrido.
    Isto é o exemplo daquilo que andas aqui a tentar dizer: ninguém nos leva direitinhos à resolução das nossas buscas individuais. Isso não se faz por decreto. A fé não é possível sem adesão pessoal.

    A Igreja está estruturada para funcionar nos tais pequenos grupos. Existe uma coisa que é a paróquia - que urge repensar - e, dentro dela, ainda os diferentes grupos. Mas como diz o texto acima, são vários os males que impedem que as coisas funcionem.

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