2013-03-09

é tão natural ignorar o que somos



Lá dentro, por trás da linha de secretárias, o trabalho não parava. As máquinas de escrever tilitavam, o ruído do calçado andava de um lado para o outro. De vez em quando um telefone tocava; o barulho da campainha invadia toda a superfície do hall, repetindo-se cinco ou sei vezes. Uma mão pegava no telefone e as vozes começavam a fanhosear. No tecto, um ventilador de pás largas cortava o ar em silêncio, dissipando as volutas de fumo dos cigarros. Tudo isto era trabalho; era agitação inútil, imbecil, espécie de comédia triste que se representava no fundo das casamatas. As pessoas viviam ali, amontoadas, presas pelos rumores e pelas pancadas, sem pensarem em nada. Esqueciam os pormenores. Não viam a poeira nem as moscas, não se ocupavam das ligeiras perturbações que vinham lentamente, do mais fundo deles próprios, lembrar-lhes quem eram.



Le Clézio in A Febre

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