2013-03-04



Vi uma miúda que se esforçava por patinar só com um patim. Tomava balanço, depois atirava-se para a frente, os dois braços no ar, e deslizava só num pé. Mas perdia imediatamente o equilíbrio e todas as vezes esteve quase a cair. Caiu mesmo duas ou três vezes. Mas isso não parecia desencorajá-la, e recomeçava sempre, incansavelmente; houve um  momento em que passou muito perto do banco e agarrou-se-lhe para parar. Olhei-a e disse-lhe:
- Não tem medo de cair?
Mas ela não me respondeu. Um minuto mais tarde, como voltasse junto do banco, tornei a fazer-lhe a mesma pergunta. Respondeu-me:
- Precisava de ter os dois patins, assim não cairia.
Perguntei-lhe porque é que não tinha os dois patins. Reflectiu um momento, depois respondeu:
- Foi Ivan. O meu irmãozinho. É ele quem tem o outro patim. Compreende, os patins são dele, por isso só me empresta um. 
Deu uma ou duas voltas, ao pé-coxinho, evitando os transeuntes, depois voltou para junto do banco.
- E mais. Se me emprestasse o patim direito seria fácil. Mas ele só me empresta o patim esquerdo, por isso...
Disse-lhe que não sabia haver direito e esquerdo nos patins com rodas, pensava que eram intermutáveis. 
- Geralmente, são. Mas estes patins são especiais. Está a ver - disse ela mostrando-me o pé - como vê, tem uma espécie de bota. Em geral só têm correias. Mas nestes patins há uma espécie de bota para pôr o pé; são especiais, é para que não nos aleijem.
Eu disse que era uma parvoíce que não se pudesse pôr o patim esquerdo no pé direito, e que devia ser muito difícil manter-se assim na perna esquerda, excepto, claro para os canhotos. Ela olhou para mim com um ar um pouco condoído e explicou-me:
- Canhotos, isso é nas mãos, nos pés não é conhecido.
Por mais que eu tentasse dizer-lhe que havia pessoas que eram canhotas tanto nos pés como nas mãos, não quis acreditar-me. Disse-me que era idiota, completamente idiota. Contentei-me então em repetir que devia ser muito complicado patinar com o pé esquerdo. Ela gritou-me:
- É uma questão de hábito.
E recomeçou a correr. Desta vez foi para muito longe,  e um grupo ocultou-ma. Esperei um momento que ela aparecesse, porque queria pedir-lhe que me emprestasse o patim para dar uma volta; mas ela não voltou, e, como começava a sentir frio novamente, parti também.

Jean-Maria Gustave Le Clézio in "Febre - Parece-me que o barco se dirige para a ilha"

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