2013-04-07



Lalla escuta todos estes ruídos, à noite, deitada na cama, contemplando a mancha amarela da lâmpada acesa. Os homens aqui não podem existir, nem as crianças, nem nada do que vive. Escuta os ruídos da noite, como no interior de uma gruta, e é também como se ela já não existisse muito bem. Agora, há qualquer coisa que estremece dento do seu ventre, que palpita como um órgão desconhecido.
Lalla aninha-se na cama, de joelhos encostados ao queixo, e tenta escutar o que remexe dentro dela, o que começa a viver. Há o medo, outra vez o medo que faz fugir pelas ruas e faz saltar de um ângulo  para o outro como uma bala. Mas ao mesmo tempo há uma onda de estranha felicidade, de calor e de luz, que parece vir de muito longe, do lado de lá dos mares e das cidades, e que une Lalla à beleza do deserto. Então, como todas as noites acontece, Lalla fecha os olhos e respira profundamente. Lentamente, apaga-se a luz cinzenta do quarto e surge a noite cheia de beleza. Está povoada de estrelas, fria, silenciosa, solitária. Descansa sobre a terra sem limites, sobre a extensão das dunas imóveis. Ao lado de Lalla, está o Hartani, vestido com o seu manto de burel, com o rosto de cobre negro a brilhar à luz das estrelas. É um olhar que chega até ela, que a encontra aqui, neste quarto estreito, à claridade doentia da lâmpada eléctrica, e o olhar do Hartani mexe dentro dela, no seu ventre, desperta a vida. Há tanto tempo que ele desapareceu, há tanto tempo que ela se veio embora, do outro lado do mar, como se a tivessem expulsado, mas mesmo assim o olhar do jovem pastor tem muita força; ela sente-o a mexer verdadeiramente dentro de si, no segredo do seu ventre. Então quem se apaga são os outros, as pessoas desta cidade, os polícias, os homens da rua, os locatários do hotel, todos eles desaparecem, e a cidade com eles, as suas casas, as suas ruas, os seus automóveis, os seus camiões, e só resta a extensão do deserto, onde Lalla e Hartani estão deitados juntos. Ambos estão envolvidos no manto de burel, rodeados pela noite negra e por miríades de estrelas, e chegam-se muito um ao outro para não sentirem o frio que invade a terra.


J.M. Le Clézio in "Deserto"



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