2013-04-05




Tinha chegado da festa

Afastar-me do meu corpo, pensei,
podia ser uma solução conveniente
para o conflito que atormenta o meu
espírito. Como poderia, porém, sem remorsos,
deixar de lado, na margem do percurso
do desejo, aquele que sempre fora para mim
o companheiro mais próximo, o que nunca
me abandonara? Com ele dividira
as horas boas e as horas más. Com ele
partilhara - e que era de quem? - a alegria
e a confusão, a amargura e a melancolia.
Não, concluí depois de reflectir um pouco,
nunca poderia abandoná-lo a si mesmo,
infligir-lhe a vida impossível dos ascetas
no deserto, ignorar a sua existência.
Ser puro espírito não era a vocação absurda
do meu espírito. Antes pelo contrário: só
pelo corpo o espírito podia atingir as alturas
dolorosas da dúvida, a hesitação em que se revela
o sublime, os lugares obscuros do Ser em que a paixão
devoradora se escondia. Tinha chegado da festa
onde dançara com uma rapariga que se queixava
da solidão. Ela encostara a cabeça no meu ombro
timidamente durante um breve instante. Retivera
em mim o desejo. E não podia esquecê-la,
agora que, só em casa, reexaminava a situação.



João Camilo
nunca mais se apagam as imagens
Longe de Casa
Fenda

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