2013-05-30





Nenhum habitante de Jerusalém dirá: «Estou doente»; porque o povo que lá habitar terá o perdão das suas culpas.[Is 33,24]




A PURA FACE

Como encontrar-te depois de ter perdido
Uma por uma as tardes que encontrei
Ó ser de todo o ser de quem nem sei
Se podes ser ao menos pressentido?

Não te busquei no reino prometido
Da terra nem na paixão com que eu a amei
E porque não és tempo não te dei
Meu desejo pelas horas consumido

Apenas imagino que me espera
No infinito silêncio a pura face
Pr'além de vida morte ou Primavera
E a que verei de frente e sem disfarce



Sophia de Mello Breyner Andresen
"Obra Poética"
Caminho

2013-05-27



Não é de hoje, nem de ontem...que os ditos "fiscais da fé" não fazem nem deixam fazer.

Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque fechais aos homens o Reino do Céu! Nem entrais vós nem deixais entrar os que o querem fazer. [Mt23,13]

Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque pagais o dízimo da hortelã, do funcho e do cominho e desprezais o mais importante da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade! Devíeis praticar estas coisas, sem deixar aquelas. [Mt23,23]

Pior do que fechar as portas das igrejas, é fechar o coração e a vida aos outros. Cumpridores rigorosos dos ritos, e impiedosos e surdos aos apelos dos outros. E poderia continuar na observação de quanta frieza, maledicência etc., etc., existem nas comunidades religiosas. Não se muda isso, apenas porque o papa faz uma observação demolidora. Atesta-o o testemunho dos evangelhos, Jesus sempre se insurgiu (com as consequências que conhecemos)contra tal estado de coisas. Não evoluímos nada.

Por vezes, dou por mim a pensar, se não seria mais prudente fechar, para sempre, todas a igrejas. E que cada um abrisse os olhos à sua volta.


2013-05-26



Ai que o Papa vai fazer estremecer algumas cristaleiras:


O Papa criticou hoje no Vaticano o que denominou de “fiscais da fé” que fecham as portas da Igreja e afastam as pessoas [...]

Segundo o Papa, esta atitude “afasta as pessoas” e deriva da fixação no que “o protocolo não permite”.
“Jesus instituiu sete sacramentos e nós com esta atitude instituímos o oitavo: o sacramento da alfândega pastoral”, avisou.
Francisco pediu, por isso, que os “fiscais da fé” se transformem em “facilitadores da fé das pessoas”.
“Peçamos ao Senhor que todos os que se aproximam da Igreja encontrem as portas abertas, abertas para encontrar o amor de Jesus”, concluiu. (daqui)


porque hoje é domingo


Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade,
Ele vos guiará para a verdade plena;
porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido
e vos anunciará o que está para vir. Ele Me glorificará,
porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará.
Tudo o que o Pai tem é meu.
Por isso vos disse
que Ele receberá do que é meu e vo-lo anunciará».
[Jo 16 ]

2013-05-25



Aqui especula-se e teoriza-se sobre a aprovação recente da lei da coadoção. Apela-se também aos números, afinal é uma minoria o número de crianças a quem a lei vai beneficiar. 
Dizem os especialistas - e a nossa própria experiência - que a seguir à vida, o superior interesse da criança é o "laço humano". E quanto mais ele for exercido e experimentado, melhor.
No mesmo jornal também aparecem números, para nossa vergonha. Vamos ver se o cronista, futuramente, lhes dedica umas palavrinhas.







A definição do Homem como animal racional não dá conta adequada do que somos: de facto, não começamos por pensar, mas por sentir. Somos afectados pelo meio ambiente, desde o ventre materno.


"O mundo dos afectos, a fé e a cura"
Anselmo Borges, DN

imagem - Paul Strand

2013-05-24

 


Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.




Eugénio de Andrade
de Os lugares de Lume

2013-05-20




o jardim tem uma nova residente. meiguinha e brincalhona, ganhou o nome de Mel. o gif é uma brincadeira da Maria J. (que os meus conhecimentos não chegam a tanto).



2013-05-19

"um corpo cheio de olhos"





Quero dizer que a multissensorialidade é importante sem duvida, mas que, ao mesmo tempo, no corpo polimorfo multissensorial o olho é ainda antropologicamente dominante. Queria lembrar a análise de Freud sobre a mutação radical do Homo sapiens quando transita de uma centralidade sexual baseada no nariz à afirmação da supremacia do olhar. Homo sapiens é tal porque aprendeu a olhar nos olhos do outro o prazer do amor. O cheiro do (e no) amor é ainda importante, mas a irresistível higienização desodorada do corpo pode ser interpretada como uma declaração de subordinação ao olhar. Os olhos não podem ser higienizados ou “de-olhado”, par inventar um péssimo neologismo. Eu sou o olho que apreende continuamente o desejo intelectual de imaginar o que ainda não existe. Um olho pensante. Olhos “reflitentes”. Agora digo o seguinte: a extrema sensualidade do olho fica na sua impossibilidade de ser acariciado, beijado, penetrado. A história do olho não é só aquela de Bataille: nele – no olho – se coagula o máximo desejo de possuí-lo sem possibilidade nenhuma de conseguir este desejo. Por isso o desejo do olho continua e nunca poderia ser “de-olhado”.


ler artigo completo, aqui 


imagem - Brassai 


o olhar segundo o Padre António Vieira

Olhar e Chorar  


Notável criatura são os olhos! Admirável instrumento da natureza; prodigioso artifício da Providência! Eles são a primeira origem da culpa; eles a primeira fonte da Graça. São os olhos duas víboras, metidas em duas covas, e que a tentação pôs o veneno, e a contrição a teriaga. São duas setas com que o Demónio se arma para nos ferir e perder; e são dois escudos com que Deus depois de feridos nos repara para nos salvar. Todos os sentidos do homem têm um só ofício; só os olhos têm dois. O Ouvido ouve, o Gosto gosta, o Olfacto cheira, o Tacto apalpa, só os olhos têm dois ofícios: Ver e Chorar. Estes serão os dois pólos do nosso discurso.
Ninguém haverá (se tem entendimento) que não deseje saber por que ajuntou a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista; e por que uniu a mesma potência o ofício de chorar, e o de ver? O ver é a acção mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o destilar da dor, o sangue da alma, a tinta do coração, o fel da vida, o líquido do sentimento. Por que ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários, ver e chorar? A razão e a experiência é esta. Ajuntou a Natureza a vista e as lágrimas, porque as lágrimas são consequência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver, porque o ver é a causa do chorar. Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem.

Padre António Vieira, in "Sermões"

2013-05-18



Há já algum tempo que deixou de me interessar uma espiritualidade "com local e hora marcada". Por isso o meu entusiasmo não é assim tão grande como o que se revela aqui.







2013-05-17






descobrir o céu sob as macieiras






“Numa adoção trata‑se de encontrar a família, nas melhores condições possíveis, para dar uns pais substitutivos dos pais biológicos que perderam ou que são incapazes de exercer a paternidade e a maternidade” até aqui estamos bem. Depois o porta-voz da CEP (Conferência dos bispos portugueses) aludindo a um documento dos mesmos, define família:"[é] concebida a partir do compromisso definitivo entre um homem e uma mulher", e temos o caldo entornado. Entre o que a Igreja tem como ideal de família e a realidade que se vive, há um hiato. E surge o inevitável divórcio.

2013-05-16

de imagem em imagem...





Na competição em termos de prestígio apenas parece sensato tentarmos aperfeiçoar a nossa imagem em vez de nós próprios. Isso parece ser a forma mais económica e directa para produzirmos o resultado desejado. Acostumados a viver num mundo de pseudo-eventos, celebridades, formas dissolventes, e em imagens-sombra, nós confundimos as nossas sombras com nós próprios. A nós elas parecem mais reais que a realidade. Porque é que elas não deveriam parecer assim aos outros? 


Daniel J. Boorstin, in 'The Image. A Guide to Pseudo-Events in America'

2013-05-15

no dia da cidade...um protesto com sentido






... os únicos livros que vale a pena ler são aqueles que nos tornam estrangeiros. [Abel Barros Baptista]


imagem - André Kertész

 

com ironia, olhar o que se faz e falta fazer



1. São sobretudo os portugueses que, actualmente, vivem bem e muito bem que acusam os outros de terem andado a viver acima das suas possibilidades. Encontrei, por acaso, um conhecido que já não via há muito tempo, que me exibiu uma estratégia para acabar com as aldrabices dessa conversa inconsequente e para me convencer a desistir das minhas homilias dominicais. O importante não é saber quantos habitantes estão a mais em Portugal, mas como os eliminar sem dor.
       Para ele, a política ou falta de política tornou-se um falatório de ilusionistas. Portugal, sem batota, nunca terá recursos nem habilidades para manter mais de três milhões de pessoas. O governo, aliás, sabe que é assim. Segue o caminho certo e tomou medidas que já começam a dar frutos: os jovens que não emigrarem e que não tiverem emprego não podem ter filhos. A população, a prazo, será controlada. Os idosos, privados dos modernos cuidados de saúde, morrem mais depressa e “o ambiente agradece”.
       Para um pragmático puro e duro, esse caminho é excessivamente demorado para resolver problemas e pagar dívidas que estão sempre a aumentar. A solução tem de ser mais rápida e radical.
       Hoje, já é possível controlar os nascimentos e determinar quantos são os desejáveis do sexo masculino e feminino. Para evitar gastos com a saúde de bebés, só devem nascer aqueles que mostrarem estar isentos de qualquer doença, real ou potencial. Aos setenta e cinco anos deve ser imposta a reforma da vida para todos. Os funerais serão baratos. Esta medida libertará recursos económicos e financeiros para fins mais produtivos.
       Poderíamos, desta maneira, ser pioneiros na resolução de problemas postos a nível mundial. Se os sete mil milhões de seres humanos na terra tivessem o nível de vida dos EUA seriam necessários, pelo menos, mais seis planetas, para satisfazer as suas necessidades. No período em que a população cresceu 100%, a área cultivável só aumentou 10%. Assim não dá.
       A solução do referido pragmático não é um atentado à vida humana pois, agora por agora, a morte é certa. O método proposto apressa o céu aos crentes. Os não crentes na vida depois da morte são poupados às doenças, aos hospitais e aos lares que tornam a vida um inferno laico. Os que acreditam na reencarnação só começam mais depressa a nova experiência de vida. Quem insiste em convicções humanistas e religiosas, sobretudo as que destacam o valor absoluto da pessoa humana, criada à imagem de Deus, não se podem queixar, pois a divindade só pode ver com bons olhos uma solução que evita sofrimentos desnecessários.
       Esta pragmática tão despachada é uma divindade despótica, própria de uma era que não acredita em milagres de bondade e solidariedade mas, sobretudo, por já ter o futuro todo previsto e desenhado. Depois de ter transformado o ser humano numa coisa, sem sentimentos, sem liberdade e sem interrogações, é fácil determinar o que convém e não convém a essa estranha criatura.
        2. Não nos devemos admirar muito por ainda não termos encontrado boas saídas para os enigmas da aventura humana. Os casos individuais, apesar da medicina, não levam muito tempo a resolver. Para a humanidade enquanto tal surgem repetidos anúncios do fim do mundo.
       A mais antiga narrativa cristã acerca deste tema vem na primeira carta aos Tessalonicenses. Com a vitória de Cristo sobre a morte, o último inimigo a vencer, as primeiras gerações cristãs encontraram a boa solução: juntarem-se a Cristo Ressuscitado o mais depressa possível e entrar no Reino da Alegria. S. Paulo até organizou o programa dessa viagem definitiva: “Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou assim também, os que morreram em Jesus, Deus há-de levá-los em sua companhia. Por isso vos declaramos, segundo a palavra do Senhor: que os vivos, os que ainda estivermos lá para a Vinda do Senhor, não passaremos à frente dos que morreram. Quando o Senhor, ao sinal dado, à voz do Arcanjo e ao som da trombeta divina, descer do céu, então os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; em seguida, nós os vivos que estivermos lá, seremos arrebatados com eles nas nuvens para o encontro com o Senhor, nos ares. Assim, estaremos para sempre com o Senhor. Consolai-vos, pois, uns aos outros, com estas palavras” (1Ts 4, 13-18).
       Paulo, imprudente, esqueceu-se de marcar a data do arrebatamento. Se o fim estivesse mesmo a chegar, para quê trabalhar? Na segunda carta, Paulo está a colher os frutos da sua sementeira, pois há muitos que levam a vida à toa, muito atarefados a não fazer nada. Não dispõe de argumentos teológicos para os mover. Torna-se, então, muito pragmático: quem não quer trabalhar, que também não coma (2 Ts 3, 6-12).
       3. Na celebração deste Domingo, Jesus ressuscitado, antes de se despedir, deixa-nos algumas recomendações: abandonar a inveterada vontade de poder e mantermo-nos disponíveis para as aventuras do Espírito de Deus. Há muito que fazer e não basta estar sempre a olhar para o céu (Lc 24, 46-53; Act 1, 6-11). A história da Igreja no mundo está aberta, é nosso encargo. Não nos deixou um manual de instruções do tudo previsto. Os que depois nos arranjaram, não satisfazem.
 
       Frei Bento Domingues, O. P.
     
retirei daqui
 
 

2013-05-13



Não te analises.

Não procures no perfume das flores
a tempestade das raízes.

Nem queiras
desatar o fumo
do carvão das fogueiras.

Ama
com ossos de cinza
e cabelos de chama.

E deixa-te viver
Em rio a correr…


José Gomes Ferreira 


 


a quem interessar: Kierkgaard em revista, aqui


 

2013-05-12

porque hoje é domingo





O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, 
vos conceda um espírito de sabedoria e de luz
para O conhecerdes plenamente
e ilumine os olhos do vosso coração,
para compreenderdes a esperança a que fostes chamados, 
os tesouros de glória da sua herança entre os santos
e a incomensurável grandeza do seu poder para nós os crentes.
  

[da carta Ef 1]

fé e razão no pensamento de S. Kierkgaard




Quais são as relações e o paradoxo existentes entre fé e razão no
pensamento de Kierkegaard?

 
Jonas Roos Kierkegaard tem entendimentos muito próprios tanto do que seja fé quanto do que seja razão. Apenas a partir do esclarecimento desses conceitos pode-se compreender tanto como ele articula a relação entre razão e fé quanto o papel específico que o conceito de paradoxo desempenha nesta relação.
Fé é entendida como um processo que envolve dois movimentos complementares, o de resignação, o abandono da realidade finita e temporal, e o de retomada da finitude e temporalidade. A fé só se realiza na conjunção dos dois movimentos, de modo que não é entendida como negação do finito e temporal, mas sua ressignificação. Este entendimento de fé, contudo, não é desenvolvido por Kierkegaard à moda de um tratado, mas personificado, por exemplo, na figura de Abraão.
Um bom desenvolvimento do conceito encontra-se, então, em Temor e tremor, do pseudônimo kierkegaardiano Johannes de Silentio, na análise do difícil texto em que Abraão recebe a ordem de sacrificar o próprio filho (Gênesis, cap. 22). Ponto-chave para a análise é que Abraão, quando, depois de três dias de viagem, avista o monte do sacrifício, afirma a seus servos: esperai aqui, com o jumento; eu e o rapaz iremos até lá e, havendo adorado, voltaremos para junto de vós. Este plural, “voltaremos”, é decisivo na narrativa, pois indica que Abraão tinha esperança de retornar com Isaac.
Trata-se aqui da esperança que se articula não na certeza objetiva, mas na certeza de uma aposta existencial. Abraão, portanto, personifica o duplo movimento da fé uma vez que abandona o próprio filho (resignação), se dispõe a sacrificá-lo, e conserva a esperança de retornar com o filho e viver o seu amor para com ele não em outra vida, mas na temporalidade e finitude (retomada). Vale notar que o autor não personifica a fé na figura de alguém que está lendo, refletindo ou meditando, mas em alguém que se põe a caminho. É processo.

daqui

2013-05-08





A proximidade do 13 de Maio, enche os espaços de notícias com as reportagens a levas de peregrinos que caminham e galgam longas distâncias, de diversos pontos do país até Fátima.
O sentimento comum mais partilhado é que tal exercício é uma superação de si próprio. Um teste às capacidades de cada um.
Quem assim fala poderia ser alguém bem instalado na vida. A grande maioria não parece representar tal estado. Porque o faz então? 
Na vida estão presentes a dor, a solidão, a fragilidade. Mas também a alegria, o prazer, a proximidade. Fruir e viver de modo consciente cada um desses estados é o que nos torna pessoas reconciliadas connosco e com os outros. A religiosidade que cultiva o dolorismo mantém as pessoas feridas, longe de si próprias, incapazes de relação.






Tudo o que o Pai tem é meu; por isso é que Eu disse: 'Receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer'.» [Jo 16,15]


2013-05-07

Luiz Pacheco



Faria hoje 88 anos. Se trago aqui a referência a este escritor, e homem paradoxal, é porque foi para mim marcante a leitura do seu "Diário Remendado". Sem entrar em pormenores (isto é um diário, mas não tanto) ao terminar a leitura do livro - e permanece - há alguns anos, senti-me reconciliada com uma parte importante de mim própria. Pode pedir-se mais a um escritor e a um homem?

No dia 1/1/1974 escreveu:


Agora a luta é comigo. Se quero aguentar mais uns tempos é dominar os meus demónios interiores, a moleza d'alma, o deixar-andar, o impedir pelos meios ao meu alcance a repetição dos erros do ano passado, que alguns deram frutos mas não sei se compensadores.
E não me resignando à velhice e ao silêncio, aceitar os desgastes da idade, dizer adeus às metas (e às conas) já impossíveis de alcançar. Enfim, conhecer os meus limites e tentar superá-los apenas se a ousadia valer os riscos e em plena consciência. Não pela força do álcool que julgo - para já - o meu pior inimigo.
Amanhã, mudar de programa. Vai ser um combate incerto que derrotas, desânimos, mesmo períodos de crise, poderão comprometer definitivamente. A ver vamos.


Luiz Pacheco in "Diário Remendado 1971-1975"



Andrés Torres Queiruga, um teólogo que tem ousado percorrer espaços próprios na busca teológica, manifesta, em entrevista, os caminhos que a teologia actual deveria percorrer:



- O primeiro caminho é, digamos, estrutural: recuperar a liberdade e a criatividade da teologia, voltando ao impulso –fortemente freado nos últimos tempos- do Vaticano II, sem medo ao pluralismo e sem  se assustar perante os possíveis riscos próprios de toda a busca criativa e renovadora. Sobre essa base, será necessário ir assumindo com plena consequência a mudança cultural, sobretudo –insisto uma vez mais no chamado conciliar- reconhecendo a "autonomia” da criação e reformulando a partir dela a compreensão das verdades fundamentais da fé. Ressaltaria algumas tarefas mais urgentes:
 - Reformular o esquema da história da salvação, vendo-a como crescimento da criatura, frágil, débil e pecadora; porém, sustentada pelo amor incansável de um Deus sempre ao nosso lado contra o mal, evitando portanto continuar mantendo uma dialética de queda original como fato histórico, com todo o horror do mal como consequência de um castigo imposto por Deus;
- Redefinir as relações entre a moral e a religião, evitando uma sangria de abandonos da Igreja por uma confusão entre a autonomia humana em relação às normas (comuns em princípio a crentes e não crentes) e a motivação, fundamentação e apoio divino sobre o seu cumprimento;
- Recuperar a humanidade de Jesus, o Cristo, como modelo e revelação da mais radical e autêntica humanidade;
E, em geral, repensar todas as grandes verdades a partir da nova situação cultural, em diálogo com as religiões e com o pensamento secular.

2013-05-06

e agora dou-vos música


verdade




É bom, ser mãe, mas não é suficiente para me tornar mulher.



Daqui

no 200º aniversário de Soren Kierkegaard



Ocorreu ontem o 200º aniversário de S. Kierkgaard. Não me foi possível fazer aqui a devida referência, mas faço-a hoje. Nas leituras que faço, são frequentes as citações ou referências ao filósofo, e há muitos anos, andava cá por casa o "Temor e Tremor" - que iniciei algumas vezes sem conseguir terminar a leitura. O que entretanto já aconteceu. E foi uma leitura determinante no que toca à fé que me possui (não o contrário). Agora encetei o "OU-Ou, Um fragmento de vida" do qual reproduzo alguns textos a seguir:

Tal como na lenda sucedeu com Parmenisco que na caverna de Trofónio perdeu a capacidade de rir, recuperando-a na ilha de Delfos ao pôr os olhos no cepo informe que supostamente representava a imagem da deusa Leto, também assim sucedeu comigo. Quando era muito jovem, esqueci-me de como rir na caverna de Trofónio, quando me tornei adulto, quando abri os olhos e observei a realidade, dei comigo a rir e nunca mais parei desde essa altura. Vi que a significação da vida consistia em ganhar o pão e ter por objectivo ser conselheiro do tribunal, que a rica volúpia do amor era arranjar uma rapariga abastada, que na amizade a suprema felicidade era a ajuda recíproca nas dificuldades financeiras; vi que era sabedoria o que a maioria admitia como tal; que era entusiasmo fazer um discurso; que era coragem arriscar ser multado em dez táleres, que era gentileza desejar bom proveito depois da refeição; que era temor a Deus ir uma vez por ano à comunhão.


***

A aspiração social e a bela simpatia sua concomitante espalham-se cada vez mais. Em Leipzig, fundaram uma comissão que, em simpatia com o pesaroso fim dos cavalos velhos, decidiu comê-los.

***

Tenho apenas um único amigo, é o eco; e porque é ele meu amigo? Porque amo os meus pesares e ele não os leva de mim. Tenho apenas um único confidente, é o silêncio da noite; e porque é ele meu confidente? Porque se cala.


***

Talvez eu tenha chegado ao conhecimento da verdade; à felicidade suprema, de certeza que não. Que hei-de eu fazer? Actuar no mundo, respondem os homens. Haveria eu nesse caso de comunicar ao mundo o meu pesar, de dar mais um contributo para demonstrar como tudo é pesaroso e medíocre, de porventura descobrir uma nova mancha na vida humana que até aí permanecera desconhecida? Poderia então alcançar a recompensa de alcançar renome, tal como o homem que descobriu as manchas de Júpiter. Prefiro entretanto ficar calado.







2013-05-05

porque hoje é domingo



Um Anjo transportou-me em espírito ao cimo de uma alta montanha e mostrou-me a cidade santa de Jerusalém, que descia do Céu, da presença de Deus, resplandecente da glória de Deus.
O seu esplendor era como o de uma pedra preciosíssima, como uma pedra de jaspe cristalino.
Tinha uma grande e alta muralha, com doze portas e, junto delas, doze Anjos;tinha também nomes gravados, os nomes das doze tribos dos filhos de Israel: três portas a nascente, três portas ao norte, três portas ao sul e três portas a poente.
A muralha da cidade tinha na base doze reforços salientes e neles doze nomes: os doze Apóstolos do Cordeiro.
Na cidade não vi nenhum templo, porque o seu templo é o Senhor Deus omnipotente e o Cordeiro. A cidade não precisa da luz do sol nem da lua, porque a glória de Deus a ilumina e a sua lâmpada é o Cordeiro.

[Ap 21]








O grito da cigarra ergue a tarde a seu cimo e o perfume do orégão invade a felicidade. Perdi a minha memória da morte e da lacuna da perca e do desastre. A omnipotência do sol rege a minha vida enquanto me recomeço em cada coisa. Por isso trouxe comigo o lírio da pequena praia. Ali se erguia intacta a coluna do primeiro dia - e vi o mar reflectido no seu primeiro espelho. Ingrina.
É esse o tempo a que regresso no perfume do orégão, no grito da cigarra, na omnipotência do sol. Os meus passos escutam o chão enquanto a alegria do encontro me desaltera e sacia. O meu reino é meu como um vestido que me serve. E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo: nesta manhã eu recomeço o mundo.


Sophia de Mello Breyner Andresen in Obra Poética
Caminho





2013-05-01

1º de Maio



Assinalar o dia do trabalhador é lembrar a empregadores e empregados e a governos e sociedade civil as suas responsabilidades, direitos e deveres. É exaltar as dimensões da liberdade, equidade e subsidiariedade.



mensagem da Cáritas, aqui




Nesses dias e nesse tempo, suscitarei de David um rebento de justiça, que praticará o direito e a equidade no país. [Jr 33,15]


As invocações 

Jejuar, apenas significa poupar pão,
A prece formal é a ocupação
De velhos e velhas,
A peregrinação é um prazer do mundo,
Conquista o coração,
A sua sujeição é uma conquista de facto.

Se podes caminhar na água 
Tu não és melhor do que uma palha.
Se podes voar no ar
Não és melhor do que uma mosca.
Conquista o teu coração
Para que possas  tornar-te alguém.

Um homem passa setenta anos em aprendizagem
E fracassa em iluminar-se.
Outro, em toda a sua vida nada aprendeu
Mas ouve uma palavra
E é consumido por ela.

Nesse caminho o argumento não tem valia;
Busca, e poderás encontrar a verdade.



Abd Allâh Ansâri (1006-1089), o grande místico de Herat, no atual Afeganistão
colhido aqui