2013-05-07

Luiz Pacheco



Faria hoje 88 anos. Se trago aqui a referência a este escritor, e homem paradoxal, é porque foi para mim marcante a leitura do seu "Diário Remendado". Sem entrar em pormenores (isto é um diário, mas não tanto) ao terminar a leitura do livro - e permanece - há alguns anos, senti-me reconciliada com uma parte importante de mim própria. Pode pedir-se mais a um escritor e a um homem?

No dia 1/1/1974 escreveu:


Agora a luta é comigo. Se quero aguentar mais uns tempos é dominar os meus demónios interiores, a moleza d'alma, o deixar-andar, o impedir pelos meios ao meu alcance a repetição dos erros do ano passado, que alguns deram frutos mas não sei se compensadores.
E não me resignando à velhice e ao silêncio, aceitar os desgastes da idade, dizer adeus às metas (e às conas) já impossíveis de alcançar. Enfim, conhecer os meus limites e tentar superá-los apenas se a ousadia valer os riscos e em plena consciência. Não pela força do álcool que julgo - para já - o meu pior inimigo.
Amanhã, mudar de programa. Vai ser um combate incerto que derrotas, desânimos, mesmo períodos de crise, poderão comprometer definitivamente. A ver vamos.


Luiz Pacheco in "Diário Remendado 1971-1975"

4 comentários:

  1. nunca achei muita graça ao Luíz Pacheco, muito menos à sua vida.

    acho que foi sempre um "pantomineiro". conheço alguns livros dele e nem acho que seja grande escritor, é sim completamente desbocado.

    beijinhos Maria

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  2. meu querido Luís,

    se há coisa que apendi com o Luiz Pacheco, é que não podemos ser todos iguais (e não somos). Numa nação de comportadinhos, o LP é o paradoxo. E isso interpela. Eu li muito pouco dele. E a escrita era diferente nas diferentes leituras que fiz.
    Este diário que aqui reporto é um livro muito bom. Espelha os conflitos do homem, do pai, do cidadão, do amigo (nada exemplar, de facto) mas muito humano. converteu-me! ;)

    beijinhos

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  3. (estive quase para te dizer, que na minha carreira jornalistica, ele foi a única pessoa que me pediu dinheiro para ser entrevistado... de certeza que isso também deve ter pesado no meu juizo de valor)

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  4. compreendo a tua reserva, Luís. No Diário Remendado, e noutros textos que li, é muito clara a relação do LP com o dinheiro. E é assim: se me perguntassem: querias ser filha, mulher, amante, amiga do LP? a minha resposta seria um claro não! mas não o tendo sido, sem paixões, posso avaliar a obra e o homem, com maior objectividade.

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