2013-05-06

no 200º aniversário de Soren Kierkegaard



Ocorreu ontem o 200º aniversário de S. Kierkgaard. Não me foi possível fazer aqui a devida referência, mas faço-a hoje. Nas leituras que faço, são frequentes as citações ou referências ao filósofo, e há muitos anos, andava cá por casa o "Temor e Tremor" - que iniciei algumas vezes sem conseguir terminar a leitura. O que entretanto já aconteceu. E foi uma leitura determinante no que toca à fé que me possui (não o contrário). Agora encetei o "OU-Ou, Um fragmento de vida" do qual reproduzo alguns textos a seguir:

Tal como na lenda sucedeu com Parmenisco que na caverna de Trofónio perdeu a capacidade de rir, recuperando-a na ilha de Delfos ao pôr os olhos no cepo informe que supostamente representava a imagem da deusa Leto, também assim sucedeu comigo. Quando era muito jovem, esqueci-me de como rir na caverna de Trofónio, quando me tornei adulto, quando abri os olhos e observei a realidade, dei comigo a rir e nunca mais parei desde essa altura. Vi que a significação da vida consistia em ganhar o pão e ter por objectivo ser conselheiro do tribunal, que a rica volúpia do amor era arranjar uma rapariga abastada, que na amizade a suprema felicidade era a ajuda recíproca nas dificuldades financeiras; vi que era sabedoria o que a maioria admitia como tal; que era entusiasmo fazer um discurso; que era coragem arriscar ser multado em dez táleres, que era gentileza desejar bom proveito depois da refeição; que era temor a Deus ir uma vez por ano à comunhão.


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A aspiração social e a bela simpatia sua concomitante espalham-se cada vez mais. Em Leipzig, fundaram uma comissão que, em simpatia com o pesaroso fim dos cavalos velhos, decidiu comê-los.

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Tenho apenas um único amigo, é o eco; e porque é ele meu amigo? Porque amo os meus pesares e ele não os leva de mim. Tenho apenas um único confidente, é o silêncio da noite; e porque é ele meu confidente? Porque se cala.


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Talvez eu tenha chegado ao conhecimento da verdade; à felicidade suprema, de certeza que não. Que hei-de eu fazer? Actuar no mundo, respondem os homens. Haveria eu nesse caso de comunicar ao mundo o meu pesar, de dar mais um contributo para demonstrar como tudo é pesaroso e medíocre, de porventura descobrir uma nova mancha na vida humana que até aí permanecera desconhecida? Poderia então alcançar a recompensa de alcançar renome, tal como o homem que descobriu as manchas de Júpiter. Prefiro entretanto ficar calado.







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