2013-05-05






O grito da cigarra ergue a tarde a seu cimo e o perfume do orégão invade a felicidade. Perdi a minha memória da morte e da lacuna da perca e do desastre. A omnipotência do sol rege a minha vida enquanto me recomeço em cada coisa. Por isso trouxe comigo o lírio da pequena praia. Ali se erguia intacta a coluna do primeiro dia - e vi o mar reflectido no seu primeiro espelho. Ingrina.
É esse o tempo a que regresso no perfume do orégão, no grito da cigarra, na omnipotência do sol. Os meus passos escutam o chão enquanto a alegria do encontro me desaltera e sacia. O meu reino é meu como um vestido que me serve. E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo: nesta manhã eu recomeço o mundo.


Sophia de Mello Breyner Andresen in Obra Poética
Caminho





2 comentários:

  1. Continuo a perguntar-me como é que uma Senhora com a Sophia consegue parir um troglodita como o Miguel que, para cúmulo, juntou os trapos com a Caeiro!
    Beijos

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  2. mistérios da vida...

    Beijos, Lino

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