2013-06-30




Confissão  

De um e outro lado do que sou,
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.

Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece. 



Nuno Júdice, in "Meditação sobre Ruínas"


porque hoje é domingo



Foi para a verdadeira liberdade que Cristo nos libertou.
Portanto, permanecei firmes
e não torneis a sujeitar-vos ao jugo da escravidão.
Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade.
Contudo, não abuseis da liberdade
como pretexto para viverdes segundo a carne;
mas, pela caridade,
colocai-vos ao serviço uns dos outros,
porque toda a Lei se resume nesta palavra:
«Amarás o teu próximo como a ti mesmo».
Se vós, porém, vos mordeis e devorais mutuamente,
tende cuidado, que acabareis por destruir-vos uns aos outros.

da carta ao Gálatas, 5 


Preto no branco, Paulo incita a viver de acordo com o caminho de Jesus. O caminho da liberdade.
Muitas vezes, demasiadas vezes, o contexto religioso torna-se o oposto a este viver de forma livre. E não é por excesso de liberdade, como tantas vezes se cede à tentação de afirmar.
Só é possível viver na liberdade, quando não se tem medo das inseguranças (que são inerentes a cada pessoa) e se aceita que o outro seja diferente. 



2013-06-29

eu acredito



Milagres 


Ora, quem acha que um milagre é alguma coisa de especial?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres:
ou ande eu pelas ruas de Manhattan,
ou erga a vista sobre os telhados
na direcção do céu,
ou pise com os pés descalços
bem na franja das águas pela praia,
ou fale durante o dia com uma pessoa a quem amo,
ou vá de noite para a cama com uma pessoa 

a quem amo                                                                                     
ou à mesa tome assento para jantar com os outros,
ou olhe os desconhecidos na carruagem
de frente para mim,
ou siga as abelhas atarefadas
junto à colmeia antes do meio-dia de verão
ou animais pastando na campina
ou passarinhos ou a maravilha dos insectos no ar,
ou a maravilha de um pôr-de-sol
ou das estrelas cintilando tão quietas e brilhantes,
ou o estranho contorno delicado e leve
da lua nova na primavera,
essas e outras coisas, uma e todas
— para mim são milagres,
umas ligadas às outras
ainda que cada uma bem distinta
e no seu próprio lugar.

Cada momento de luz ou de treva
é para mim um milagre,
milagre cada polegada cúbica de espaço,
cada metro quadrado da superfície da terra
por milagre se estende, cada pé
do interior está apinhado de milagres.

O mar é para mim um milagre sem fim:
os peixes nadando, as pedras,
o movimento das ondas,
os navios que vão com homens dentro
— existirão milagres mais estranhos?


Walt Whitman, in "Leaves of Grass"


2013-06-26

Habemus Papam




Só vi há dias o filme "Habemus Papam" de Nanni Moretti. E constatei  o quanto  é profético em relação ao que está a acontecer com a eleição de Francisco.
Um papado humanizado, suponho que não esteja a agradar por aí além. E deve causar sobressaltos, a todos os que se apegam à mágica força dos símbolos, para ignorarem a fragilidade que toda a vida comporta, por mais sacramentos e sacramentais com que seja sagrada.



2013-06-18

(Pope Francis attends the opening of the Pastoral Convention of the Diocese of Rome at the Vatican, June 17, 2013.
REUTERS/Stefano Rellandini)


O que me cativa nesta foto recente (de ontem mesmo) do Papa Francisco, é o contraste da pessoa que todos os dias é notícia pelo que vai verbalizando e que aqui é retratado numa imagem de abandono. Uma imagem que interpela tanto ou mais que as tais palavras todos os dias proferidas.





Há antagonismos que já não fazem sentido. Por exemplo: ser católico e comunista. Nesta entrevista, para a qual recomendo a leitura completa, o entrevistado expõe:"En Italia, durante mucho tiempo no se podía ser cristiano sin ser democristiano, no se podía ser anticapitalista sin ser ateo. Eso no existe más. No creo eso" e sobre a fé:“¿Existe Dios? ¿Cómo se llega a saber? Estoy convencido de que creo que debo creer en Dios, pero no sé si creo que Dios exista. Creer en Dios para mí significa tomar los textos de mi tradición y pertenecer a ese curso de acontecimientos. Sin esa pertenencia, no estoy ahí. Si Dios existe, mejor. No es que yo esté en contra. Creo que en el origen de mi libertad existe una libertad análoga, sin la cual mi libertad no se explicaría: eso me parece la prueba decisiva. No sé si llamarlo Dios o Jesucristo, pero me siento dependiente de una libertad originaria que en mi tradición occidental judeocristiana se llama Dios y se llama Jesucristo. Pero no puedo encerrar a Dios en un estuchecito." 



2013-06-16

porque hoje é domingo




E Jesus disse à mulher:"A tua fé te salvou. Vai em paz."


[Lc 7,50]







"Vês esta mulher?”

Há uma enorme diferença entre ver e ver. Ver porque temos olhos e não somos cegos, e ver com a atenção de quem contempla e se maravilha. Ver porque há luz e movimento, e ver para além, do preconceito e da tentação de julgar. Ver com o desencanto de quem julga que já viu tudo, e ver com a alegria de descobrir como tudo é novo. Por isso a cegueira é muito mais do que uma doença dos olhos ou uma escuridão que atemoriza; é também a recusa em ver como Deus vê!
Jesus insiste constantemente num novo “ver”, um olhar renovado sobre a vida humana e o próprio Deus. Na cena surpreendente em casa de Simão os contrastes são enormes. De um lado um fariseu fiel à lei, plenamente seguro de si, de fazer parte dos “bons”, daqueles que têm Deus do seu lado. Do outro, uma prostituta conhecida de todos, ajoelhada aos pés de Jesus, plenamente humilhada, certa de que não tem lugar naquele mundo, de fazer parte dos “maus”, daqueles que o Deus dos poderosos nunca se lembra. No meio, Jesus, que não rejeita ser tocado pelas lágrimas, pelos cabelos e pelos lábios da mulher. Que deixa-a ungir os pés com perfume. E conta uma história. Fala de dívida e de perdão. De pecado e de amor. E mostra como o essencial do acolhimento não foi feito pelo anfitrião mas pela mulher de má-vida. Afinal a única que soube amar. E por isso tudo lhe é perdoado!
O fariseu e a mulher representam duas atitudes também religiosas. A do fariseu, cheio de méritos, praticante impecável do brique-a-braque de rezas e liturgias, digno de julgar os outros para manter-se distante e preservado do pecado em que que vivem, mas incapaz de hospitalidade e de acolhimento amigo. A da mulher, despida de qualquer mérito, envergonhada e silenciosa, mas com coragem de arriscar o que lhe dita o coração, e capaz de amar, amar apenas, deixando-se arrastar pelo amor. Pobre fé e triste relação com Deus, feita de preceitos e obrigações, de escrúpulos e julgamentos, sem a ousadia de romper as correntes que aprisionam o coração e a mente, ou a coragem de ser autêntico.
Há um enorme risco no perdão. É o risco de amar sem medida, sem exigir retorno, apenas amar e ter esperança. E o perdão exige ver como Jesus. Ver a pessoa para lá dos actos, ver o futuro sem ficar preso ao passado. É não ficar na proteção da redoma, intocável e inflexível, e por isso congelado numa falta de amor. Deus derrete-se por nós, vai às últimas consequências, perdoa e salva onde nos especializamos em condenar e excluir. É um amor exigente mas nunca intransigente. Porque vê. Estamos dispostos a ver também? Ou contentamo-nos em pôr mais seguranças à porta de casa não vá alguma prostituta perturbar o nosso jantar de festa para o qual convidámos Jesus?




2013-06-15

mulheres do jardim

 
 
Nunca serei vencida.
Não o serei
senão à força de vencer.

Cada armadilha estendida
fechando-me cada vez mais
no amor
que acabará por ser o meu
túmulo,
acabarei a minha vida numa cela
de vitórias.

Sozinha,
a derrota encontra chaves,
abre portas.

A morte,
para atingir o fugitivo,
tem de se pôr em movimento,
perder essa fixidez
que nos faz reconhecer
que ela é o duro contrário
da vida.

Ela dá-nos o fim do cisne
atingido em pleno voo,
de Aquiles agarrado pelos cabelos
por não sabermos que sombria Razão.

Como a mulher asfixiada no vestíbulo
da sua casa de Pompeia,
a morte não faz mais do que prolongar
no outro mundo os corredores
da fuga.

A minha morte será
de pedra.

Conheço as passagens,
as curvas,
as armadilhas,
todas as minas da Fatalidade.

Não posso perder-me.

A morte,
para me matar,
terá necessidade da minha
cumplicidade.





marguerite yourcenar
fogos
trad. de maria da graça morais sarmento
difel
1995
 
[roubei daqui]





Como o Manuel aqui referia há dias, o papa Francisco vai dando voz a algumas ideias refrescantes (e como elas fazem falta dentro da Igreja). Mais um exemplo:

“Não queiram domesticar as fronteiras, vocês devem ir até elas” e "a vossa tarefa principal não é construir muros, mas pontes; é estabelecer um diálogo com todos os homens, mesmo aqueles que não partilham a fé cristã, mas cultivam o valores humanos” [e até com aqueles que] “se opõem à Igreja e a perseguem de várias maneiras”. [daqui]




2013-06-09



Hoje sabemos que o sagrado pode ser violento ou pacifista. Tal é a alternativa que existe no fundo de todas as religiões da humanidade. O sagrado violento gera inimizade, morte e ressentimento, pois é um reflexo identitário. O bom das religiões é a relação ao mistério divino que não requer vítimas nem verdugos, tão pouco deuses intervencionistas e fazedores de milagres. Porém, é a contemplação da presença amorosa do divino no mundo que dá orientação à existência e à prática de vida.

daqui 



porque hoje é domingo






*Vendo-a, o Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: «Não chores.» [Lc 7,13]



2013-06-06




[quem é que se consegue concentrar a rezar num aeroporto cheio de gente, por exemplo, ou à beira de uma lixeira, ou no "casal ventoso"] - li por aí. rezar não é fazer um exame.mas devemos examinar que oração queremos e praticamos: uma oração movida para a entrega ou para o consolo?







2013-06-03



Depois de ler isto, só me ocorre:"esse método estóico de bastar às nossas necessidades suprimindo os nossos desejos, equivale a cortarmos os pés para já não precisarmos de calçado"

(Brassai - Paulette et André)



O tempo em que as maiorias declaravam os seus interesses e opções como naturais e universais banindo, criminalizando ou medicalizando as formas de existência dos Outros, acabou. As famílias são, geralmente, um sítio excelente para as crianças crescerem e se desenvolverem. As famílias – no plural, na sua diversidade, até onde vai o entendimento. E além, mais além.

Luís Januário, aqui

2013-06-01



É frequentemente apontada a falta de alegria dos cristãos. Ainda há pouco o papa, numa das suas homilias, recomendava que os cristãos "não vivessem com cara de cortejo fúnebre". Mas uma alegria para ser contagiante tem de vir de "dentro", não bastam sorrisos amarelos.
Mas como será possível soltar essa alegria quando de teima enfaticamente nesta mensagem:"Os cristãos crêem que a culpa da crucificação pertence a todos os homens. Todos os homens que já existiram e todos os homens que estão por existir são culpados da morte de Cristo. É um assassínio de um homem apenas cometido por milhões e milhõesde homens."Quem vive com uma culpa imposta, que racionalmente nem entende, pode alguma vez expressar alegria e contentamento, por mais que lhe digam que é assim que deve viver?