2013-06-16



"Vês esta mulher?”

Há uma enorme diferença entre ver e ver. Ver porque temos olhos e não somos cegos, e ver com a atenção de quem contempla e se maravilha. Ver porque há luz e movimento, e ver para além, do preconceito e da tentação de julgar. Ver com o desencanto de quem julga que já viu tudo, e ver com a alegria de descobrir como tudo é novo. Por isso a cegueira é muito mais do que uma doença dos olhos ou uma escuridão que atemoriza; é também a recusa em ver como Deus vê!
Jesus insiste constantemente num novo “ver”, um olhar renovado sobre a vida humana e o próprio Deus. Na cena surpreendente em casa de Simão os contrastes são enormes. De um lado um fariseu fiel à lei, plenamente seguro de si, de fazer parte dos “bons”, daqueles que têm Deus do seu lado. Do outro, uma prostituta conhecida de todos, ajoelhada aos pés de Jesus, plenamente humilhada, certa de que não tem lugar naquele mundo, de fazer parte dos “maus”, daqueles que o Deus dos poderosos nunca se lembra. No meio, Jesus, que não rejeita ser tocado pelas lágrimas, pelos cabelos e pelos lábios da mulher. Que deixa-a ungir os pés com perfume. E conta uma história. Fala de dívida e de perdão. De pecado e de amor. E mostra como o essencial do acolhimento não foi feito pelo anfitrião mas pela mulher de má-vida. Afinal a única que soube amar. E por isso tudo lhe é perdoado!
O fariseu e a mulher representam duas atitudes também religiosas. A do fariseu, cheio de méritos, praticante impecável do brique-a-braque de rezas e liturgias, digno de julgar os outros para manter-se distante e preservado do pecado em que que vivem, mas incapaz de hospitalidade e de acolhimento amigo. A da mulher, despida de qualquer mérito, envergonhada e silenciosa, mas com coragem de arriscar o que lhe dita o coração, e capaz de amar, amar apenas, deixando-se arrastar pelo amor. Pobre fé e triste relação com Deus, feita de preceitos e obrigações, de escrúpulos e julgamentos, sem a ousadia de romper as correntes que aprisionam o coração e a mente, ou a coragem de ser autêntico.
Há um enorme risco no perdão. É o risco de amar sem medida, sem exigir retorno, apenas amar e ter esperança. E o perdão exige ver como Jesus. Ver a pessoa para lá dos actos, ver o futuro sem ficar preso ao passado. É não ficar na proteção da redoma, intocável e inflexível, e por isso congelado numa falta de amor. Deus derrete-se por nós, vai às últimas consequências, perdoa e salva onde nos especializamos em condenar e excluir. É um amor exigente mas nunca intransigente. Porque vê. Estamos dispostos a ver também? Ou contentamo-nos em pôr mais seguranças à porta de casa não vá alguma prostituta perturbar o nosso jantar de festa para o qual convidámos Jesus?




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