2013-07-18

da "descrição de uma luta"


O rio era largo e as suas ondas pequenas e barulhentas reflectiam a luz. Na outra margem havia prados que, mais ao longe, se fundiam em arbustos, por trás destes, já bem distantes, podíamos ver alamedas de árvores de fruto que conduziam a colinas verdes.
Feliz com esta vista, permaneci deitado, tapando os ouvidos contra o ruído horrível dos soluços e pensei:"Aqui podia ser feliz. Pois é um sítio recatado e lindo. Não era necessário ser-se muito corajoso para se viver aqui. Terei que lutar aqui como em qualquer outro lugar mas, pelo menos, não terei que me preocupar em fazer movimentos graciosos. Isso não será necessário. Pois aqui há somente montanhas e o vasto rio, e eu tenho o bom senso de pensar neles como inanimados. Sim, quando durante a noite caminhar inseguro e sozinho entre os prados, estarei tão abandonado como as montanhas, a única diferença é que serei capaz de sentir esse abandono. Mas, penso que até isso irá passar".
Por conseguinte brinquei com a minha vida futura e tentei obstinadamente esquecer. E todo o tempo olhei o céu, que tinha uma cor fora do vulgar, piscando os olhos. Já passara muito tempo desde que eu o tinha notado assim daquela cor; estava comovido e recordei outros tempos em que pensava tê-lo visto daquela forma. Tirei as mãos dos ouvidos, estiquei os braços e deixei-os cair na erva.
Ouvia alguém a soluçar baixinho, ao longe. Um vento começou a soprar forte e um monte de folhas, que eu não vira antes, levantou-se lutando no ar. Fruta verde foi arrancada intensamente das árvores com um ruído surdo, caindo no chão. Nuvens hediondas elevavam-se por trás da montanha. As ondas batiam no rio e afastavam-se do vento.
Levantei-me rapidamente. O meu coração doía-me, pois agora parecia impossível fugir do meu sofrimento. Estava prestes a regressar à minha vida antiga e a abandonar esta região, quando me ocorreu a seguinte ideia:"Como é estranho que até aos nossos dias, pessoas distintas sejam transportadas pelo rio deste modo complicado. A única explicação é tratar-se de uma tradição já antiga". Abanei a cabeça, pois estava surpreendido.


Franz Kafka in "Descrição de uma Luta"

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