2013-07-27

"era algo para lá de todo e qualquer tipo de contentamento"


Não são necessárias muitas palavras para expressar o que foi a apresentação do livro do Henrique: celebração da Vida! E basta de palavras, o melhor é deixar o Henrique a falar disso:

ANTONIA POZZI


Um dia acordei invisível e tudo me pareceu suportável. Andei pelas ruas como um anjo na terra, não atormentei ninguém, nem deixei que me atormentassem os olhos dos outros. Estava bom tempo. Sentei-me numa esplanada e abri um livro sobre a mesa. Quem olhasse para aquela mesa não me veria, iria apenas reparar num livro que julgaria perdido. Era o meu livro. Folheava-o. Passava as páginas como se fosse o vento, as pontas dos meus dedos sopravam as páginas de um lado para o outro. Quem olhasse as páginas a passarem de um lado para o outro julgaria que era o vento. E era, porque eu era o vento.
Foi no dia em que acordei invisível, a três de Dezembro. Apanhei as pessoas distraídas e servi-me de um copo de cerveja. Uma bênção. Que estranho, pensavam as pessoas que passavam e olhavam para uma mesa vazia. Sobre a mesa, apenas aquele copo de cerveja e um livro aberto. Ninguém me via. Fui bebendo a cerveja. O copo ia ficando vazio. Quem o olhasse estranharia, pensaria que ali se passava um acelerado processo de evaporação. E passava. Eu era vapor, nos meus lábios o vapor de um dia, da minha boca para fora uma nuvem de vapor que ninguém via. Apenas eu, que ali sentado folheava um livro e bebia uma cerveja.
Eu era um vapor redundante na boca do vento, exagerava talvez esse esforço inútil a que nos dedicamos sempre que pretendemos meter nas palavras a areia que nelas não cabe. As palavras estão cheias de si, nada lhes podemos acrescentar que elas não tenham já.
Então vi Antonia passar. Fui atrás dela. Não como que perseguindo-a, porque não a perseguia. Na verdade, pouco me ralava onde iria, o que fazia, apenas queria saber se estava bem. E invisivelmente persegui Antonia até uma nova realidade. Antonia tinha uma caminhada encantadora. Entrou numa imagem, e dessa imagem saltou para outra imagem, atravessou túneis longínquos de imagens fantasiosas, tinha a voz de um anjo, o rosto engenhoso de quem sonha e não se importa de oferecer alegria aos olhos. Eu amava Antonia, amo-a. Penso nela a todas as horas do dia. Mas não quis fazê-la sofrer, deixei-me ficar invisível e meti-me por atalhos obscuros, pensei que talvez pudesse ser salvo pela tristeza. De uma atmosfera assim, tudo o que podemos esperar é indiferença.
Trouxe à flor da pele a revolução disfarçada de um corpo. Senti-me triunfante. Já não estava tão invisível, se bem que ninguém reparava em mim. Voltei à mesma esplanada, à mesma mesa, com o mesmo livro e o mesmo copo de cerveja. Agora qualquer pessoa podia ver-me, mas ninguém notava. Era como se eu não estivesse ali, como se a mesa permanecesse desocupada. Na verdade, eu retirara graça a uma mesa vazia. Eu era a esfinge que destoava numa paisagem toldada.
Idiota, disse a mim mesmo. Para quê pretender um corpo que ninguém toca, que ninguém vê, que ninguém suporta?
Fui para casa ouvir música. Eu era outra coisa quando ouvia música. Já não era o vento nem um vapor na boca do vento, nem sequer era um corpo, era algo para lá de todo e qualquer tipo de contentamento. Era a finíssima dor do silêncio quando é atravessada pelo som,
era uma linha ténue que separa o dentro do fora,
era essa pele esticada de onde retiraste o baque de um coração espontâneo,
era um ritmo que não glosa o tempo,
nem a luz que no imo
desse tempo se faz treva e ilumina,
era uma coisa cheia de vazio,
a nuvem de pó que se levanta
quando à passagem da tempestade as raízes de um coro de árvores
gritam em uníssono pelas folhas arrancadas,
e as flores choram o pólen que parte para lugares insondáveis e de lá nunca mais volta.

Henrique Manuel Bento Fialho in Suicidas



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