2013-08-30

s/título

Agosto 2013



O nosso presente é enfaticamente, e não apenas logicamente, o ponto em suspenso entre um já-não e um ainda-não.



Hannah Arendt in "Homens em tempos sombrios"





2013-08-28

eis o homem





A Free Syrian Army fighter feeds a cat in al-Jdeideh neighbourhood in the old city of Aleppo, August 27, 2013.
REUTERS/Ammar Abdullah


2013-08-25

porque hoje é domingo

 (25/8/2013)


Opus Dei

As borboletas não desistem,
inconscientes de seu nome impróprio.
As estações renovam-se sem erro
e teimas ainda em te certificares de que não é pecado dizeres:
Ó beleza, sois a minha alegria.
Abre-te, Jonathan é apenas um homem,
se lhe torceres o lábio zombateira,
a lança dele reflui.
Um insecto esgota a razão toda,
rói com a sabedoria as sumas,
uma gota de seiva mata um homem.
Portanto entrega-te,
ao que te faz tão bela quando ris.
A ópera não é bufa,
é só um não-saber rasgado de clarões.
Se Jonathan for Deus estarás certa
e se não for, também,
porque assim acreditas
e ninguém é condenado porque ama.


Adélia Prado in "A faca no peito"

2013-08-24

assim suspensos


18/08/2013

poetas

O pão e o vinho

[...]

Mas nós, amigo, chegamos demasiado tarde. Certo é que os deuses vivem,
Mas  acima de nós, lá em cima noutro mundo.
Aí o seu domínio é infinito e parecem não se importar
Se estamos vivos, tanto nos querem poupar.
Pois nem sempre pode um frágil vaso contê-los,
O homem apenas algum tempo suporta a plenitude divina.
Depois toda a nossa vida é sonhar com eles. Mas os erros,
Tal como o sono, ajudam, e a necessidade e a noite fortalecem,
Até que haja suficientes heróis, criados em berço de bronze,
De coração corajoso, como dantes, semelhantes aos Celestiais.
Depois eles chegam, trovejantes. Entretanto penso por vezes
Que é melhor dormir do que estar assim sem companheiros,
Nem sei perseverar assim, nem que fazer entretanto,
Nem que dizer, pois para que servem poetas em tempo de indigência?
Mas eles são, dizes, como sacerdotes santos do deus do vinho,
Que em noite santa vagueavam de terra em terra.

[...]

Friedrich Hölderlin in Elegias

2013-08-23

a fé não faz parar comboios


No es verdad, aunque el dicho religioso popular lo pregone. Aunque alguien tenga fe como para parar trenes, a fuerza de rezos no se activan frenos. Dios no interviene, ni para causar descarrilamientos, ni para evitar que sucedan.
“¿Dónde estaba Dios en la curva de Angrois? ¿Qué hacía Dios en Santiago a la hora fatal?” Dios estaba en las manos y pies del pueblo que se arrojó a ayudar sin pensárselo un instante, estaba en los ojos y el corazón de cuantas personas se volcaron en la ayuda. Dios estaba donde yo no estuve, porque la desgracia me interpela: Si ocurriera lo mismo en mi cercanía, ¿haría yo lo que hicieron quienes fueron manos de Dios para las víctimas?... La tragedia no cuestiona mi fe en Dios, sino mi práctica de la fe.
Un amigo que sufría la pérdida repentina de su esposa por una enfermedad fulminante, se desahogaba contándome su tragedia. “Ayer fui a la iglesia, decía, pero no podía rezar. Solo podía quejarme: ¿Por qué esto? ¿Por qué a ella?” Algunos parientes, muy practicantes, le reprochaban: “Tú tienes fe, no debes quejarte, le decían, eso ofende a Dios, tu mujer está con Él, mejor rezar por ella”. A mi amigo estas palabras le sonaban vacías, pero le hacían sentirse mal. Me preguntó: “¿A tí que te parece? ¿Hago mal en quejarme?” “¡Qué va! Quejarte a Dios y preguntarle por qué es la única oración que te saldrá de dentro en estos momentos. Así cuentan los evangelios que rezó Jesús antes de morir: “¡Dios mío! ¿Por qué me pasa esto? ¿Es que me has abandonado?” (Marcos 15, 34).
La noche del sábado, ví un programa de televisión que rememoraba a fallecidos y supervivientes. El presentador interrogó: “¿Será más fácil para las personas creyentes soportar estas situaciones?” Temí un “consejo piadoso” por los tertulianos, pero una psicóloga contestó sensatamente: “A veces le fe te lo pone más difícil, a la persona creyente le puede venir una crisis en su fe”. Respiré al escuchar ese comentario.
Me preocupa, en cambio, la utilización homilética de la “teología de la permisión divina” y la “aceptación resignada”. Se dice, quizás con buena intención, para consolar a quien sufre y justificar a Dios; pero ni justifica ni consuela. No vale decir: “Dios lo ha permitido” o “será para bien”. La fe madura debería decir: “Ni Dios quiere esto, ni lo permite para ningún bien. Ni lo explico, nI lo justifico. No lo entiendo y oro en forma de queja, preguntándole a Dios por qué. Y Dios no me contesta. Y me quedo en silencio como Jesús en cruz ante el silencio de Dios”.
Escucho a veces homilías presuntamente consoladoras, que no consuelan. Me inquieta la divulgación popular del dolorismo. Como si tuviese más mérito quien más sufre; como si el sufrimiento formase parte de un plan divino proyectado para sacar un bien de él; como si los dolores nos los enviase la Providencia para troquelarnos; como si Jesús hubiese pagado un precio de sangre a una divinidad airada, exigente de reparación; y un largo etcétera. Sin necesidad de haber leído la teología medieval del Cur Deus homo, de san Anselmo, el pueblo sencillo lleva siglos oyendo predicar ideologías de dolorismo. Pero la fe no soluciona el enigma del mal, ni da consuelo fácil, sino fuerza de vivir para afrontar el desconsuelo. No se cree en Dios porque resuelva el enigma del mal, sino a pesar de que no lo resuelve. Es más evangélica la teología de la queja orante, como Job, que la de la permisión divina del mal. Se queda la fe en silencio ante el silencio divino, mientras se cuestiona a sí misma: ¿Dónde voy a estar yo la próxima vez que esto ocurra? ¿Voy a servirle a Dios de manos y pies para hacer por salvar víctimas de entre los escombros?
 
Juan Masiá, aqui

2013-08-21

ELA

o que Deus diz



As coisas são como são. E uma resposta dada por Bento XVI, mesmo na intimidade do retiro em que vive,  acaba a ser difundida por diferentes meios de comunicação, a uma escala que ultrapassa os  meios da própria Igreja, sendo comentada por crentes e não crentes.

À pergunta:"Porque decidiu deixar o papado?" Parece que respondeu:"Foi Deus que me disse".

Qualquer crente esclarecido, ou pessoa de boa vontade, não precisa de mais explicações para saber o que o papa está a dizer. Se não souber, minimamente, o significado da confidência do papa, acaba, por exemplo, a escrever artigos como este.


Seduziste-me, SENHOR, e eu me deixei seduzir! Tu me dominaste e venceste. Sou objecto de contínua irrisão, e todos escarnecem de mim.[Jr 20,7] Assim escreve Jeremias, um profeta que nasceu 650 A.C.
O profeta não diz que é dominado por Deus e que deixou de ter vontade própria, diz, antes, que quer conformar a sua vontade àquilo que Deus quer para ele.
O mesmo quereria dizer o papa. Nas circunstâncias, decidiu em conformidade com o que era melhor para si próprio e para a Igreja. E não há qualquer contradição entre as razões primeiras que apontou e esta confidência que deveria ter ficado entre as pessoas que nela intervieram.




2013-08-20

o caminhante #1



Solitário olhava as desertas planícies
Africanas lá ao longe; do Olimpo chovia fogo
Torrencialmente! Quase tão pouco suavemente, como outrora, quando aqui a montanha
Foi formada e fendida pelo deus em altura e profundidade.
Mas sobre elas não jorra verdejante nenhum bosque
Que encha os ares de sons, abundante e magnífico.
A fronte da montanha não está coroada e quase desconhece
Ribeiros irrequietos, a fonte raramente alcança o vale.
Ao meio-dia não há rebanho que passe pelas águas da nascente,
Não há telhado acolhedor que nos guarde por entre árvores.
Sob o arbusto pousava um pássaro grave e mudo,
Mas, quais caminhantes, passavam, apressadas, as cegonhas.
Aí não te pedi água, ó Natureza! No deserto,
É o piedoso camelo que fielmente me guarda água.
Pedi-te o canto dos bosques, ai! Os jardins
Do Pai, que a ave, passando, evocava, na saudade da Pátria.
Mas tu disseste-me: também aqui se encontram os deuses e imperam
Grande é a sua medida, mas o homem gosta de medir a palmo.

...

Friedrich Hölderlin - Elegias
Tradução Maria Teresa Dias Furtado
Assírio& Alvim

 

2013-08-18

porque hoje é domingo


De manhã cedo essa senhora se conforma
Bota a mesa, tira o pó, lava a roupa, seca os olhos
Ah. como essa santa não se esquece de pedir pelas mulheres
Pelos filhos, pelo pão
Depois sorri, meio sem graça
E abraça aquele homem, aquele mundo
Que a faz assim, feliz
De tardezinha essas menina se namora
Se enfeita se decora, sabe tudo, não faz mal
Ah, como essa coisa é tão bonita
Ser cantora, ser artista
Isso tudo é muito bom
E chora tanto de prazer e de agonia
De algum dia qualquer dia
Entender de ser feliz
De madrugada essa mulher faz tanto estrago
Tira a roupa, faz a cama, vira a mesa, seca o bar
Ah, como essa louca se esquece
Quanto os homens enlouquece
Nessa boca, nesse chão
Depois parece que acha graça
E agradece ao destino aquilo tudo
Que a faz tão infeliz
Essa menina, essa mulher, essa senhora
Em que esbarro toda hora
No espelho casual
É feita de sombra e tanta luz
De tanta lama e tanta cruz
Que acha tudo natural.

2013-08-17

de facto



É triste uma Igreja que se coloca lado-a-lado e não uma Igreja que − qual o seu fundador −  enfrenta e afronta (Mt 5:20)! No século XXI, uma espiritualidade pessoal, que se constrói dispensando-se dos materiais sociais e da crítica aos sistemas económicos e ideológicos que fabricam des-esperança e morte é, no mínimo, ineficaz. É olhada, com certeza, pelo mundo com simpatia, mas auto-exclui-se do projecto de Deus anunciado nas bem-aventuranças (Lc 6:22-23). É uma teologia que apenas afaga o mundo: não o abana, não o deixa perturbado (Mt 2:3), não faz pensar nem dá que fazer. É como o sal que se estragou… (Mt 5:13).


Paulo Bateira, aqui


 

2013-08-01

da série: grandes poetas no jardim





Há um Deus que, interpelando-me do interior do templo, me devolve à vida.



Friedrich Hölderlin in "Elegias" - Pranto de Ménon por Diotima