2013-08-20

o caminhante #1



Solitário olhava as desertas planícies
Africanas lá ao longe; do Olimpo chovia fogo
Torrencialmente! Quase tão pouco suavemente, como outrora, quando aqui a montanha
Foi formada e fendida pelo deus em altura e profundidade.
Mas sobre elas não jorra verdejante nenhum bosque
Que encha os ares de sons, abundante e magnífico.
A fronte da montanha não está coroada e quase desconhece
Ribeiros irrequietos, a fonte raramente alcança o vale.
Ao meio-dia não há rebanho que passe pelas águas da nascente,
Não há telhado acolhedor que nos guarde por entre árvores.
Sob o arbusto pousava um pássaro grave e mudo,
Mas, quais caminhantes, passavam, apressadas, as cegonhas.
Aí não te pedi água, ó Natureza! No deserto,
É o piedoso camelo que fielmente me guarda água.
Pedi-te o canto dos bosques, ai! Os jardins
Do Pai, que a ave, passando, evocava, na saudade da Pátria.
Mas tu disseste-me: também aqui se encontram os deuses e imperam
Grande é a sua medida, mas o homem gosta de medir a palmo.

...

Friedrich Hölderlin - Elegias
Tradução Maria Teresa Dias Furtado
Assírio& Alvim

 

4 comentários:

  1. Holderlin é um tipo que já ando para conhecer há séculos... isto é, mais profundamente, com livros. O que conheço é disperso. Já li versos e poemas muito bons, dele. Mas parece-me que gosto mais do nosso Camões.

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  2. comprei há pouco estas elegias. óptimas para rezar.
    eu não sei comparar assim as grandezas dos poetas. sei q descobri a Adélia Prado, por exemplo, e senti uma profunda identificação. :)

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  3. Adélia Prado, eu, só mesmo o nome. Eu sou «poeta» mas não leio muita poesia. Prefiro os calhaus dos romances e o ensaio. O Ulisses, desculpe a palavra, é fodido de ler. :)

    E depois, no Ulisses, aquilo é tudo 80% de imaginação e propósito «teórico», «intenção». Desvanece a realidade e engana-nos.

    Eu acho que, à medida que envelheço (e é muito bom envelhecer, especialmente dos 25 até aos 30, pelo menos eu sinto-me no topo das minhas faculdades físicas e mentais :), prefiro os escritores que usam menos a imaginação e mais a sua vida, as suas experiências. Um Céline, um Conrad, um Lobo Antunes...

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  4. ó caraças, somos almas gémeas :)

    descobri aqui na neti a Adélia Prado, já comprei, por pura sorte, alguma coisa dela. uma pessoa amiga, sem saber desta minha predilecção, disse-me: "tenho de te emprestar um livro da Adélia Prado. acho que vais gostar, tem a ver contigo." :)

    porque ler a Adélia Prado é ler a vida com olhos amorosos e rendentores. para além de ser uma mulher consciente e reconciliada com o seu corpo...há bastante por aqui nos arquivos do jardim.

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