2013-09-12

porque a justiça está antes da caridade



 Assim, chamava "Filhos e Irmãos" aos assaltantes e assassinos das cadeias, e para que não se tratasse de meras palavras ocas, contava-lhes que em criança roubara uma maçã e não se deixara apanhar, e que um dos seus irmãos fora apanhado a caçar sem licença. E quando o levaram «à ala onde estavam encerrados os incorrigíveis», ordenou:"Abram as portas. Não os separem de mim. São todos filhos de Deus Nosso Senhor." É certo que isto não é mais do que a boa e antiga doutrina cristã, mas havia muito tempo que não passava de doutrina, e nem mesmo a encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, «o grande papa do povo trabalhador», impedia o Vaticano de pagar salários de fome aos empregados. O hábito desconcertante que o novo papa tinha de conversar com toda a gente chamou quase de imediato a sua atenção para este escândalo. Segundo Alden Hatch, ele terá perguntado a um trabalhador:"Então, como vai isso?" "Vai mal, vai mal, Vossa Eminência", respondeu o homem, dizendo-lhe quanto ganhava e quantas bocas tinha para alimentar. "Temos de tratar disso. É que, aqui entre nós, eu não sou Vossa Eminência, sou o Papa", ou seja, deixe lá os títulos, sou eu quem manda aqui e posso mudar algumas coisas. Quando, mais tarde, lhe disseram que só cortando nas obras de caridade se poderia prover a um aumento das despesas, ficou imperturbável:"Então é o que temos de fazer. Porque...a justiça está antes da caridade."

[Hannah Arendt in "Homens em Tempos Sombrios - João XXIII"


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