2013-09-04

recusa



Tu leitor julgavas que ali debaixo do alpendre o meu olhar estava apontado para os ponteiros recortados como alabardas de um redondo relógio de velha estação, no vão esforço de fazê-los andar para trás, a percorrer em sentido contrário o cemitério das horas passadas jacentes exangues no seu panteão circular. Mas quem te diz que os números do relógio não se debruçam de janelinhas rectangulares e eu não vejo cada minuto cair-me em cima de repente como a lâmina de uma guilhotina? Seja como for, o resultado não mudaria muito: mesmo avançando num mundo todo polido e escorregadio a minha mão contraída no pequeno leme da mala de rodízios não deixaria de exprimir uma recusa interior, como se aquela ligeira bagagem constituísse para mim um peso ingrato e extenuante.


Italo Calvino in "Se Numa Noite de Inverno Um Viajante"

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