um cuidar em vias de extinção, suponho
Esqueço essa estranha conversa. Volto a fixar o vulto da viúva. Conheço-a vagamente. É bonita, inteligente, emancipada. Imagino que, ao contrário de mim, não encontre satisfação na simples ostentação do seu corpo.Tenho a certeza de que não voltará a entrar no cemitério. Cuidar dos mortos deve parecer-lhe uma mania de gente ignorante, uma tradição obsoleta, até estúpida.A ideia da campa degradando-se lentamente, enchendo-se de estrelas de bolor preto, entristece-me. Uma rajada de vento forte desequilibra-me e faz-me pisar uma poça de lama. Enquanto raspo o salto do sapato ao bordo de um aviso camarário, tomo uma decisão: não pude cuidar do Jaime vivo, cuidarei dele morto.
Sem comentários:
Enviar um comentário