2013-11-30

Etty Hillesum





“abro a Bíblia ao acaso e eis o que encontro: O Senhor é o meu alto refúgio. Estou sentada em cima da minha mochila, no meio do vagão cheio. O pai, a mãe e o Mischa estão nos vagões mais à frente. A partida acabou por chegar inesperadamente. De ordens repentinas de Haia, especialmente para nós. Deixámos o campo a cantar, o pai, a mãe firmes e calmos, tal como o Mischa. Viajaremos durante três dias. Obrigada pelos vossos cuidados. Amigos que ficaram para trás hão-de escrever para Amesterdão; talvez venhas a receber notícias por eles. E pela minha última carta longa. Até à vista, de nós os quatro. Etty”


Etty Hillesum morreu em Auschwitz no dia 30 de novembro de 1943

2013-11-25





Um dizer ainda puro

imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.


dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.


diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

 

Vasco Gato (n.1978)


2013-11-24

porque hoje é domingo


Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude
e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas,
estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz,
com todas as criaturas na terra e nos céus.
[Paulo aos Colossences 1]

2013-11-21

de onde nos vem o socorro




É incontestável, em primeiro lugar, que não nos criámos a nós mesmos e que estamos no mundo graças a alguma coisa que não somos nós. Tomamos consciência deste facto quando pensamos simplesmente que seria possível não existirmos.
É incontestável, em segundo lugar, que não somos livres graças a nós próprios, mas sim graças ao que, no fundo da nossa liberdade, se nos oferece a nós próprios: ainda que o queiramos, isso não chega para nos tornarmos livres. No auge da liberdade ganhamos consciência do facto de sermos para nós um dom: a nossa liberdade faz-nos viver, mas não podemos nós próprios consegui-la pela força.
Essa coisa pouca que não podemos conquistar - nem pela «revolta de Prometeu», nem isolando o nosso «eu» até torná-lo o centro do ser, nem arrancando-nos nós ao pântano pelos próprios cabelos, como Munchhausen -, de onde pode ela vir-nos? E de onde o socorro?
Este não se manifesta como um processo do mundo. Não vem do exterior. Porque, sentimo-lo, é no mais profundo de nós que nós nos encontramos quando nos tornamos nós próprios. Em parte alguma a transcendência fala de maneira directa, ninguém a tem diante de si, ela não se deixa captar. Deus não fala senão através da nossa liberdade. A decisão fundamental é aquela de que depende a maneira de apreender conscientemente a nossa condição de homem. Enquanto homem, não nos bastamos nunca, não somos o nosso único fim. Estamos vinculados à transcendência. Ela exalta-nos e, ao mesmo tempo, torna-nos transparentes a nós próprios, dando-nos consciência do pouquinho que somos.

Karl Jaspers, in 'Panorama das Ideias Contemporâneas'



# foto by Bill Brandt

2013-11-18

busca






Pelos campos fora
Caminhava sempre
Como se buscasse 
Uma presença ausente [...]


Shophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética,
Caminho

o inquérito



Ainda não decidi se vou responder. Se o fizer, vai ser on-line e envio para um dos sites que se prestam a fazê-lo seguir para a Conferência Episcopal. Mas reconheço a importância do mesmo para a Igreja, tanto mais quando vejo outros a desvalorizá-lo dizendo que não é nenhuma "novidade". Pois não, para os bispos e padres será prática corrente, o inusitado (proporcionado pela aldeia global em que nos tornámos, mais o facto de ter sido eleito um papa com forte sentido pastoral)é o mesmo ser aberto a qualquer fiel leigo. E não só.



2013-11-17

porque hoje é domingo





Mas para vós que temeis o meu nome,
nascerá o sol de justiça,
trazendo nos seus raios a salvação.



Malaquias, 4



a nossa sede de justiça



Na maior parte das vezes, os nossos desejos de justiça, não são mais do que projecções do nosso ego que quer sentir-se gratificado.

Todo o acto bom ou mau, já comporta em si mesmo o prémio ou o castigo. «E Deus viu que tudo era bom». Porque para Deus, que é Amor e Justiça, tudo está em equílibrio a cada momento.

2013-11-11



AO JARDIM O MUNDO

Ao jardim o mundo outra vez ascendendo,
Poderosos companheiros, filhas, filhos, preludiando,
O amor, a vida dos seus corpos, significando e sendo,
Olhai a minha estranha ressurreição depois do sono,
Os ciclos que se revolvem na sua ampla trajectória acompanharam-me outra vez,
Afectuoso, maduro, tudo é belo para mim, tudo me assombra,
Os meus membros e o fogo que neles arde por alguma razão e me espanta,
Existindo, surjo e penetro,
Feliz pelo presente, feliz pelo passado,
A meu lado ou nas minhas costas Eva segue-me,
Ou vai à frente e eu sigo-a, tanto faz.




Walt Whitman in Folhas de Erva

tradução José Agostinho Baptista
Assírio & Alvim

2013-11-10

"silêncio que de mim se desamarra"

a vida em nós





Na minha percepção, a vida não é nem temporal, nem material, nem espiritual. A vida é simplesmente eterna. Ela se aninha em nós e, passado certo lapso temporal, ela segue o seu curso pela eternidade afora. Nós não acabamos na morte. Transforma-mo-nos pela morte, pois ela representa a porta de ingresso ao mundo que não conhece a morte, onde não há o tempo; mas, só a eternidade.


2013-11-07

2013-11-06

pluralismo



pode-se viver muito bem com um outro deus, ou sem Deus, e não ser menos homens ou pelo menos não piores, para que serve o Evangelho? Somos conduzidos à redescoberta da gratuidade absoluta de Deus, já expressa no evangelho, mas muito ignorada.


2013-11-02

"às vezes o amor"


bom fim-de-semana


o que nos faz humanos



Na verdade, quem condena não sabe que se está condenando a si mesmo - a alguma parte de si, oculta em sua própria sombra-;  quem se identifica com o outro, para além do que este faça ou deixe de fazer, vive na consciência de que todos somos um, na identidade maior que nos constitui. Esse nível de consciência é o que permite transformar as condenações em compaixão e, além do mais, em humanidade. [daqui]




2013-11-01

desalmada




A Conferência Episcopal Portuguesa, depois de solicitamente colaborar com o Governo na supressão deste feriado do 1º de Novembro, vem agora lembrar os seu fiéis de que "continua a ser um «dia de preceito»"  a celebração de Todos os Santos (dever de ir à missa). As tradições são para se manter: tratar os fiéis com o paternalismo característico.