2013-12-30

muitos estragos tem feito este equívoco



«Um dos enormes equívocos do religioso é a idealização da perfeição que leva as pessoas a viverem numa câmara de cultura da culpa por não conseguirem ser como aquele santo ou aquela santa. Cada um tem de conseguir o bem que lhe é possível»


José Tolentino de Mendonça, daqui



2013-12-29

porque hoje é domingo # 2


porque hoje é domingo



12*Como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos, pois, de sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência, 13suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, fazei-o vós também. 14E, acima de tudo isto, revesti-vos do amor, que é o laço da perfeição. 15Reine nos vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados num só corpo. E sede agradecidos. 16A palavra de Cristo habite em vós com toda a sua riqueza: ensinai-vos e admoestai-vos uns aos outros com toda a sabedoria; cantai a Deus, nos vossos corações, o vosso reconhecimento, com salmos, hinos e cânticos inspirados. 17E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando graças por Ele a Deus Pai.

 
18*Esposas, sede submissas aos maridos, como convém no Senhor. 19Maridos, amai as esposas e não vos exaspereis contra elas.20Filhos, obedecei em tudo aos pais, porque isso é agradável no Senhor. 21Pais, não irriteis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo.


[Colossences 3, 12-21] 


2013-12-23

que aconteça Natal




Natal

Foi tudo tão pontual
Que fiquei maravilhado.  
Caiu neve no telhado  
E juntou-se o mesmo gado  
No curral.

Nem as palhas da pobreza  
Faltaram na manjedoira!  
Palhas babadas da toira  
Que ruminava a grandeza  
Do milagre pressentido.  
Os bichos e a natureza  
No palco já conhecido.

Mas, afinal, o cenário  
Não bastou.  
Fiado no calendário,  
O homem nem perguntou  
Se Deus era necessário…  
E Deus não representou.

Miguel Torga 



Votos de Feliz Natal, vivido na alegria serena e íntima da vida que se renova, não ao ritmo do calendário, antes da esperança.



2013-12-15




Eu hei-de ver os teus mistérios santos,
na tua casa as sombras não assombram.
Alta esperança nos confins de mim, me há-de abrigar.



José Augusto Mourão

2013-12-02

o corpo e a espiritualidade

 
 
Nenhum pecado desertou de mim.
Ainda assim eu devo estar nimbada,
porque um amor me expande.
Como quando na infância
eu contava até cinco para enxotar fantasmas,

beijo por cinco vezes minha mão.
Este é meu corpo, corpo que me foi dado
para Deus saciar sua natureza onívora.
Tomai e comei sem medo,
na fímbria do amor mais tosco
meu pobre corpo
é feito corpo de Deus.

PRADO, Adélia. A duração do dia
 

Na cultura judaico-cristã o corpo nem sempre tem sido considerado. E ainda muito me
nos conjugado com a espiritualidade. Como se um, necessariamente, excluísse o outro.
E, no entanto, não há vida sem corpo. No capítulo 2 do Génesis - um belíssimo poema das origens da vida - é descrito como Deus faz o homem pegando no pó da terra e insuflando-lhe nas narinas o sopro da vida [Gn 2,7]. Primeiro existe a matéria e é nela que o espírito se faz vida.
Nos evangelhos, é descrito à saciedade o cuidado de Jesus para com o corpo. Existem vários relatos de curas físicas, mas não é só o corpo doente que capta a atenção de Jesus. O corpo é sinal de proximidade; Jesus aceitou que uma mulher lhe derramasse perfumes no corpo, partilhou refeições, caminhou com os seus próximos, com o corpo viveu a missão.

A espiritualidade também é muitas vezes entendida como restrita aos actos e actividades ligados ao religioso. Ou melhor, compreende-se a oração, como aqueles momentos, mais curtos ou mais longos, em que nos apartamos do viver comum e nos dedicamos exclusivamente ao que chamamos a nossa relação com Deus. Ficariam, então, os não crentes privados de espiritualidade?! E os crentes (católicos pelos menos) com matéria para a próxima confissão, pois irão considerar o tempo dedicado a estas actividades menor em relação ao que dedicam a tudo o resto. Ainda com o ónus de esse mesmo pouco tempo, ser usado com milhentas distrações à mistura.

Partilhando agora um bocadinho de como é que estas coisas tomam forma na minha vida, reconheço que, a partir do momento em que tomei consciência que não podia restringir a minha espiritualidade aos momentos "reservados" e "temporizados", contidos nos ritos que a Igreja Católica me propunha, deixei de frequentar as celebrações da mesma. Sobretudo porque os sentia vazios de vida. A ligação corpo e espiritualidade não existia mais.

Continua um dia destes...