2013-12-02

o corpo e a espiritualidade

 
 
Nenhum pecado desertou de mim.
Ainda assim eu devo estar nimbada,
porque um amor me expande.
Como quando na infância
eu contava até cinco para enxotar fantasmas,

beijo por cinco vezes minha mão.
Este é meu corpo, corpo que me foi dado
para Deus saciar sua natureza onívora.
Tomai e comei sem medo,
na fímbria do amor mais tosco
meu pobre corpo
é feito corpo de Deus.

PRADO, Adélia. A duração do dia
 

Na cultura judaico-cristã o corpo nem sempre tem sido considerado. E ainda muito me
nos conjugado com a espiritualidade. Como se um, necessariamente, excluísse o outro.
E, no entanto, não há vida sem corpo. No capítulo 2 do Génesis - um belíssimo poema das origens da vida - é descrito como Deus faz o homem pegando no pó da terra e insuflando-lhe nas narinas o sopro da vida [Gn 2,7]. Primeiro existe a matéria e é nela que o espírito se faz vida.
Nos evangelhos, é descrito à saciedade o cuidado de Jesus para com o corpo. Existem vários relatos de curas físicas, mas não é só o corpo doente que capta a atenção de Jesus. O corpo é sinal de proximidade; Jesus aceitou que uma mulher lhe derramasse perfumes no corpo, partilhou refeições, caminhou com os seus próximos, com o corpo viveu a missão.

A espiritualidade também é muitas vezes entendida como restrita aos actos e actividades ligados ao religioso. Ou melhor, compreende-se a oração, como aqueles momentos, mais curtos ou mais longos, em que nos apartamos do viver comum e nos dedicamos exclusivamente ao que chamamos a nossa relação com Deus. Ficariam, então, os não crentes privados de espiritualidade?! E os crentes (católicos pelos menos) com matéria para a próxima confissão, pois irão considerar o tempo dedicado a estas actividades menor em relação ao que dedicam a tudo o resto. Ainda com o ónus de esse mesmo pouco tempo, ser usado com milhentas distrações à mistura.

Partilhando agora um bocadinho de como é que estas coisas tomam forma na minha vida, reconheço que, a partir do momento em que tomei consciência que não podia restringir a minha espiritualidade aos momentos "reservados" e "temporizados", contidos nos ritos que a Igreja Católica me propunha, deixei de frequentar as celebrações da mesma. Sobretudo porque os sentia vazios de vida. A ligação corpo e espiritualidade não existia mais.

Continua um dia destes...

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