o corpo e a espiritualidade
Nenhum pecado desertou de mim.
Ainda assim eu devo estar nimbada,
porque um amor me expande.
Como quando na infância
eu contava até cinco para enxotar fantasmas,
beijo por cinco vezes minha mão.
Este é meu corpo, corpo que me foi dado
para Deus saciar sua natureza onívora.
Tomai e comei sem medo,
na fímbria do amor mais tosco
meu pobre corpo
é feito corpo de Deus.
PRADO, Adélia. A duração do dia
Na cultura
judaico-cristã o corpo nem sempre tem sido considerado. E ainda muito
menos conjugado com a espiritualidade. Como se um, necessariamente,
excluísse o outro.
E, no entanto, não há vida sem corpo. No capítulo
2 do Génesis - um belíssimo poema das origens da vida - é descrito como
Deus faz o homem pegando no pó da terra e insuflando-lhe nas narinas o
sopro da vida [Gn 2,7]. Primeiro existe a matéria e é nela que o
espírito se faz vida.
Nos evangelhos, é descrito à saciedade o
cuidado de Jesus para com o corpo. Existem vários relatos de curas
físicas, mas não é só o corpo doente que capta a atenção de Jesus. O
corpo é sinal de proximidade; Jesus aceitou que uma mulher lhe
derramasse perfumes no corpo, partilhou refeições, caminhou com os seus
próximos, com o corpo viveu a missão.
A espiritualidade também é
muitas vezes entendida como restrita aos actos e actividades ligados ao
religioso. Ou melhor, compreende-se a oração, como aqueles momentos,
mais curtos ou mais longos, em que nos apartamos do viver comum e nos
dedicamos exclusivamente ao que chamamos a nossa relação com Deus.
Ficariam, então, os não crentes privados de espiritualidade?! E os
crentes (católicos pelos menos) com matéria para a próxima confissão,
pois irão considerar o tempo dedicado a estas actividades menor em
relação ao que dedicam a tudo o resto. Ainda com o ónus de esse mesmo
pouco tempo, ser usado com milhentas distrações à mistura.
Partilhando agora um bocadinho de como é que estas coisas tomam forma na
minha vida, reconheço que, a partir do momento em que tomei consciência
que não podia restringir a minha espiritualidade aos momentos
"reservados" e "temporizados", contidos nos ritos que a Igreja Católica
me propunha, deixei de frequentar as celebrações da mesma. Sobretudo
porque os sentia vazios de vida. A ligação corpo e espiritualidade não
existia mais.
Continua um dia destes...
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