2014-01-06

para além do imediato



Tenho a sensação que, em Portugal, a comunidade cristã como um todo está a ter uma presença muito fraca enquanto voz profética na situação em que nos encontramos.

Há muitas instituições cristãs e muitos cristãos e até não cristãos dedicados aos problemas da fome e da falta de bens essenciais. É conhecida a solidariedade geral da população portuguesa e o papel das instituições cristãs neste serviço. Mas há qualquer coisa que tem de ser dita sobre o modelo de sociedade que temos, da estrutura de poder que temos. Os documentos do Papa mais recentes dão-nos a entender a ligação evidente entre o meio económico e financeiro e as estruturas do poder nas sociedades. E esta é uma situação que não se altera quando nos limitamos apenas a ajudar as pessoas a matar a fome, por mais importante que isso seja.


[Alfredo Bruto da Costa, presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz]

 

daqui


5 comentários:

  1. Li, não sei já precisar onde, que a fome, a um nível mundial, está quase erradicada. É um assunto muito complexo, a fome/pobreza, o outro lado, e por certo não é com a teoria que se vai lá. Eu, pessoalmente, até sou semi-adepto :) de lunáticos como o Unabomber e algumas ideias anarquistas. Também acho que o Cristão ainda vive mal o Evangelho: vive muito para a procura da paz, quando o próprio Cristo disse que não trazia a paz à terra, mas a espada. Quando falo da paz para que o Cristão médio :) vive, é aquela paz interior que advém do poder de se acreditar. Mas repetir ou saber o Evangelho de cor salvará alguém dos miasmas intelectuais que se tende a ignorar de pronto e, muitas vezes, ou até a maioria das vezes :) se desiste? As pessoas, creio, estão é interessadas em ter dinheiro suficiente para viver de forma razoável, buscar os filhos ao ATL, etc. Os santos fecham-se nos mosteiros, em busca da malograda :) paz... desculpe o comentário, é muito superficial e não acrescenta nada que vc já não saiba, de resto, mas quis fazê-lo. Também não vimos para aqui fazer debates apaixonados e eruditos, para isso é que servem os livros.

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  2. ...quando digo «desiste», é um cenário que me entristece, não haver mais ativismo, cristão,- ateu e outras merdas do mesmo calibre de merdice oca dispensamos bem :) - mas eu não posso falar muito, porque, acho, também me vejo entre os «desistentes» que se vão refugiar no texto, na intelectualidade, enfim, na não tão prática, ora :), teoria! Mas fazer o quê? Vou dar o meu salário, viver debaixo da ponte e pregar o Evangelho? E depois ainda há aquela mania intelectual do grão a grão enche a galinha o papo, ou os pequenos gestos, a caridadezinha. Olhe: não sei. Sei que está mau e a chover, em muitos aspectos. Preocupa-me os que desistem para o texto e engonham-se na «meditação, contemplação»; mas arrastar o corpo quando é a alma que vence? Vamos todos fazer literatura motivacional? Olhe, eu, por mim, quando li o Evangelho, já na idade adulta e depois de ter tido a psicose, que me deu um «insight» enorme sobre Deus e tudo o que o rodeia, fiquei chocado. As pessoas, incluindo os ateus playboyzinhos, têm o tique, o preconceito, de achar que Cristo foi um hippie, um alheado. Para mim, e como me disseram certa vez, Cristo, a corresponder com alguma cultura moderna, é o punk. O Evangelho, quem o entender como eu o entendo, é cortante... valha-nos que eu hoje estou para os sorrisos :) e sabemos todos que cada um entende as coisas de uma forma muito peculiar, que deriva da experiência pessoal e etc etc etc, eu hoje estou é para o boooring :), mas como dizia, e às tantas o que estou a escrever já nem faz sentido, mas, preocupa-me muito que as pessoas médias sejam e medíocres sejam cada vez mais médias e medíocres. Os fossos não estão apenas na perversão do «material»; é também espiritual, porventura, ainda mais...

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  3. uffff, longos desabafos, D. :)
    este jardim anda tão a marinar que sabe bem algum ritmo humano por aqui. Mas compreendo muito bem o que dizes (vou dizer uma barbaridade), também já fui jovem, tive sonhos etc etc. Tens muita razão quanto à paz. A paz não pode ser passiva. Como se o que fosse importante era que nos deixassem em paz...
    De qualquer modo, a nossa opção não é entre ir meditar para o deserto (até pode ser, sei lá) ou sair por aí a fazer revoluções. Pegue cada um na sua vida, olhe à sua volta...e tanto por onde actuar. Não se farão feitos muito vistosos, mas lá tenho de voltar aos evangelhos:"até um copo de água..." e nós alheios às sedes à nossa volta. Procuramos o estrondoso (de preferência sem complicações).

    O Bruto da Costa, tem experiência do que fala e dedica-se a estudar a área em que actua...fala com autoridade. E não basta resolver o imediato, há que criar situações duradouras. A cidadania passa por aí, não é só para quem lê os evangelhos.

    beijinhos :)

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  4. Gosto de si. :)

    Quando se trata de fazer um «comentário com juízo e sensatez», a Maria ganha-me sempre. «Como se o que fosse importante era que nos deixassem em paz...». Exactamente, entendeu o ponto. Eu não quero mudar o mundo, nem vai ser pelo meu exemplo... O Lobo Antunes tem aquela ideia, com a qual eu me identifico, dele próprio muito apaixonado, muito amantíssimo, mas quando, os escritores que poderiam ser aquilo que mais tivéssemos perto de um guia, fala da literatura em si entre parênteses: escreve o que viveu, não lhes correspondem em actos, escreve o que não viveu, de modo nenhum. Como se nos quisera dizer: a minha vida foi isto e acredito em y, o outro, não o mudei por acreditar no z... paradigmas dessacralizadores... vive tudo um pouco assim, nesse cinismo, nessa malícia, e tanto mais vive assim quem entende o Evangelho de perto no coração e teve experiências mais reais...

    Vc imagina quantas pessoas hoje vivem no «secularizante», têm uma forma de vida de inação, e contra mim falo também, ou actuam apenas a seu bel-prazer e um ou outro dever mais por necessidade do que outra coisa? As pessoas desistem, pura e simplesmente. Dos sonhos de juventude, do outro, encafuam-se na mulher ou no homem, as pantufas, na família, e a «revolução» [e, feliz ou infelizmente, é com cada um/a...], quando vai, vai por livro, muitas vezes, isto, apenas um conduta de interesse maligno... é por isso que cada vez mais me abstenho de fazer observações definitivas do real e das realidades.

    Beijinhos, Maria.

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  5. :)

    bem, já tenho uma boa idade para ter juízo... :)

    eu, no geral, até tenho muito boa impressão dos outros, quase tudo tão boa gente quanto eu ;)

    observações definitivas são um perigo, não apostava um cabelo branco por elas. :)

    Beijinhos, Diogo

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