2014-02-27



Nada de automático, portanto, para evitar que se caia na tentação de banalizar o próprio conceito de misericórdia, advertem, a resguardar um dom que não nos pertence.


2014-02-24



Alcaria, 2014


De bruços sobre o lavatório, abro a torneira, tapo o ralo, fico alguns momentos a ver correr a esperança, que vai enchendo aos poucos a bacia. Depois fecho a torneira e, retirando a tampa, vejo-a escoar-se em gorgolejos que cada vez são mais humanos e mais fundos. É a respiração do ralo, que só então dou conta de que está dentro de mim, por uma dessas distorções a que é costume eu ser atreito e que me impede ainda de me ver no próprio espelho, que, apesar de se encontrar à minha frente, não consigo deslocar do avesso dos meus olhos.

Os meus sentidos rangem, solidários com os canos, eles que eu gostaria de poder assimilar ao mar, a um céu azul, desanuviado, e que jamais me dão do espírito visões onde não se encastoem nuvens e rebentem tempestades.

Repito a operação. Mergulho às vezes as mãos na minha esperança, mas retiro-as ao cabo de algum tempo, antes que se transformem em raízes. Destapo uma vez mais o ralo. Assim corre a amizade - penso, olhando o redemoinho -, assim correm os afectos, que, depois de encherem a bacia onde a custo nos lavamos sem os fazermos transbordar, se escoam sem regresso em direcção ao caos.

 
Luís Miguel Nava, in 'O Céu Sob as Entranhas (Lembrança de A. Morin)'

2014-02-17




Pode-se, e a expressão popular bem o sabe, ter entranhas e não ter coração; é próprio dos seres capazes de sentir, mas sem nobreza, dos quais não se deve esperar esses movimentos de ânimo que levam o selo da generosidade, que não têm as condições especiais que a metáfora do coração leva quase sempre: falta-lhes «o espaço vital». Seres com entranhas sem espaço, que são um grau ínfimo na hierarquia do que é vivo. Sentem, mas no seu sentir há um absoluto hermetismo; sentem para si, e o seu sentir jamais se abre, nem sequer irradia. O coração é a víscera mais nobre porque leva consigo a imagem de um espaço, de um dentro obscuro secreto e misterioso que, em algumas ocasiões, se abre.



maría zambrano in a metáfora do coração e outros escritos
tradução - josé bento
assírio & alvim


2014-02-14



Imogen Cunningham


Amor

Aqueles olhos aproximam-se e passam.
Perplexos, cheios de funda luz,
doces e acerados, dominam-me.
Quem os diria tão ousados?
Tão humildes e tão imperiosos,
tão obstinados!

Como estão próximos os nossos ombros!
Defrontam-se e furtam-se,
negam toda a sua coragem.
De vez em quando,
esta minha mão,
que é uma espada e não defende nada,
move-se na órbita daqueles olhos,
fere-lhes a rota curta,
Poderosa e plácida.

Amor, tão chão de Amor,
que sensível és...
Sensível e violento, apaixonado.
Tão carregado de desejos!

Acalmas e redobras
e de ti renasces a toda a hora.
Cordeiro que se encabrita e enfurece
e logo recai na branda impotência.

Canseira eterna!
Ou desespero, ou medo.
Fuga doida à posse, à dádiva.
Tanto bater de asas frementes,
tanto grito e pena perdida...
E as tréguas, amor cobarde?
Cada vez mais longe,
mais longe e apetecidas.
Ó amor, amor,
que faremos nós de ti
e tu de nós?



Irene Lisboa

2014-02-13


fevereiro 2014



Nunca encontrei uma pessoa oca. Nunca encontrei uma vida sem significado quando se procura realmente o seu significado. É esse o perigo de dizer que não procuramos, porque foi assim que chegámos ao ponto em que sentimos que a vida não tinha qualquer significado. Bem vê, nós repudiámos tantas formas de terapia. Quer dizer, tantos de nós repudiam actualmente a filosofia, a religião ou qualquer outro padrão que nos mantinha coesos anteriormente. Repudiámos tudo. Até repudiámos a terapia da arte. Por isso não nos restou realmente mais que olhar para dentro, e os que o fazem descobrem que toda a vida tem significado porque a vida tem significado. Fomos seriamente prejudicados por pessoas que disseram que a vida era irracional e de qualquer modo não significava nada. Mas assim que começamos a olhar, descobrimos o padrão e descobrimos a pessoa. Nunca encontrei aquilo a que se poderia chamar uma pessoa totalmente oca.

 


Anais Nin, in "Fala Uma Mulher"

2014-02-11




Sem fides um velho não lança no terreno uma semente de carvalho; sem fides o horizonte do mundo passa a ser o teto da casa ou do escritório baixo de mais para aquele ser, sedento de infinito que é a pessoa, a qual desde a época das cabanas e dos “nuraghe” (Monumento pré-histórico da Sardenha) sentia necessidade de fazer uma abertura no topo, e não apenas para deixar sair o fumo, mas também para que o seu céu fosse mais alto que a sua casa. Sem este olhar profundo que nos eleva, conformamo-nos com os cenários da tv, com os seus céus virtuais, que não têm nem o calor do sol nem a profundidade do horizonte, nem a brisa do ar que só entram em casa quando abrimos a janela. O oposto da fé foi sempre a idolatria, que não é a atitude de quem não crê em nada, mas de quem acredita em demasiadas coisas, fingidas e fabricadas. 








2014-02-08




Costumo poisar os dedos, tactear
Até ser o homem que volta para casa

Costumo abrir as mãos com o ferrolho da porta
Costumo estendê-las continuamente


A rua também passa à minha frente
Cada dia e não sabe quando vens




 


Daniel Faria, "Dos Líquidos"