2014-03-06






Porque todos esperam ser chamados alguma vez pelo próprio nome, esse que ninguém conhece, nem eles. Todos esperam ser chamados por esse Pai, cuja mão e cujo rosto sentimos sobre a nossa cabeça em forma de proibição nos primeiros dias e como sombra sobre a nossa ainda pura fronte no jardim perturbante da infância. E de cuja voz acreditámos ouvir o eco distante atrás de nós, quando na adolescência quisemos sair atravessando o cerco do horto sagrado. E cujo olhar entre as nuvens chegou esvaído até ás nossas faces fazendo subir a elas o fogo do temor e do anseio veemente.
(...)
E todos esperámos ser chamados por esta voz que nos apareceu em eco. Esperáva-mos ouvi-la com palavras que vençam o temor e o transformem em júbilo infinito, em alegria sem limite, perfeita, ver o que somente em sombra se mostrou, completamente e para sempre. E por esta esperança inapagável há quem não ouse acometer até às últmas consequências a tarefa de dar a si mesmo um nome, de ser ele mesmo o seu próprio criador, ainda que fosse possível consegui-lo.



# maría zambrano in a metáfora do coração e outros escritos

2 comentários:

  1. Regresso frequentemente a esta escritora e é sempre uma revelação. Obrigada.

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  2. pois é, também sinto isso. :)

    e também partilhamos o mesmo nome: Maria da Conceição. :)

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