2014-03-15




Vê, nós não amamos como as flores de um
único ano; sobe-nos onde amamos,
imemorial seiva para os braços. Oh rapariga,
isto: que amássemos em nós, não uma coisa, a haver, mas
o inumerável fermentar; não um filho isolado,
mas os pais, que, como escombros da montanha,
nos assentem no fundo; mas sim o seco leito do rio
das mães de outrora -; mas sim toda a
paisagem silenciosa sob o destino enevoado
ou límpido -;isto precedeu-te, rapariga.

E tu mesma, tu, o que sabes -, atraíste
o remoto passado no amante. Que sentimentos
se revolviam vindos de seres para sempre levados. Que mulheres
então te odiavam. Que homens tenebrosos
agitaste nas veias do jovem? Crianças mortas
queriam ir ter contigo...Oh, devagar, devagar,
faz perante ele um trabalho diário de amor e confiança,-
condu-lo para perto do jardim, dá-lhe o excesso
de peso das noites...
...Retém-no...


Rainer Maria Rilke,
da terceira elegia

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