2014-10-01




Ontem estive a ver o filme Mar Adentro, um filme dramático que me pôs a pensar. Para além do tema do suicídio assistido e das questões morais e éticas que levanta, o que me tocou mais de perto, foram as diferentes perspectivas e consequentes atitudes dos familiares próximos, dos amigos e das duas mulheres (três, diria que a cunhada nutria pelo irmão do marido um amor solícito e verdadeiramente oblativo)apaixonadas pelo tetraplégico Ramón Sampedro.

Na tecedura das diferentes relações, é muito pronunciado o imperativo "tu deves", a começar pela personagem central que quer a todo o custo que lhe seja concedido o direito de decidir pela morte e colocar um fim a trinta anos de sofrimento, sofrido e causado aos seus. Até a igreja institucional aparece (como não podia deixar de ser)a julgar tudo e todos, porque a vida é um dom e, se não de aceita isso, só pode ser por desajuste do próprio ou dos que o rodeiam. A vida é um "pouco" mais complicada do que isso. 

É um acto de violência impor a alguém que aceite um sofrimento extremo (uma violência que se acrescenta à que já existe), e é igualmente violento, pretender e impor que alguém aceite que aquele ser que se ama, não quer mais partilhar vida connosco, decidindo morrer. Para de algum modo priorizar necessidades, podemos tentar escolher quem está em situação de maior fragilidade (à primeira vista é o doente que sofre o tormento físico e consequentemente psíquico) mas também pode ser um pai, uma mãe, já fragilizados pela idade. Não quero sugerir nenhuma escolha, até porque acredito que, dentro das diferentes circunstâncias da vida, podemos crescer interiormente e descobrir forças que nem sabíamos que tinhamos. Apenas quero pensar e descobrir modos de lidar com os diferentes imperativos "tu deves..."










2 comentários:

  1. Foi o primeiro filme do Amenábar que viu? O tipo é tendencioso, é preciso repetir os filmes e ver se eles conseguem manter o impacto, credencial de um filme mesmo bom, que resista, mas tem uma carreira peculiar. :) O Mar Adentro é um bom filme, talvez o seu melhor, mas nota-se aquela verve de costeletão ateísta, como aliás em outros filmes dele. Não gosto daquele amor à pressão entre a jornalista e o Ramon, só para efeitos narrativos. :)

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  2. Olá, Diogo. Sim, foi este o primeiro filme que vi do realizador. Gostei do filme, não o achei dogmático nem planfetário - do suicídio assistido.

    E gostei de algumas questões que levanta: a violência nas relações amorosas. A violência de querermos que os outros mudem só porque assim o queremos. Mesmo que seja o melhor para elas.

    Quanto às mulheres...pois, a Rosa tem um amor muito mais interpelativo. A cunhada, é a típica mulher que vive para a imagem de ser a que cuida (e a que cuida melhor). Realiza-se nos gestos abnegados, dando a imagem que nada retira para si. Retira a certeza de que só é válida porque se doa. É por demais doloroso...

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