2014-12-30



SENHOR

Senhor, o amor é uma coisa que mete medo
não sabeis pois que se trata de um trabalho difícil
exige uma coragem e uma fé além do improvável
uma humanidade indizível
uma fraternidade cega
dinheiro e garrafas
crianças ao acaso
olhares nem sequer fulminantes
e charcos de céu
e festas campestres
quando o tempo permite
o amor quer idas à pesca, patins e chocolate negro
o amor quer a curva suave e a facilidade
é tão difícil, Senhor
não poderia descrevê-lo
em toda a sua volúpia
para lá dos seus mártires
e dos seus desastres hipócritas
o amor é pleno de alegria
e segue o seu caminho
na névoa dos primeiros passos
na roupa pendurada no inverno
na corda tensa
vai para onde calha
e muito lentamente
lentamente demais o amor segue
como um ouriço do mar oco cheio de areia
como um botão que se deixa por coser
é miserável
é uma pluma
move-se ao vento
quando o coração bate
é esplêndido lavado pela maré
mesmo na maré odiosa
é onda
e é belo
é onda e é belo e cheio de algas
é o silêncio
é a luz
uma coisa assim vulgar


Hélène Monette
In Poemas
Tradução de Rosa Alice Branco

a ler os outros:

Há muito perdi a conta dos momentos felizes da minha vida, o que é de bom agouro, mas nunca mais, como nessa tarde, uma semana antes de fazer quinze anos, voltaria a sentir o arroubo de me perder numa massa de povo e conhecer a felicidade da pura união. 

José Rentes de Carvalho, aqui

2014-12-28




A ler os outros:

O que se esconde por trás dos números de uma catástrofe. Na morte, tal como na vida, não somos todos iguais. Como sair da formatação destas sensibilidades?






Até ao fim

Esperarei por ti até que as aves partam
de regresso e regressem de partida

Porque te amei como a água só amou a quilha
desse primeiro barco que singrava
em todos os seus rios um rio desconhecido



Miguel Serras Pereira 
(publicado pelo José Ricardo Nunes no facebook)

2014-12-23



Natal

Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.


Miguel Torga



Aos resitentes, que ainda insistem em visitar este jardim, só posso desejar um 
FELIZ NATAL!

2014-12-07




DORES

Às dores inventadas
Prefere as reais.
Doem muito menos
Ou então muito mais. 


Alexandre O'Neill
In No Reino da Dinamarca, 1958

#imagem - daqui

2014-12-02




Fim do mundo 

Há um lamento no mundo, 

Como se não houvesse mais o bom Deus,
E a sombra que cai, cortina de chumbo, 
Pesa como mausoléus. 

Vem, escondamo-nos mais de perto... 

A vida jaz nos corações  
Como nos féretros. 

Ei, beijemo-nos até não mais poder — 

Pulsa uma saudade no mundo, 
E é disso que temos de morrer. 
  

Else Lasker-Schüler (1869-1945)