2015-12-22

Os meus votos de Feliz Natal!


 
Presépio

Nuzinho sobre as palhas,
nuzinho - e em Dezembro!
Que pintores tão cruéis,
Menino, te pintaram!

O calor do seu corpo,
pra que o quer tua Mãe?
Tão cruéis os pintores!
(Tão injustos contigo,
Senhora!)

Só a vaca e a mula
com seu bafo te aquecem...

- Quem as pôs na pintura?


[Sebastião da Gama]

2015-12-19





O Natal tem, no entanto, uma verdade essencial. E essa verdade é tragicamente ilustrativa da condição humana. Se o facto de o Filho de Deus não ter vindo ao mundo num esplendoroso palácio (mas sim na palha de um estábulo) sugere a mais requintada das verdades poéticas, já o massacre dos inocentes ordenado por Herodes faz soar uma nota amargamente realista, visto que genocídios e massacres pautam desde sempre a história da Humanidade. Deus decidiu vir ao mundo? Então o mundo é isto: é um lugar onde um bebé recém-nascido não só não tem abrigo condigno como está na iminência de ser morto à nascença. Mais tarde, nesse mesmo Menino já crescido, cuspir-lhe-ão em cima, troçarão dele, arrancar-lhe-ão a roupa, fustigá-lo-ão de forma cruel, crucificá-lo-ão. Este Deus não veio ao mundo para ser recebido como Deus, mas como um marginal, um criminoso, um “pobre de Cristo”. Nesta mais extraordinária de todas as ideias (lindíssima, sim) é possível — e preciso — acreditar.

daqui

2015-12-17



Debaixo do chapéu desabado, Acab deixou cair uma lágrima no mar e o Pacífico nunca conteve tanta riqueza como aquela pequena gota de água.


Herman Melville in Moby Dick

2015-12-08






TEORIA DA PRESENÇA DE DEUS

Somos seres olhados
Quando os nossos braços ensaiarem um gesto
fora do dia-a-dia ou não seguirem
a marca deixada pelas rodas dos carros
ao longo da vereda marginada de choupos
na manhã inocente ou na complexa tarde
repetiremos para nós próprios
que somos seres olhados

E haverá nos gestos que nos representam
a unidade de uma nota de violoncelo
E onde quer que estejamos será sempre um terraço a meia altura
com os ao longe por muito tempo estudados
perfis do monte mário ou de qualquer outro monte
o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida


Ruy Belo, "Todos os Poemas"
Assírio & Alvim



2015-12-06

Insane



Contra quem luta o que a si mesmo fere
Com palavras e rasga entre silêncios
A própria pele com que se apresenta
Perante a teia em contraluz que ilude
Relações, corpos e fragilidades
Tornados presença constante, postos,
Como num jogo, dissimulados
Pelo relevo da planície? Contra
Quem luta quem nunca lutou? Qual é
O peso que equilibra a ilusão
Da violência contida? Só quando
Da dor outra dor nasce o combate
Se torna possível. Quantos nomes
Terá o fim antes de se chamar
Morte? E quantas sombras se entrelaçam
Para conter uma vida suspensa
Do medo de combater por si mesma.


do Rui Almeida (via facebook) 


2015-11-21

um retrato incisivo da realidade católica




O ser humano é finito, carente e mortal. Quando julga encontrar a verdade, a verdade única e toda, encontra o bálsamo da existência: o da verdade salvadora. Como precisa de segurança, de reconhecimento, de superar a carência, a finitude, a mortalidade, não tolera a dúvida, a diversidade, e vai impor "a verdade", justificando-se, nesse propósito, a agressão e a violência.

A. Borges 



 

2015-11-13



"Luz e trevas são a mesma coisa, em ambas reside a mesma energia. Quem possui ouro no seu âmago tem de aprender a trabalhar com ele, para que as outras pessoas consigam ver que, por trás da aparente escuridão, existe um ser de luz, um ser luminoso. A luz vem das trevas, pois é aí que nasce a luz."
"Aprender a aceitar os limites da linguagem, aprender a alargar os limites da ideia. Ser sempre capaz de mais. A Beleza como dever,a coragem como único caminho para o futuro. Suave medo escuro."


-"Entre o Céu e a Terra"
- Rui Chafes

2015-10-31



"Abrirmo-nos ao que vem pode ser um modo de nos expormos ao porvir ou à vinda do outro, à vinda do que não depende de mim. Trata-se de uma exposição que se sujeita à lei da singularidade do outro. Pode também ser pensada sob a categoria do kairos, do acaso, do aleatório; não são exactamente a mesma coisa, embora possam entrecruzar-se."

"O Gosto do Segredo"
 Jacques Derrida

2015-10-25



“A acumulação de riqueza nas mãos de poucos e o desvio de recursos destinados ao projeto familiar agravam a situação de pobreza de famílias em muitas regiões do mundo” [do relatório do sínodo dos bispos sobre a família.]

Quanto a outros temas que continuam a inquietar, pela forma como são vistos na igreja - homossexualidade, comunhão de recasados, a mulher - ficou tudo em águas de bacalhau, como seria de esperar para quem já não se ilude com reflexões feitas por quem vive à margem do mundo.













# no homem que não sabe que luz tem dentro de si.

Pier Paolo Pasolini

2015-10-21



#Cristina Garcia Rodero. Spain, Galicia. The confession. Pilgrimage of Nuestra Senora de los Milagros de Saavedra. 1980

respigado daqui

2015-10-17





«Quando era pequeno gostava de encostar o ouvido no chão e escutar a terra. Escutar as suas tremuras, imaginar os labirintos dos bichos e das raízes, sentir a ondulação dos magmas profundos, escutar o silêncio da terra. A terra pediu-me os ouvidos, os olhos e as mãos. Depois, o seu apelo feminino pediu-me o coração. À terra devo uma fidelidade primordial, a mais exigente, a mais densa de todas as fidelidades. Agora devo-lhe estas palavras. Elas não nasceram da terra. Nasceram no silêncio da terra.»


nuno higino, in no silêncio da terra

2015-10-10






“Ah. Vontade de a todos sacudir. Como é que suportam esse buraco vazio? Como é possível ir até o fim da própria vida sem perguntar ao menos: por que é que estou vivo?”


Hilda Hilst, em Tu Não Te Moves de Ti.

2015-10-01






Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo -
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.



- Herberto Helder

2015-09-30





#A migrant child leans out of a train window to collect food at the railway station in Tovarnik, Croatia September 29, 2015. REUTERS/Antonio Bronic


2015-09-12




Todos o dias saio em busca de algo diferente,
Demandei-o há muito por todos os atalhos destes campos;
Além nos cumes frescos visito as sombras,
E as fontes; o espírito erra dos cimos para a planície,
Implorando sossego; tal como o animal ferido se refugia nas florestas,
Onde antes repousava pelo meio dia à sua sombra, fora de perigo;
Mas o seu verde abrigo já não lhe dá novas forças,
O espinho cravado fá-lo gemer e tira-lhe o sono,
De nada servem o calor da luz nem a frescura da noite,
E em vão mergulha as feridas nas ondas da torrente.
E tal como é inútil à terra oferecer-lhe a agradável 
Erva curativa e nenhum zéfiro consegue estancar o sangue que fermenta,
O mesmo me acontece, caríssimos! Assim parece, e não haverá ninguém
Que possa aliviar-me da tristeza do meu sonho?




Friedrich Hölderlin - Elegias
Pranto de Ménon por Diotima - 1
  

2015-09-10





É junho? É setembro?
É um dia
em que estou carregado de ti
ou de frutos,
e tropeço na luz, como um cego,
a procurar-te.

eugénio de andrade

2015-08-23





8*Entretanto, Caim disse a Abel, seu irmão: «Vamos ao campo.» Porém, logo que chegaram ao campo, Caim lançou-se sobre o irmão e matou-o.9O SENHOR disse a Caim: «Onde está o teu irmão Abel?» Caim respondeu: «Não sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irmão?» 10*O SENHOR replicou: «Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim. 

Génesis, 4 









"Há um mistério a contemplar numa folha, numa vereda, no orvalho, no rosto do pobre (...). O ideal não é só passar da exterioridade à interioridade para descobrir a acção de Deus na alma, mas também chegar a encontrá-Lo em todas as coisas."

Laudato si, 233 - Papa Francisco

2015-08-20





Se o homem não consiste na sua alma - e hoje vêmo-lo claramente -, como sentiu este pedaço de cosmos alojado nele? Se pensamos nisso a que chamamos eu, vêmo-lo rodeado de capas concêntricas cada vez mais distantes e estranhas; primeiro dentro de si mesmo, depois no que já não é o homem. Nelas encontramos a alma. Que lugar ocupa? Qual é a sua função?


maría zambrano in "a metáfora do coração e outros escritos"
tradução josé bento


 

2015-08-17



# agosto 2015



Não só sobre vós
Mas também sobre mim as trevas lançaram sombras,
O melhor que tive pareceu-me vago e suspeito,
O que julgava serem os meus grandes pensamentos, não seria afinal tão banal?
Também não sois os únicos que conhecem a maldade,
Eu sou aquele que conheceu a maldade,
Também eu apertei o velho nó da contrariedade,
Também eu conheci a indiscrição, a vergonha, o ressentimento, a mentira, o roubo, a inveja,
Pratiquei a fraude, senti cólera, luxúria, ardentes desejos que não me atrevi a confessar,
Fui travesso, vaidoso, insaciável, vulgar, falso, cobarde, maligno,
O lobo, a serpente, o porco não faltaram em mim,
Nem faltaram o olhar falso, a palavra frívola, o desejo adúltero,
Repulsas, ódios, adiamentos, baixezas, preguiça, nada disso faltou em mim,
Fui um com todos, os dias e os alvoreceres de todos,
Com as suas vozes claras e altas os rapazes chamavam-me pelo meu apelido quando me aproximava ou me viam passar,
Senti os seus braços à volta dos meus ombros, ou a sua carne negligentemente apoiada na minha quando me sentava,
Nas ruas, no ferry, nos comícios, muitos amei sem nunca lhes dizer uma palavra,
Vivi como vivem todos, com o mesmo riso antigo, mastigando, dormindo,
Representando o papel que ainda evocam o actor ou a actriz,
O papel de sempre, o papel que é grande se quisermos que seja grande,
Ou insignificante, ou grande e insignificante se quisermos.

walt whitman in "folhas de erva"
tradução josé agostinho baptista
Assírio & Alvim

2015-08-15

# julho 2015



Consciência Cósmica


Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram a minha fronte.
E as vagas do sofrimento arrastaram-me
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado... 

Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir, se me restasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...


João Guimarães Rosa
 

2015-08-13





Que amada eu desejo? - perguntais-me. Eu tenho-a já
Como a desejo: e isto diz, parece-me, muito em poucas palavras.
À beira-mar andava à busca de conchas. Numa delas
Achei uma pérola: trago-a agora junto ao coração.

(J. W. Goethe, in Poemas. Trad.: Paulo Quintela. Fundação Gulbenkian)

2015-08-04

# julho 2015

 

Mar Sonoro

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dia do Mar.

2015-07-19




O desejo é mau e ilusório, mas, no entanto, sem o desejo não esquadrinharíamos o verdadeiro absoluto, o verdadeiro ilimitado. É preciso ter passado por isto. Infelizes os seres a quem o cansaço subtrai esta energia suplementar que é a fonte do desejo.
Infeliz, também, aquele a quem o desejo cega.
É preciso arrastar o desejo até ao eixo dos pólos. 


Simone Weil, in "A Gravidade e a Graça"

2015-07-11



DA BIOGRAFIA

"A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.
Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.

E, como menino que era,
achava um grande mstério no seu próprio nome"


  

Jorge de Sena 
 

2015-06-30



Eu remava num lago...


Eu remava num lago. Era uma gruta abobadada sem luz do sol, mas estava claro, havia uma luz transparente e homogénea que irradiava da pedra azul pálida. Embora não se sentisse nem uma ponta de vento, as ondas subiam, mas não tanto que isso pudesse representar qualquer perigo para o meu barco, pequeno, mas sólido. Eu continuava a remar calmamente entre as ondas, mas quase nem pensava nos remos, estava todo concentrado em absorver ao máximo o silêncio que dominava o lugar, um silêncio como nunca o tinha sentido em toda a minha vida. Era como um fruto que eu nunca tivesse comido mas fosse o mais suculento de todos. Agora, tinha os olhos fechados e sorvia-o. Mas não sem alguma perturbação. O silêncio era ainda total, mas sentia-se uma perturbação contínua; qualquer coisa sustinha ainda o ruído, mas ele estava à porta, a rebentar de vontade de entrar subitamente. Rodei os olhos na direcção daquele que não estava ali, soltei um dos remos da arramação, pus-me de pé no barco que baloiçava, ameaçando o vazio com o remo. Mas o silêncio persistiu e eu continuei a remar.

Franz Kafka in "Parábolas e fragmentos"

#imagem- Douro, 2015

2015-06-20



 
Tive uma vida em ti. Melhor do que 
ninguém, sabes que não sou 
capaz de escrever poemas de amor. Em contrapartida, uso 
e abuso de versos para os demais assuntos.
Poemas de amor é que não.
Há muito que desisti deles, nem sei
porque me ponho agora a falar disto.

Existem metáforas sem fim. Disponho 
da linguagem toda. A coisa falha,
a maldita formulação,
assim que lhe chego perto a imagem de que 
deveria derivar
um poema que fosse de amor.
E de repente fico só com as palavras,
eu e as palavras e um vazio.

Admito que o meu modo de amar
configure um caso estranho
e pouco substantivo. Ainda amor,
talvez, e talvez
intraduzível. Decerto incompatível 
com o sentido honesto das palavras
que vou desalinhando e se mostram
prestáveis para outros fins, excepto para serem 
palavras de amor: matéria nuclear, uma ave 
de rapina engaiolada no escuro, o que quiseres 
imaginar. (...)
 
José Ricardo Nunes 
 
#imagem - Margarida Araújo

2015-06-11




11.
O Despertador

Um despertador exposto sobre um tapete cheio de pó era tudo quanto possuía, para vender, o pobre comerciante árabe. Durante dias, reparou que uma velha se interessava pelo relógio. Era uma bebuína, pertencente a uma daquelas tribos que voam com o vento.
«Desejas comprá-lo?», perguntou-lhe um dia.
«Quanto custa?»
«Pouco. Mas não sei se o vendo. Se este desaparecer deixarei de ter trabalho.»
«Então porque o tens exposto?»
«Porque me dá a sensação de viver. E tu porque o queres, não vê que lhe faltam os ponteiros?»
«Faz tiquetaque?», quis saber a velha.
O comerciante deu corda ao despertador fazendo soar um sonoro e metálico tiquetaque. A velha fechou os olhos e percebeu que, na escuridão da noite, podia assemelhar-se a um coração que bate ao lado do seu.

43.
Amou tanto

Agora era velha e não conseguia sentir-se tomada de qualquer sentimento em relação a coisa alguma, mas tinha amado muito. Esperava ainda encontrar-se com algum ser que se movesse sobre a crosta da terra.
Até que se enamorou pela fachada de uma igreja de Assis, decidindo mudar-se para aquela cidade. Era Inverno, e durante os temporais nocturnos, saía com o guarda-chuva para fazer companhia à igreja, plena de uma luz amedrontada.
Depois, chegou a Primavera, e todas as manhãs e todas as tardes, com as mãos, tocava as pedras quentes e enxutas. Foi um amor sereno e sem traições que durou até à sua morte.



Tonino Guerra in Histórias para uma noite de calmaria, 
tradução de Mário Rui de Oliveira, 
Lisboa: Assírio & Alvim, 2002