2015-03-29



O Homem que Contempla

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tornam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"

2015-03-28





Destino é o nome que damos
à nossa comodidade
à covardia do não-risco
do não-pegar-as-coisas-com-os-dentes
(...)


Olga Savary

2015-03-23


março, 2015



Quero transformar-me em pó, cinzas, poeira, em nada. Tornar-me o vazio, uma recordação, uma lembrança. Passar a ter apenas expressão nas fotografias que envelhecem devagar nos álbuns que fiz há muitos anos, quando era nova, quando me sentia nova. Habita-me uma dor que não sei, não consigo descrever. É uma dor que não se sente na carne, mas que está lá, espalhada, derramada pelo meu corpo. Cobre-me, evanescente, como uma gaze translúcida. Só por estar lá, só por existir, não me ferindo, fere-me. De uma maneira insuportável. Ácida, a dor corrói-me por dentro. Às vezes, parece que tenho caruncho, um exército de insectos minúsculos dilacera-me, come-me os órgãos e os membros. Não consigo olhar-me no espelho. Mesmo, pela manhã, quando lavo o rosto e me penteio, executo esses gestos rotineiros sem nunca me olhar. Habito o meu corpo. É isso. Limito-me a habitar o meu corpo, invólucro de qualquer coisa que adivinho menor. Sinto constantemente um nó a estrangular-me a garganta. Sinto esse nó em cada segundo, em cada minuto, em cada hora que passa.


Ana Cássia Rebelo,
editada pela Quetzal


 

2015-03-21



A matéria das palavras
Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma perfeição  
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.



Ana Hatherly
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
2003

2015-03-18



2ª FEIRA

Vinte e um. Segunda-Feira. É noite.
No escuro uns contornos de cidade.
Algum vagabundo escreveu
que na terra pode haver amor.


E por tédio ou preguiça,
todos acreditaram e assim vivem:
esperam encontros, temem adeus
e cantam canções de amor.


Mas a outros revela-se o enigma,
e o silêncio repousará sobre eles...
Descobri isto por acaso
e desde esse momento sinto-me mal.


  Anna Akhmátova


imagem - 
Alfred Stieglitz
Georgia O’Keeffe 

2015-03-14


# 14/3/2015

Céu 
 
Tenho uma sede imensa,
Mas não é de água…

Tenho uma sede imensa  de beber
Os soluços do sol quando declina,
As carícias azuis do Luar de Agosto,
Os tons rosa da Tarde que se fina…

É que eu seria Poeta, se os bebesse…
Não mais seria o cego de olhos limpos;
Esse que viu a água e a não tocou,
Pelo estranho pudor da sua boca,
Que um dia blasfemou.

E, se eu pudesse beber
Esses longes de mim que vejo e quero,
Em espasmos havia de os mudar
E, num desejo nunca satisfeito,
Iria possuir-te, ó Mar!

Havia de cair, num beijo, sobre ti;
Despir as minhas vestes de serrano,
Tirar de mim aquilo que é humano,
E confundir-me em ti.

Gritem depois,  embora, que eu morri;
Alegre o Mundo o alívio do meu peso;
- que um dia o Sol há-de surgir mais cedo
E o bom menino de olhos azuis,
De quem sou fraco arremedo,
Há-de nascer, ó Mar, da nossa noite de amor

E tu Menina que eu chamava,
Menina que eu chamava e encontrei
Mas abrasada no amor divino
- tu hás-de ver então que o Céu que idealizas
É o olhar azul desse menino.
 
Sebastião da Gama
 (in Serra, 39)

2015-03-08

perpetua-se o escândalo





Frantisek Drtikol (1883-1961) Crucified
before 1914 (printed before 1914)
Gelatin silver print
22.7 x 17.3 cm
Städel Museum, Frankfurt am Main
Acquired in 2013 as a gift from Annette and Rudolf Kicken
© VG Bild-Kunst, Bonn 2013
de que têm medo, afinal?

porque a discriminação continua



Por isso, não se entende a luta da Igreja oficial contra o feminismo e o que chamam a ideologia de género. Não têm faltado na Igreja vozes a levantar-se por causa do "empoderamento" das mulheres, acusando o feminismo de procura do poder. Mas é Isabel Gómez-Acebo que tem razão, quando escreve que as raízes do poder se combatem justamente com o poder.

daqui

2015-03-04

celebremos a mudança

 

 

 

 

 

 

Atualização sobre a política de conteúdo pornográfico do Blogger

Esta semana, anunciamos uma mudança na política de pornografia do Blogger que declarava que blogs que distribuíssem imagens de sexo explícito ou nudez ostensiva passariam a ser privados.
Recebemos muitos comentários sobre o fato de fazer uma mudança na política que afeta blogs de longa data e sobre o impacto negativo que isso poderia ter sobre as pessoas que postam conteúdo sexualmente explícito, impedindo-as de expressar suas identidades.
Agradecemos os comentários. Em vez de fazer essa mudança, manteremos nossas políticas existentes.

os passos nossos de cada dia







ou muito me engano, ou Passos Coelho ainda um dia há de ser “dado” na escolas...e eu prefiro pisar um vespeiro, a ler a prosa da "tia".

2015-03-03



-Isabel é pobre. Diz a minha mãe que ela só dispõe de umas raras libras de rendimento anual. Seria interessante torná-la rica.
-Que é que consideras riqueza?
-Ricos são os que podem satisfazer os caprichos da sua imaginação. Isabel possui-a em alto grau.
Henry James, Retrato de uma Senhora, cap. XVIII
retirado daqui: http://ponteirosparados.blogspot.pt/


Vá lá, Henrique, nem todas as mulheres dominam à moda da D. Ângela. E sejamos honestos: num mundo onde o poder masculino se tem afirmado pela força e dureza afectiva, não há grande espaço para a fantasia e imaginação. Ninguém gosta que o outro seja assim, mas o mundo  está ordenado desse modo.


 

2015-03-01