2015-05-15




RISCOS


O nosso quarto habitual. As paredes erguem-se tal qual
como combinado. A janela desdobra-se, completa

com os cortinados fechados. Poderia ser ao princípio da noite ou
ao fim do dia. Penumbra inalterável.

algumas chalaças sobre a luz do dia que menos e menos suporta.
O odor a madeira e a tangerinas muito maduras.

Olha, ali surgem os armários, a cama de casal delineia-se
com os seus lençóis e os cobertores,

a colcha com a mancha exactamente no mesmo sítio. Lá
em baixo recompomos as nossas caras, sentamo-nos à mesa

e a vista enche as ombreiras: quintas, três árvores a abanar.
Sabemos de antemão o que iremos agora comer:

a entrada, que é sempre um desapontamento, o bife e a tarte de maçã.
Estamos mais velhos, entretanto podemos pagar

uma coisa melhor. Aqui chove a maior parte do ano.
O perigo maior envolve-nos com

o mesmo lugar, o mesmo quarto. Arriscamo-nos a ter hábitos,
amamo-nos. Repetimo-nos.


ESTER NAOMI PERQUIN, aqui



#imagem - Édouard Boubat , Sophie, Collioure, France, 1954

2 comentários:

  1. gosto das palavras e da imagem.

    ou seja, do teu bom gosto.

    abraço Maria

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  2. ainda bem que gostas :)

    Abraço, Luís

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