2015-06-30



Eu remava num lago...


Eu remava num lago. Era uma gruta abobadada sem luz do sol, mas estava claro, havia uma luz transparente e homogénea que irradiava da pedra azul pálida. Embora não se sentisse nem uma ponta de vento, as ondas subiam, mas não tanto que isso pudesse representar qualquer perigo para o meu barco, pequeno, mas sólido. Eu continuava a remar calmamente entre as ondas, mas quase nem pensava nos remos, estava todo concentrado em absorver ao máximo o silêncio que dominava o lugar, um silêncio como nunca o tinha sentido em toda a minha vida. Era como um fruto que eu nunca tivesse comido mas fosse o mais suculento de todos. Agora, tinha os olhos fechados e sorvia-o. Mas não sem alguma perturbação. O silêncio era ainda total, mas sentia-se uma perturbação contínua; qualquer coisa sustinha ainda o ruído, mas ele estava à porta, a rebentar de vontade de entrar subitamente. Rodei os olhos na direcção daquele que não estava ali, soltei um dos remos da arramação, pus-me de pé no barco que baloiçava, ameaçando o vazio com o remo. Mas o silêncio persistiu e eu continuei a remar.

Franz Kafka in "Parábolas e fragmentos"

#imagem- Douro, 2015

2015-06-20



 
Tive uma vida em ti. Melhor do que 
ninguém, sabes que não sou 
capaz de escrever poemas de amor. Em contrapartida, uso 
e abuso de versos para os demais assuntos.
Poemas de amor é que não.
Há muito que desisti deles, nem sei
porque me ponho agora a falar disto.

Existem metáforas sem fim. Disponho 
da linguagem toda. A coisa falha,
a maldita formulação,
assim que lhe chego perto a imagem de que 
deveria derivar
um poema que fosse de amor.
E de repente fico só com as palavras,
eu e as palavras e um vazio.

Admito que o meu modo de amar
configure um caso estranho
e pouco substantivo. Ainda amor,
talvez, e talvez
intraduzível. Decerto incompatível 
com o sentido honesto das palavras
que vou desalinhando e se mostram
prestáveis para outros fins, excepto para serem 
palavras de amor: matéria nuclear, uma ave 
de rapina engaiolada no escuro, o que quiseres 
imaginar. (...)
 
José Ricardo Nunes 
 
#imagem - Margarida Araújo

2015-06-11




11.
O Despertador

Um despertador exposto sobre um tapete cheio de pó era tudo quanto possuía, para vender, o pobre comerciante árabe. Durante dias, reparou que uma velha se interessava pelo relógio. Era uma bebuína, pertencente a uma daquelas tribos que voam com o vento.
«Desejas comprá-lo?», perguntou-lhe um dia.
«Quanto custa?»
«Pouco. Mas não sei se o vendo. Se este desaparecer deixarei de ter trabalho.»
«Então porque o tens exposto?»
«Porque me dá a sensação de viver. E tu porque o queres, não vê que lhe faltam os ponteiros?»
«Faz tiquetaque?», quis saber a velha.
O comerciante deu corda ao despertador fazendo soar um sonoro e metálico tiquetaque. A velha fechou os olhos e percebeu que, na escuridão da noite, podia assemelhar-se a um coração que bate ao lado do seu.

43.
Amou tanto

Agora era velha e não conseguia sentir-se tomada de qualquer sentimento em relação a coisa alguma, mas tinha amado muito. Esperava ainda encontrar-se com algum ser que se movesse sobre a crosta da terra.
Até que se enamorou pela fachada de uma igreja de Assis, decidindo mudar-se para aquela cidade. Era Inverno, e durante os temporais nocturnos, saía com o guarda-chuva para fazer companhia à igreja, plena de uma luz amedrontada.
Depois, chegou a Primavera, e todas as manhãs e todas as tardes, com as mãos, tocava as pedras quentes e enxutas. Foi um amor sereno e sem traições que durou até à sua morte.



Tonino Guerra in Histórias para uma noite de calmaria, 
tradução de Mário Rui de Oliveira, 
Lisboa: Assírio & Alvim, 2002
 

2015-06-10






Enquanto os outros peixes vivem tranquilamente debaixo de água, vivendo a vida que podem e sabem viver, o destino do peixe-voador está irremediavelmente preso às suas asas. Por isso o peixe-voador é o que menos vive. Vive na água mas com os olhos presos a uma superfície cheia de luz e de glória à qual jamais pode pertencer, refém e vítima do seu próprio desejo. Os peixes-voadores só podem ser mesmo anjos caídos, condenados, tal como Sísifo, Tântalo ou Prometeu, pela ira de Deus.

daqui







2015-06-09





Eu não conheço os homens. Há já anos
Que os procuro e lhes fujo, mas em vão.
Não os entendo? Ou entendo-os, porventura,
Demasiado? Mais que nestas formas
Evidentes, de áspera carne e osso,
De súbito partidas por uma débil mola
Se os reúne alguém apaixonado,
mortos na lenda entendo-os
Melhor. E deles volto aos vivos,
Fortalecido amigo solitário,
Como quem vai do manancial latente
Ao rio que sem alento desagua.
 
- Luís Cernuda in "Sete Poemas"

#imagem Consuelo Kanaga

2015-06-07

prisão






 

 

 

Da Vida... não Fales Nela

Da vida... não fales nela, 
quando o ritmo pressentes. 
Não fales nela que a mentes. 

Se os teus olhos se demoram 
em coisas que nada são, 
se os pensamentos se enfloram 
em torno delas e não 
em torno de não saber 
da vida... Não fales nela. 

Quanto saibas de viver 
nesse olhar se te congela. 
E só a dança é que dança, 
quando o ritmo pressentes. 

Se, firme, o ritmo avança, 
é dócil a vida, e mansa... 
Não fales nela, que a mentes. 



Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'

2015-06-04





Já disse que a alma não é mais do que o corpo,
E disse que o corpo não é mais do que a alma,
E nada, nem Deus, é maior para uma pessoa que ela própria,
E quem caminha duzentos metros sem amar caminha amortalhado para o seu próprio funeral,
E eu ou tu que não possuímos um centavo podemos comprar o melhor que a Terra contém,
E olhar com um só olho ou mostrar um feijão na sua vagem desconcerta
a aprendizagem de todos os tempos,
E não há ofício ou emprego em que um jovem não se possa converter em herói,
E não há delicado objecto que possa servir de eixo às rodas do universo,

E digo a todos os homens e mulheres: que a tua alma permaneça serena e tranquila ante um milhão de universos.
E digo à humanidade: não sintas curiosidade por Deus,
(Não há palavras que possam definir a paz que sinto em relação a Deus e à morte).

Escuto e comtemplo Deus em cada objecto, ainda que não O entenda minimamente,
Nem entenda que possa existir alguém mais maravilhoso do que eu próprio.

Porque é que desejaria ver Deus melhor do que este dia?
Vejo algo de Deus em cada uma das vinte e quatro horas, e vejo-o em cada momento que passa,
Vejo Deus no rosto de homens e mulheres e no meu próprio rosto ao espelho,
Encontro cartas de Deus espalhadas pela rua, todas assinadas com o seu nome,
E deixo-as onde estão pois sei que vá para onde for,
Chegarão sempre outras pontualmente.


Walt Whitman in Folhas de Erva
tradução - José Agostinho de Almeida


2015-06-01





V / BRAÇO SEM CORPO BRANDINDO UM GLÁDIO 
(Entre a árvore e o vê-la) 

Entre a árvore e o vê-la 
Onde está o sonho? 
Que arco da ponte mais vela 
Deus?... E eu fico tristonho 
Por não saber se a curva da ponte 
É a curva do horizonte... 

Entre o que vive e a vida 
Pra que lado corre o rio? 
Árvore de folhas vestida — 
Entre isso e Árvore há fio? 
Pombas voando — o pombal 
Está-lhes sempre à direita, ou é real? 

Deus é um grande Intervalo, 
Mas entre quê e quê?... 
Entre o que digo e o que calo 
Existo? Quem é que me vê? 
Erro-me... E o pombal elevado 
Está em torno na pomba, ou de lado? 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"